vice brasil

Pimenta no * dos outros

Por que tanta gente sofre calada com hemorroidas?

Por Juliana Sayuri
De Florianópolis
(Para Motherboard, 25/5/2017)

Passando por uma vitrine cheia de quinquilharias engraçadinhas (fun design, dizem), não pude deixar de notar uma almofada fofa no formato de donut pink com fitas de feltro imitando granulados coloridos. Lembrei imediatamente do Tio Júlio e sua almofada azul de rosquinha de fins da década de 1980 – e seu silêncio sepulcral sobre a escolha de um assento tão peculiar.

Só tempos depois descobri que Tio Júlio, assim como cerca de 50% dos adultos de mais de 50 anos mundo afora, tinha hemorroidas, isto é, dilatações de veias do ânus. No Brasil, estima-se que o índice esteja entre 5% e 12% da população, mas o número não é exato já que um bom punhado de pacientes hesita em procurar um médico.

Apesar do alto índice de ocorrência da doença e dos avanços de técnicas cirúrgicas para tratá-la, hemorroida ainda é um tabu atualmente – como bem definiu um amigo achacado por esta incômoda inflamação, “é melhor ser flagrado vendo filme pornô na internet do que procurando informações de saúde sobre hemorroidas”. Mas há demanda: no site oficial do Dr. Drauzio Varella, médico pop star e colunista da Folha, por exemplo, o assunto sempre está entre os cinco tópicos mais visitados do mês. Nos últimos tempos também pipocam blogs, de autores anônimos, que compartilham depoimentos detalhados e diários pós-operatórios.

Na verdade, todo mundo tem hemorroida, incluindo você e eu. Hemorroidas são vasos sanguíneos que protegem os músculos do esfíncter anal (que abrem e fecham o orifício que inspira os mais diversos insultos). “A função é fechar o ânus totalmente. Em palavras simples: serve para impedir que qualquer coisa escape dali”, define o médico Carlos Mateus Rotta. O problema é a inflamação (interna ou externa) da hemorroida, que incha e forma nódulos fibrosos, prurido e protuberâncias nos recônditos mais íntimos do corpo humano. Fato: não é bonito. 

A principal causa para a doença hemorroidária é a hereditariedade, mas sedentarismo, intestino preso, gravidez, esforço excessivo, diarreia crônica, desbundes alimentares e alcóolicos agravam a situação. Entretanto, o tabu das hemorroidas acaba abrindo brechas para diversos mitos.

Sexo anal influencia? Mito. (Mas a penetração pode provocar fissuras).

É sintoma de câncer? Mito. (Mas o sangramento é um sintoma similar encontrado nos casos de câncer anal e retal).

Pimenta atrapalha? Não é a causa da doença, mas a agrava, sim.

E papel higiênico? Também provoca irritação e comichões nos coxins.

“Lembre-se: banheiro não é biblioteca”, diz Drauzio Varella no seu site. De fato, ficar sentado no trono por muito tempo, folheando revistas ou zapeando o smartphone, implica um esforço que pode afetar veias já fragilizadas.

Muitos adiam a consulta médica, por preconceito, temor, timidez ou um mix dos três motivos. O atraso pode trazer complicações à doença hemorroidária que pode evoluir a graus mais avançados, tornando quase inevitável a necessidade de um procedimento cirúrgico. Além disso, a falta de avaliação médica pode esconder o diagnóstico de outras condições graves, como câncer.

O designer fluminense RS, 39, sofreu 19 anos com suas hemorroidas inflamadas. “A dor é ardida, aguda e latejante, lembra uma picada de abelha lá dentro”, descreve. “Nunca neguei minha hemorroida. Mas, no fundo, sabia que todo mundo ria, às minhas costas, quando eu levava travesseiro para o trabalho. Pimenta no dos outros é refresco”, diz RS, que decidiu enfrentar uma cirurgia para remover as nefastas veias em 2015. A sensação, segundo RS, foi “aliviar uma melancia” no delicado (e doloroso) pós-operatório.

“Doença hemorroidária é tabu por diferentes razões, da ignorância à homofobia. Na realidade, este tabu para o diagnóstico tem relação direta com a sociedade machista que vivemos, relacionado ao toque retal”, considera o proctologista paulistano Paulo Branco. “Ninguém gosta de ir ao médico, muito menos ao médico especializado no ânus”, afirma.

Branco conta que muitos pacientes pedem para não identificar a doença nos atestados médicos para empresas. “Doutor, por favor, coloque qualquer outra doença, mas não hemorroida, porque quando retornar ao trabalho sei que terei de enfrentar aquela cornetagem e gozações”, relata.

Segundo Branco, a doença hemorroidária é uma das enfermidades mais antigas na história da humanidade, relatada inclusive por Hipócrates, pai da medicina. “À primeira vista”, diz, “trata-se de uma doença simples, corriqueira nos consultórios, mas escondidas pelas vestes. O paciente esconde do médico e do vizinho, até o aparecimento de um sintoma importante como o sangramento vermelho vivo”.

Nos casos mais simples, o tratamento é clínico, com pomadas anestésicas e supositórios para abrandar a dor. Segundo especialistas, vale também seguir uma dieta rica em fibras e frutas frescas. Nos casos mais graves é indicada a temida intervenção cirúrgica.

Nos anais da medicina moderna, data de 1937 a cirurgia “clássica” para a doença hemorroidária. A técnica, que ainda é a mais realizada no mundo todo, oferece melhores resultados, mas a dor pós-operatória é cruel (o que alimenta o medo de muitos pacientes).

Na década de 1980 foi desenvolvida outra técnica com um grampeador, que ficou conhecido como Procedimento para Prolapso Hemorroidário (PPH). O novo método avançou um pouco no controle da dor, mas foi acompanhado por outras complicações cirúrgicas.

A partir de um estudo de 1995 foi desenvolvida a técnica Desarterialização Hemorroidária Transanal (THD), nos anos 2000, que diminuiu consideravelmente a dor e as complicações – mas que envolve uma “recidiva” (termo técnico para recaída, atingindo outras veias) de 8 a 16%. Em contrapartida, após a cirurgia “clássica”, a chance de a doença hemorroidária voltar está na casa dos 3%.

Segundo Rotta, é preciso considerar condições físicas do paciente e, sim, custos cirúrgicos a depender das instalações hospitalares. “Não há cirurgia perfeita. É preciso analisar caso a caso”, afirma.

Enquanto não há despedida definitiva para essas malquistas fissuras anais, muitos pacientes esperam sentados – preferencialmente, nas suas almofadas especiais.

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IMAGEM: FREEPIK

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