ilustríssima – folha

“Times” de Divinópolis

Juliana Sayuri
De Belo Horizonte
(Para Folha de S.Paulo – 25/6/2017)

Era maio de 2004. À época, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fazia sua primeira visita oficial à China, acompanhado de mais de 400 empresários e uma caravana política “sui generis”. A comitiva que se formou ao redor do petista incluía Eduardo Campos (morto num acidente aéreo em 2014), Dilma Rousseff, Antonio Palocci, Geraldo Alckmin e Aécio Neves.

Nos dez dias de missão diplomática, dois mineiros se conheceram num encontro igualmente singular no museu histórico de Nanquim, capital da província de Jiangsu: a jornalista Leida Reis, repórter do jornal “O Tempo”, e o engenheiro Milton Nogueira, consultor ambiental da ONU. O acaso virou amizade e, uma década depois, originou uma aventura jornalística.

Juntos, Reis e Nogueira desengavetaram “Vossa Senhoria”, o menor jornal do Brasil, que mede 3,5 cm de altura por 2,5 cm de largura.

“Foi o menor jornal do mundo”, afirma Nogueira, 74, lembrando a láurea conferida pelo “Guinness Book” em 2000. Desde 2012, o título pertence ao português “Terra Nostra”, que mede 18,27 mm por 25,35 mm e pesa 1 grama. “Não quis entrar nessa disputa de pequenez, senão amanhã estamos no alfinete. Daqui a pouco vamos vender lupa, não jornal.”

Impresso pela primeira vez no dia 18 de agosto de 1935, “Vossa Senhoria” rodou em diferentes cidades, acompanhando as mudanças de endereço de seu fundador, o jornalista Leônidas Schwindt (1906-1972), natural de Uberabinha, atual Uberlândia (MG).

O periódico nasceu na antiga capital goiana, cidade de Goiás, e passou pelos municípios mineiros de Pará de Minas, Abaeté, Pitangui e Divinópolis. Schwindt, que desempenhava as funções de gráfico, jornalista e jornaleiro, mudava-se muito, buscando oportunidades para sua pequena oficina de máquina manual que rodava o “Vossa Senhoria” e o “Diário do Oeste”, que lhe garantiram o ganha-pão para sustentar sete filhos.

Milton Nogueira, por sua vez, nasceu em Nova Serrana, cresceu em Divinópolis e estudou em Ouro Preto. Trabalhou na indústria metalúrgica e participou da fundação do Instituto de Desenvolvimento de Minas Gerais nos anos 1970. Passou por Brasília e pelo Rio, onde atuou no Ministério de Minas e Energia até 1984, quando se tornou engenheiro especialista em sustentabilidade e mudanças climáticas na agência da ONU dedicada ao desenvolvimento industrial.

O engenheiro trabalhou mais de 17 anos no departamento, percorrendo 62 países. Nas férias, em Divinópolis, visitava a casa da família Schwindt, pegava exemplares de “Vossa Senhoria” e os distribuía por suas andanças mundo afora.

Risco financeiro
Agora Nogueira se divide entre Belo Horizonte e Viena. Desde que se 
aposentou como consultor ambiental da ONU, há 15 anos, decidiu investir em projetos pessoais, entre eles o minijornal. Seus amigos questionaram a viabilidade da empreitada.

“Isto não é business, é cultura”, diz o publisher, que tira R$ 2.000 por mês do bolso para bancar a impressão de mil exemplares e a remuneração dos três integrantes da Redação (editora, designer e assistente). “Quis resgatar ‘Vossa Senhoria’ para preservar sua história”, afirma. “[O periódico] é um fato jornalístico, um ato cultural. Uma gota de perfume”, sintetiza o mecenas.

Na década de 1940, “Vossa Senhoria” tinha 2.500 exemplares e se mantinha com anúncios do elixir de Nogueira para sífilis e do vinho creosotado Silveira para bronquite. Proclamava-se “defensor dos interesses comunitários” e “divulgador do humorismo e do progresso”.

“Era um jornal crítico e combativo. Leônidas brigava com o prefeito, o padre o dono do armazém”, afirma Nogueira. Devido à linha editorial, o jornalzinho sofreu censura prévia durante o estado de sítio de novembro de 1955 a janeiro de 1956, o que levou a sua suspensão. “Vossa Senhoria” morreu pela primeira vez.

Três décadas depois, Dolores Schwindt (1943-2007), filha de Leônidas, retomou o minijornal. Desta vez, impresso no linotipo, mensal e nas medidas mínimas que lhe renderam referência no livro dos recordes. Publicado de 1985 a 2007 em Divinópolis, “Vossa Senhoria” tinha 5.000 assinantes, dos quais 100 fora do Brasil. Para atender o inesperado interesse internacional, passou a publicar quatro páginas extras em inglês.

Após a morte de Dolores, sua irmã Dulce (1949-2013) assumiu o jornal, mas lançou poucas e esporádicas edições até 2010. Depois que Dulce morreu, a última irmã, Leonice, não quis tocar o negócio. Aí surgiu o convite para Nogueira assumir os direitos da publicação.

O engenheiro, porém, precisava de um editor. Vasculhando sua caderneta de contatos, voltou-lhe à memória a missão diplomática à China –e a jornalista Leida Reis, 51.

Nascida em Patrocínio, Reis foi editora do diário “Hoje em Dia” e colunista política de “O Tempo”, passou pelas Redações do “Diário do Comércio”, do “Estado de Minas” e da “Rádio América” e escreveu o romance “A Invenção do Crime” (Record, 2010). Perto dos 50, Reis decidiu sair dos jornalões para montar a editora Páginas, que publica livros infantis como “Bilô Desembolô” e “Vovó Inventa Palavras”.

A convite de Milton, incluiu o jornalzinho no portfólio da editora, que se resume a um escritório no seu apartamento, decorado com estantes abarrotadas de livros e fitas cassetes, uma máquina Olivetti Tropical, um rádio Teem estilo retrô e uma poltrona com estampa de papel jornal. Ali, o acervo do pequeno periódico se limita a uma caixa de sapatos e três caixinhas de papelão pardo de 25 cm por 17 cm.

Retorno
“Vossa Senhoria” foi relançado na Festa Literária de Divinópolis, no dia 20 de 
agosto de 2016. A manchete, em inglês, dizia: “Ele voltou! Reedição do microjornal criado em 1935 por Leônidas Schwindt é saudada em Divinópolis e no exterior”.

Atualmente, “Vossa Senhoria” publica pílulas de notícias de cultura, economia e política, com duas correspondentes internacionais voluntárias –Andreia Vizeu, de Nova York, e Luciana Otoni, de Brasília–, charges e crônicas de autores convidados.

Inclui entrevistas (às vezes exclusivas, como a do ex-presidente do Timor Leste e Prêmio Nobel Ramos Horta), uma página para receitas e uma coluna fixa de Milton Nogueira, “Pequena Utopia”. Todos se esforçam no quebra-cabeças que é sintetizar ideias em apenas 250 caracteres por lauda, pouco mais que um tuíte.

A manchete de junho acompanhou a pauta de Brasília: “Que presidente tem o Brasil?”, com reportagem sobre a crise política e o destino incerto de Michel Temer.

Leida Reis contratou um jovem jornalista para escrever matérias e diagramar as minúsculas laudas no InDesign com fonte Times New Roman no corpo 5,2. Impresso em papel reciclado, o periódico conta 26 páginas em português e 4 em inglês. É um origami de uma folha A4 cortada na guilhotina.

Quem monta os exemplares, artesanalmente, é Patrícia Guimarães Lima, 39, que também organiza informações do site e dos assinantes. São poucos: 60, espalhados em cidades como Recife, Rio, Brasília, Pelotas, além do interior da Bahia e de Minas.

Prestes a comemorar mais um aniversário, em agosto, “Vossa Senhoria” precisa de novos leitores. “Esta nova edição é um recomeço, do zero. Tem pouquíssimos assinantes e enfrenta dificuldades como a imprensa toda, independentemente do tamanho”, diz Reis.

“Vossa Senhoria” é visto como um souvenir pelo formato pitoresco, a um preço de R$ 5. “Mas também é um documento histórico”, frisa Reis, lembrando que o arquivo dessa imprensa nanica está na Biblioteca de Divinópolis e já foi exposto na Biblioteca Nacional, no Rio, e na Bienal de São Paulo.

A editora quer contratar um estudante de biblioteconomia para documentar a história de “Vossa Senhoria”, pois muitos fragmentos se perderam ao longo do tempo. Também pretende lançar números especiais e convidar escritores famosos, lembrando as tradições do folheto que, noutros tempos, publicou poemas de Adélia Prado, natural de Divinópolis.

Embora conste na primeira página a referência a Divinópolis, a nova edição é feita em Belo Horizonte. Milton Nogueira, no entanto, quis manter o expediente para marcar o vínculo histórico e sentimental: “A ‘New Yorker’ é internacional. Quer dizer, publica histórias de diversos cantos do mundo, mas assina de Nova York. O ‘Los Angeles Times’ não é só sobre Los Angeles. ‘Vossa Senhoria’ é de Divinópolis, mas é pro mundo”. É o “Times” de Divinópolis.

Juliana Sayuri, 31, jornalista e historiadora, é autora de “Diplô: Paris – Porto Alegre” (Com-Arte).

Comments:

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s