ilustríssima – folha

Passado que não passa

Juliana Sayuri
De Florianópolis
(Para Folha de S.Paulo – 26/8/2018)

Resumo
Documentos mostram nova evidência de que o governo americano, já nos anos 1960, sabia da repressão violenta no Brasil durante ditadura militar, além de detalhes sobre o monitoramento de nomes como Portinari e Niemeyer.

Em julho de 1970, o jornalista americano Robert Erlandson, do Baltimore Sun, bateu à porta da embaixada de seu país no Rio. O repórter investigava denúncias envolvendo especialistas dos EUA e a instrução de técnicas de tortura a policiais e militares brasileiros mediante o programa de treinamento da Usaid (agência americana para o desenvolvimento internacional). 

Encurralado pelas perguntas, Robert Ballantyne, diretor da agência, tergiversou: não confirmava, mas não negava a prática de tortura no Brasil.

Após a publicação da reportagem, no dia 4 de agosto, William Rogers, secretário de Estado dos EUA, repreendeu a equipe da embaixada num telegrama que até agora não havia se tornado público: “Estamos cientes da campanha para deslegitimar o governo brasileiro […]. Também estamos cientes, assim como a embaixada, de que a tortura está sendo usada deliberadamente pelas forças de segurança do governo brasileiro em certas instâncias. Então nós não podemos parecer, de nenhum modo, tolerar ou justificar ou explicar ações repugnantes”.

Oficialmente, portanto, os EUA deveriam adotar posição pública bastante diplomática. “Nós nos preocupamos com alegações e relatos de tortura. Discutimos o assunto com oficiais de alto escalão que nos garantiram que o governo brasileiro não tolera a tortura”, disse Rogers, por exemplo.

Extraoficialmente, a história é outra. O telegrama de Rogers agrega nova evidência de que o governo americano estava ciente da repressão violenta no Brasil. O historiador Rodrigo Patto Sá Motta afirma: “Os EUA estavam perfeitamente informados das violações, mas não podiam admitir e apoiar, inclusive financeiramente, uma ditadura violenta. Assim, adotaram uma postura cínica”. […]

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