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Só Groucho

Dos afetos e desafetos do filósofo Luiz Felipe Pondé

Por Juliana Sayuri
De Porto Alegre
(22/4/2014)

Subiu ao palco, mais uma vez, no dia 8 de abril. Uma das estrelas da 27ª edição do Fórum da Liberdade, em Porto Alegre, o filósofo Luiz Felipe Pondé, 55, foi prestigiado por políticos e yuppies, empresários bonachões e estudantes de gravata borboleta, liberais de toda a sorte. Pediu um minuto de silêncio pelo primeiro aniversário da morte de Margaret Thatcher e dedicou outros 22 minutos a um discurso sobre saúde e política, intensamente festejado ao disparar críticas às palavras-chave: PT, marxismo, esquerda.

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Pondé não é fã do politicamente correto. Autor do manifesto Contra um mundo melhor (2010) e do best-seller Guia politicamente incorreto da filosofia (2012), o pensador se diz voz dissonante num país dominado pelo pensamento de esquerda. Em Porto Alegre, porém, estava entre os seus.

“A direita é uma minoria – e toda minoria fica alerta num ambiente hostil. A esquerda domina o debate público, não só no Brasil. Os esquerdistas ficam chocados ao descobrir que há gente que pensa diferente. Gente como eu”, diria dias depois, já de volta a São Paulo, filosofando sobre as tensões entre a liberdade de expressão e o espectro político no país.

Pondé estreou sua coluna na Folha de S.Paulo em 25 de agosto de 2008 – um longo caminho até 16 de abril de 2014, data de nosso café filosófico. “Nos últimos tempos, a situação melhorou. Antes, recebia muitas cartas, pedindo minha cabeça. Sumiram. Ficaram só os elogios. Todo mundo sabe, os leitores esquerdistas são muito ‘democráticos’”, ironiza. “Eles só admitem autores que dizem o que eles pensam. Mas muitos não me xingam mais. Preferem me ignorar, pois sabem que não tenho medo e não vou fugir do debate.”

Pernambucano de Recife, Luiz Felipe Pondé cresceu em Salvador. Estudou medicina na Universidade Federal da Bahia (UFBA), mas nunca vestiu o jaleco branco. Desistiu do curso no último ano e, em busca de respostas a suas inquietações existenciais, decidiu morar num kibutz em Israel. De volta ao Brasil, estudou na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) a partir de 1987. Doutor na USP, também estudou em Paris e em Tel-Aviv. Atualmente, é professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP).

Lattes feito, Pondé passou a se destacar principalmente a partir do espaço que lhe foi concedido no caderno cultural da Folha às segundas-feiras. “O papel do intelectual é participar do debate público. Estudante de filosofia, adorava Paulo Francis. Lia a Ilustrada e pensava: um dia, escreverei nestas páginas.” De fato, escreveu. Ali colecionou afetos e desafetos, dialogou com leitores, travou duelos com outros intelectuais. Dos afetos, nomes como Demetrio Magnoli, Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino. Dos desafetos, gays, feministas, religiosos e marxistas, de todos os estilos. “Sou professor. Minha impressão básica é que o falta muitas vezes na sala de aula é falarmos ‘a verdade’. (…) Uma grande traição feita aos mais jovens é atolá-los em ‘teorias a serviço da emancipação’. Eu não quero emancipar ninguém porque para isso teria que mentir. (…) Calma, caro leitor! Sei que ‘cada um é cada um’. Uma afirmação forte como essa, ‘a verdade’, pode me custar muitos amigos. Nunca mais jantares inteligentes”, escreveu [Ilustrada, “Na escuridão”, 1º/9/2008].

Persona non grata talvez nos jantares inteligentes da tal “esquerda caviar”, expressão de Rodrigo Constantino, Pondé se divide entre filósofo stricto e latu sensu. “Sou uma criatura híbrida. Na medicina, pensava como filósofo. Na filosofia, penso como médico. Também tenho uma relação promíscua com a universidade e a mídia. Adoro a vida acadêmica, apesar da patifaria e do jogo de vaidades. E adoro a imprensa – ali, o debate é pra valer, embora as ideias não sejam tão profundas.”

Pondé também assina o livro Por que virei à direita (2012). Mas nunca esteve à esquerda – como os criticados por Frei Betto no texto Como endireitar um esquerdista: “Adeus ideais, utopias, sonhos!” Pondé, não. Nos tempos de kibutz, simpatizou com o anarquismo, mas nunca flertou com marxismo, Cuba e União Soviética – “uns chatos”, define.

Após muitas segundas-feiras, marcadas por colunas às vezes raivosas como as de Reinaldo Azevedo, mas talvez mais elegantes, o filósofo irritou principalmente as mulheres e as esquerdas. As primeiras, por pérolas como: “Assim como a prostituta é a primeira e a mais sublime vocação de toda mulher, afirmo: sou lido, logo existo” [“O fio de cabelo de uma mulher”, 27/2/2012]; “Gosto não se discute, lamenta-se” [“Amando uma mulher inteligente”, 11/2/2013]; “Quando vamos perceber o fato óbvio de que o feminismo é a nova forma de repressão social do sexo?” [“Bonecas de quatro”, 10/6/2013]. “Ser jovem e liberal é péssimo para pegar mulher” [“Por uma direita festiva”, 21/4/2014]. Machista? “Risos. Isso é propaganda ideológica das feministas que ficam bravas quando digo que elas não entendem nada de mulher.” Misógino? “É o que dizem os inteligentinhos que não entendem a ‘vida como ela é’, para citar Nelson Rodrigues.”

As esquerdas já teriam razões outras para indignação. Dizer esperar um mundo melhor, uma sociedade mais livre, justa e igualitária seriam quase palavrões para o filósofo. O politicamente correto? “Uma praga, atitude que combina informação falsa e covardia chique.” No papel, publicou: “Desde a maldita ditadura, colou no país a imagem de que a  esquerda é amante da liberdade. Mentira” [“Eu acuso”, 4/11/2013]; “Tem gente que ainda relaciona ‘socialismo e liberdade’, como se a experiência histórica não provasse o contrário. (…) A esquerda é totalitária. Quer nos convencer que não, mas mente. (…) Constrói para si a imagem de ‘humanista’ (…) e de que quem discorda dela o faz porque é mau” [“Socialismo é barbárie”, 24/2/2014]. Malvado? “Nunca me disseram isso diretamente. Metido, sim. Malvado, não. Se me dissessem, daria uma bela aula sobre sociedade e mercado.” Liberal? “Sim, conservador na política, liberal no resto. Compreendo a liberdade no sentido mais profundo e ontológico, como a principal incerteza da vida, como diziam os existencialistas: estamos condenados à liberdade? Somos livres, pois a priori a vida não tem sentido. Seria niilista, mas numa chave nietzschiana, talvez melancólica. Isso me afasta dos liberais alegres. Minha liberdade passa pela possibilidade de poder ser infeliz.”

Celebrado como pensador pop star pela direita, Pondé gosta de provocar – e não só as esquerdas. “Certa vez escrevi sobre aeroportos, que se tornaram um ‘churrasco na laje’. Recebi cartas de uns enjoados dizendo: ‘Parabéns, esse filósofo é aristocrata como eu’. Dias depois, escrevi sobre minha trajetória, que era um nordestino que se mudou para São Paulo. Recebi cartas dos enjoados novamente: ‘Que decepcionante’. Que mania essa de rotular todo mundo, que horror essa sociedade de caixinhas!”

Fora das caixinhas, Pondé não se importa de estar sozinho, num vaidoso “falem bem ou mal, mas falem de mim”. Leu, mas jamais citaria Marx. Talvez só Groucho Marx: “Não me interesso em pertencer a um clube que me aceite como sócio.”

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