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Florianópolis vive explosão de violência

Por Juliana Sayuri
De Florianópolis
(Para Cotidiano – Folha de S.Paulo – 2/11/2017)

O ano de 2017 começou com um tiro. Na noite de réveillon, a instrutora de ioga Daniela Scotto, 38, foi atingida ao entrar, por engano, em uma rua da comunidade do Papaquara, no norte de Florianópolis (SC). Foi um “desvio” do destino: o GPS indicara o caminho para a turista gaúcha e sua família a bordo de um Tucson, que foram parar na Servidão Braulina Machado.

Era o lugar errado, na hora errada. Antes das 2h de 1º de janeiro, Daniela não resistiu ao tiro  e morreu, marcando o primeiro degrau da escalada de violência que se desenrolou ao longo deste ano na capital catarinense.

Até abril foram registradas 75 mortes violentas. Em fins de setembro, segundo os dados mais atuais da gerência de estatística e análise criminal da SSP-SC (Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina), o número saltou para 127, recorde histórico para a ilha.

Quinze anos atrás, em 2002, Florianópolis registrou apenas 8 crimes violentos. Até 22 de setembro, a capital catarinense somou, em 2017, 106 casos de homicídio, 6 de latrocínio, 5 de lesão corporal seguida de morte e 10 confrontos policiais.

Num fenômeno de violência inédita, a ilha assistiu a execuções a sangue frio como um assassinato a tiros diante do Mercado Público, no centro, além de tiroteios à luz do dia e toques de recolher em algumas áreas.

Os crimes se concentraram principalmente nos Ingleses (bairro no norte da ilha que abriga a Favela do Siri) e no Monte Cristo (área continental que reúne as comunidades de Chico Mendes e Novo Horizonte, epicentro das disputas entre facções, fazendo jus ao novo apelido: “Faixa de Gaza”).

Capital com o melhor índice de desenvolvimento humano do Brasil, destino turístico e polo de inovação tecnológica, Florianópolis é conhecida como “ilha da magia”.

Emoldurada por mares cristalinos e morros, Floripa é uma cidade de autoestima elevada, assim como o Rio, a “cidade maravilhosa”. Mas, assim como a capital fluminense, a chamada ilha de Santa Catarina atravessa uma grave crise de segurança pública.

Ataques
Em fins de agosto, a capital e 30 cidades catarinenses viveram cinco noites consecutivas de atentados, incluindo tiros, incêndio e bomba contra DPs.

No dia 1º de setembro, o Estado divulgou uma nota destacando números “que impressionam”, diz a nota: entre 1º de janeiro e 31 de julho, foram feitas mais de 17 mil prisões e apreensões num total de 45,1 toneladas de maconha, 9,7 toneladas de cocaína, cerca de 230 mil pedras de crack e 2.532 armas, além de 5.150 ocorrências relacionadas ao tráfico de drogas.

Duas tramas se desenrolam paralelamente neste contexto. Por um lado, a disputa territorial entre duas facções rivais, o PGC (Primeiro Grupo Catarinense) e o paulista PCC (Primeiro Comando da Capital). Por outro, o “revide” de facções por situações que consideram “injustas” dentro do sistema prisional e de repressão nas ruas.

O delegado Antônio Cláudio Seixas Jóca, 43, da Draco (Divisão de Repressão ao Crime Organizado), liderou o cumprimento de 112 mandados de prisão em sete cidades catarinenses, em abril. Foi a maior ofensiva contra uma facção “de São Paulo” que tentava se instalar em Santa Catarina –oficialmente, a Polícia Civil não dá nome a elas.

À frente de investigações para e monitorar suspeitos, Jóca diz que a quadrilha paulista foi freada. “Eles estão esparsos agora. Dos 250 indivíduos, 200 estão presos. Restaram poucos nas ruas.”.

Mas, se antes Santa Catarina tinha índices de fazer inveja, pela primeira vez o Estado perdeu a liderança no ranking: segundo o último Atlas da Violência, estudo realizado por Ipea e Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Santa Catarina registrou mais assassinatos que São Paulo: a cada 100 mil habitantes, houve 14 mortes, ante 12,2 em São Paulo, a menor marca do país.

Utopia
“Florianópolis atravessa fenômenos similares aos enfrentados por Rio e São Paulo na década de 1980”, disse o historiador Reinaldo Lindolfo Lohn, 46, professor da Universidade do Estado de Santa Catarina.

“Ao mesmo tempo em que é divulgada como polo turístico, uma utopia urbana de classe média e alta nos moldes de Jurerê Internacional, Floripa é uma cidade litorânea, um mini Rio, cercada por periferias, uma mini São Paulo”, analisa o autor de “Artífices do Futuro” (ed. Insular, 2016).

“A segregação sócio-urbana e o poder público ineficiente abriram brechas para a instalação do mercado de drogas. É como outras cidades marcadas por informalidade econômica, interesses políticos e tráfico, que explodem na forma de violência.”

O historiador Camilo Buss Araújo, 36, professor do Colégio Aplicação da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), diagnostica uma falta de investigações científicas sobre segurança pública.

“Há uma tendência de construir narrativas sobre Florianópolis como um paraíso místico, sem comprovação empírica”, afirmou.

“Hoje Florianópolis é uma cidade violenta. Tem assalto, estupro, sequestro relâmpago, tem tudo. Mas há áreas mais perigosas que outras. Andar no Leblon é diferente de andar na zona oeste carioca e, na mesma linha, andar na beira-mar norte florianopolitana é diferente de andar no Chico Mendes. Há quem pense que o Rio é a cidade mais perigosa do mundo e Florianópolis é a mais tranquila. É um erro duplo.”

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