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Livro revê influência da propaganda política dos Estados Unidos no Brasil

Por Juliana Sayuri
De Florianópolis
(Para Mundo – Folha de S.Paulo – 24/9/2017)

Na década de 1940, o cinema americano desembarcou de vez no Brasil. Foram 134 filmes, 406 documentários e 1.700 cinejornais até 1945. Rolos de 16 e 35 milímetros, projetores e demais equipamentos eram transportados em charretes puxadas por cavalos ou burros pelos rincões do país sob a rubrica “Comitê de Coordenação Americana”.

O comitê, na verdade, era o OCIAA (Escritório do Coordenador de Assuntos Inter-Americanos), agência americana responsável pela “política de boa vizinhança” durante a Segunda Guerra Mundial. Na época, a “boa vizinhança” pretendia firmar vínculos militares, diplomáticos e culturais entre EUA e América Latina contra o nazi-fascismo.

Dirigido pelo bilionário Nelson Aldrich Rockefeller, que nos anos 1970 se tornaria vice-presidente dos EUA, o OCIAA organizou a BD (Divisão Brasileira, na sigla em inglês), cuja missão era disseminar o “American way of life” no Brasil por meio de pesados investimentos no cinema –uma estratégia de propaganda política digna de roteiro de filmes como “Argo” (2012).

“O cinema foi o mais importante instrumento de persuasão política dos EUA”, avalia Alexandre Busko Valim, autor de “O Triunfo da Persuasão” (Alameda, 2017) e professor da Universidade Federal de Santa Catarina.

Valim vasculhou o Arquivo Nacional em College Park, Maryland, durante seu pós-doutorado na NYU (Universidade de Nova York), entre 2015 e 2016. No livro, recém-lançado, o historiador revela documentos confidenciais e informações inéditas sobre essas operações de diplomacia cultural.

Um dos documentos é um memorando de abril de 1942, que explicita as propostas do OCIAA: destacar o poderio militar, reforçando a ideia de que os EUA tinham o que era preciso para vencer a guerra (“confiança em nós”, frisava o documento); indicar que uma vitória dos inimigos escravizaria a América do Sul (“medo do Eixo”); e mostrar motivos para “ativa amizade” com os EUA (“nós somos pessoas legais”).

O interesse dos EUA no Brasil era estratégico nos tempos de guerra: cá estavam matérias-primas como alumínio, amianto, bauxita, borracha, manganês, entre outras.

Ativa entre 1941 e 1945, a BD fundou comitês no Rio (sede), São Paulo, Salvador, Recife, Porto Alegre, Natal, Fortaleza, Curitiba, Belo Horizonte e Belém. Escritórios menores foram abertos em Vitória, Manaus e Florianópolis.

Entretanto, os filmes não eram exibidos no circuito convencional restrito às capitais. Em busca de uma audiência maior, a BD levou projeções, todas gratuitas, a quartéis, clubes, câmaras, instituições psiquiátricas, praças, presídios, sindicatos e até missas no interior do país. Foram feitas sessões de norte a sul, incluindo vilarejos às margens do Rio São Francisco, onde os filmes ganharam fama: a “chegada” do cinema americano atraía multidões.

Em cidades pequenas, muitas vezes a única fonte de luz disponível vinha de lamparinas a querosene. Equipes da BD levavam geradores portáteis a gasolina e o aparato necessário para as exibições –os “infiltrados” não pouparam esforços para a distribuição dos filmes.

Gambiarra americana
Apoiada pela Embaixada dos EUA no Brasil, a BD se instalou quase que clandestinamente no país governado por Getúlio Vargas.

Na época vigorava o Decreto-Lei de 13 de abril de 1938, que proibia o exercício de atividade de natureza política (inclusive propaganda) por estrangeiros.

Os americanos escolheram uma saída simples: as atividades da BD, diziam, formalmente funcionariam como um subcomitê da Câmara Americana de Comércio no Rio –uma fachada.

Mas a questão mais grave era a transferência de recursos para as operações. Assim, o OCIAA optou por uma gambiarra: transferir fundos apenas para os “seis notáveis”. Eram os civis americanos que compunham o comitê brasileiro: o advogado Carl Kincaid e os empresários Earl Givens, Frank Powers Jr., Harry Covington, James Callery e Wingate Anderson.

Um corretor de câmbio nova-iorquino enviava o dinheiro para os seis, que as repassavam para as atividades da BD. Os fundos eram remetidos como “doações de ajuda”.

A BD se tornou a mais importante subsidiária do OCIAA na América do Sul, com 107 funcionários, um orçamento milionário e uma rede de relações com autoridades, militares e políticos brasileiros.

“Em linhas gerais, havia uma grande tolerância do governo brasileiro. O DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), contudo, resistiu a essa interferência externa e, em muitos momentos, competiu com o governo estadunidense na disseminação de propaganda, especialmente nas capitais. Assim, a propaganda dos EUA foi muito mais efetiva no interior do país”, analisa Valim.

Alô, amigos
Sob a fachada de filmes “educativos”, mais de mil de filmes foram exibidos pela BD no Brasil.

Muitas mensagens não eram exatamente subliminares, como dizia a introdução de um pequeno curta: “Este filme que você está prestes a assistir é oferecido pelo povo americano ao povo brasileiro. Aqui nos EUA nós estamos continuamente vendo filmes sobre o Brasil, e nós esperamos que você aprecie nossas coisas e gostem de nós assim como nós gostamos de vocês”.

Transmitidos em inglês, legendados sempre que possível, os filmes eram feitos sob contratos intermediados pelo OCIAA: as reuniões da BD, no Rio, contavam com a participação da Embaixada dos EUA e representantes de estúdios como Twenty-Century Fox e Paramount, e às vezes convidados especiais, como Orson Welles durante a temporada em que filmou no país.

Neste contexto, Carmen Miranda se tornou um tipo de “embaixatriz do Brasil nos EUA”. Os filmes da pequena notável fizeram sucesso estrondoso na aproximação entre os dois países.

Outro sucesso foi Walt Disney, que fez uma série de animações sob encomenda do OCIAA. No filme “Alô, Amigos” (1943), Disney introduziu um novo personagem, Zé Carioca, que passeava por territórios sul-americanos ao som de “Aquarela do Brasil”.

Segundo Valim, a animação causou alvoroço. “Era considerada uma das produções mais exitosas na disseminação da política da ‘boa vizinhança’ em solo brasileiro”, afirma.

Em 1945, diante do fim da guerra, o complexo logístico da BD foi desmontado. Além da aliança diplomática, o investimento na propaganda política garantiu a formação de um mercado consumidor no Brasil, atrelado aos interesses dos EUA no pós-guerra. Afinal, amigos, amigos, negócios à parte.

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