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Os caçadores de tesouros em tempos de YouTube

Com detectores de metal e ferramentas em mãos, jovens caminham pelas praias em busca de artigos perdidos e encontram de tudo: de alianças a revólveres

Por Juliana Sayuri
De Florianópolis
(Para Motherboard – 4/7/2018)

Uma isca artificial, estilo colher. Este foi o principal saldo de uma breve “caçada” de dois amigos na praia da Joaquina, Florianópolis. Descoberta muito modesta, é verdade, mas a isca cintilante me fisgou: quem são esses caras que ficam cavoucando a areia em busca de uma arca de tesouros escondidos em pleno 2018?

Na real, são muitos caras: do adolescente fã de youtuber besteirol ao professor sênior de universidade federal. Retratados como “caçadores” e “aventureiros” ávidos por ouro, eles preferem se identificar como “detectoristas”. Passam horas caminhando no litoral ou nas cidades históricas, à espera de um sinal do detector de metais, para então escavar o ponto X. Nos últimos tempos, eles têm investido uns bons milhares de reais para importar detectores – e passado bastante tempo online cavando informações e técnicas de detectorismo.

Foi na internet que o santista Felipe Espinoza, 33, pegou a famosa febre do ouro: afastado do trabalho por uma cirurgia de hérnia de disco, ele foi fisgado por vídeos gringos e passou a buscar informações nas páginas do Facebook, “uma enciclopédia”, ele diz. “O mais legal é a expectativa, é não saber o que vai sair do buraco. É a adrenalina”, diz Espinoza, um cara alto e tatuado, que ostenta orgulhoso uma barba de três anos.

Em 2015, o detectorista santista comprou o primeiro equipamento via Mercado Livre. Em 2017, trocou por um CTX 3030 Minelab usado: um novo custaria cerca de R$ 9 mil, mas o amigo descontou para R$ 5 mil e Espinoza pôde pagar “parcelado” mediante 60 gramas de ouro encontrados ao longo de 60 dias na Baixada Santista. Atualmente, o grama do ouro 18k vale cerca de R$ 155.

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FOTO: ARQUVO PESSOAL

O investimento inicial varia, mas há quem desembolse mais de R$ 10 mil num kit de ferramentas para detectar na areia: além do detector, é preciso sand scoop (uma pá especial de aço inox), botinha de neoprene (evita beliscões de siri e outros bichos), lanterna (muitas saídas são à noite, num breu total), uma balança pequena de precisão (essencial para pesar as peças) e uma clássica pochete para carregar as quinquilharias.

Nas suas andanças no litoral paulista, Espinoza aprendeu técnicas e conheceu adeptos de outros cantos, que confraternizam no WhatsApp e no Facebook. E os novatos não param de apitar.

Desde que dois youtubers famosos fizeram vídeos com detectores, o interesse despertou quase uma nova “corrida do ouro” no Brasil. Em setembro, Vlad, o gerente de marketing de uma mineradora gringa por trás do canal Área Secreta, postou experimentos com detectores na praia, na montanha e na floresta para seus 5,9 milhões de seguidores. Em dezembro, Luccas Neto, apenas vlogger mais assistido do mundo, que faz experiências “educativas” como torrar R$ 500 na máquina de pegar ursinho ou R$ 1 mil de bilhetes de raspadinha, somou mais de 14 milhões de views detectando na sua “praia secreta do condomínio”.

De lá pra cá, passaram a pipocar canais diversos dedicados à prática: os Caçadores de Tesouros, por exemplo, contam 104 mil seguidores; e o buraco vai até o outro lado do mundo, onde um casal de brasileiros exibe expedições no território japonês, o Solo da Sorte, com 62 mil seguidores.

O boom de novos adeptos e aspirantes não agradou: além da disputa à unha na esperança de encontrar um anelzinho de ouro (ou uma pepita, no garimpo), muitos não gostam da propaganda (enganosa) de que dá pra ficar magicamente milionário caçando riquezas enterradas pelo tempo – uma ilusão que também torna os detectoristas um alvo. “Sabe quem mais acha que a gente acha ouro nas caçadas? Os ladrões. A gente não gosta de expor o hobby para não atrair bandidagem”, diz Espinoza.

Os caçadores calejados sabem que é raro encontrar ouro ou outras joias e relíquias valiosas. Assim, eles têm tratado o detectorismo como um tipo de hobby, que envolve atividade física (caminhadas de horas a fio ao ar livre), ação social (participando de mutirões para tirar toneladas de lixo das orlas) e até um tipo de “achados & perdidos” de peças de valor sentimental.

Achados & Perdidos
No Brasil, a palavra “detectorismo” é bastante nova (o neologismo nem está no dicionário, diga-se), mas a prática se difundiu principalmente a partir de fins da década de 1990. Na Europa e nos EUA, data do pós-Segunda Guerra Mundial, na trilha do avanço tecnológico de equipamentos de detecção de minas terrestres por militares.

Ao longo das décadas de 1960 e 1970, o detectorismo se expandiu num território europeu “minado” pelos conflitos entre os detectoristas amadores e a comunidade científica, principalmente arqueólogos e historiadores. “Nos anos 1970, a recorrência de denúncias de sítios arqueológicos comprometidos por detectoristas, além da venda desenfreada de importantes artefatos históricos no mercado paralelo de artes e antiguidades, motivou na Inglaterra a criação de um movimento de arqueólogos para banir os detectoristas amadores”, conta o historiador paranaense Alexandre Busko Valim, 44, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Enquanto países como França, Espanha e Áustria exigem uma licença para a prática, o detectorismo é proibido em muitos outros lugares. Na Inglaterra, atuam os nighthawks, os caçadores ilegais. No México, há relatos de máfias em certas regiões. Nos EUA e no Brasil, a atividade não é proibida, ao contrário: não há controle nenhum, o que acaba abrindo brechas para depredação de lugares tombados de importância histórica e arqueológica.

O brilho do ouro faz “crescer o olho”, como diz Espinoza. Nos EUA, por exemplo, os treasure hunters já estrelam programas no History e Discovery Channel. “No Brasil, relatos incessantes de joias a ‘botijas de moedas’ encontradas continuam fomentando o crescimento da atividade e aquisição de equipamentos, que podem ser bem caros. Assim, o hobby é alimentado, em boa medida, por relatos exagerados alardeados nas redes sociais. A percepção, bastante difundida de que ‘tesouros’ e achados valiosos estariam à espera de intrépidos e incansáveis detectoristas, quase sempre redunda em iniciantes frustrados e no acelerado crescimento do mercado de aparelhos usados”, critica Valim.

Nos tempos do finado Orkut, em 2005, o empresário paulista Gerson Hideo Yoshihara, 56, fundou a Radar Detectors, principal importadora de detectores de metais no país. Há 13 anos no ramo, Gerson já encontrou anéis, brincos e relógios de diversos tipos. “A busca por objetos perdidos é fascinante. Cada achado tem uma história”, afirma o simpático senhor de ascendência asiática, que já recusou pedidos de entrevista temendo alardear o detectorismo para curiosos.

Esta é a palavra-chave dos detectoristas: “achado”. Eles investem no hobby e guardam os itens escavados como “totens” de suas explorações (embora guardem no fundo uma esperança de um dia tirar a sorte grande num baú de tesouro pirata). Como definiu o detectorista carioca Magrello Neves num post recente: “Quando perguntam, logo digo que, se for comprar detector pra ficar rico, vai ficar é R$ 5 mil mais pobre. Tem que curtir o hobby e o que vier é lucro.”

Entre os achados de Espinoza está uma aliança de ouro descoberta no Guarujá. Estava gravado na parte interna: “Kelver & Camila”. Na sorte, o santista procurou por Kelver e Camila no Facebook como um perfil de casal e bingo. Mas o casal, distraído, não respondeu às diversas tentativas de contato do bom samaritano. Depois de semanas de insistência, o santista conseguiu localizá-los no sul de Minas, Uberlândia: Kelver tinha perdido a aliança nas férias. No fim, eles pagaram um Sedex para receber o anel de volta e mandaram R$ 100 como agradecimento ao caçador.

Desde 2015, Espinoza encontrou mais de 100 gramas de ouro, uma aliança de prata, outra de 9 gramas de ouro da Vivara (que valia R$ 2.800) e um revólver 32. Das antigas, resgatou um anel de 18 gramas de ouro do Santos, uma colher de prata dos anos 1940 e um punhado de lacre redondo dos anos 1980. Seria história de pescador, não fossem as fotos dos milhares de souvenires.

“Mas, na maioria das vezes, é só lixo. Você vê a realidade da praia brasileira: resíduo metálico, muito, mas muito lacre de latinha de alumínio. Dá três apitos, você cava, cava, cava e encontra três lacres. É a maior bronca”, diz ele, que guarda um pote de 1,5 kg de anéis de alumínio e 8 kg de bijuterias em potes de palmito. Mas até as tranqueiras têm valor sentimental. Um lacre, afinal, é um lacre.

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