extra

Aliás, uma vírgula

(13/3/2016)

Não lembro a primeira vez que li o Aliás, o caderno dominical d’O Estado de S. Paulo

Lembro dos “arremates” de Ivan Finotti (“Stones rolaram em Matão”, 2006 – Matão, a cidadezinha onde cresci e adolesci) e de Fred Melo Paiva (“Caríssima Eliana”, 2005; “Eu, Bandido Raça Pura”, 2007; “A vingança será maligna”, 2008), pensando alto: puta que pariu, que reportagens incríveis!, um dia vou escrever nessa tal página 8.   

Das 8’s saíram os livros Entretanto, foi assim que aconteceu (2011) de Christian Carvalho Cruz, A poeira dos outros (2013) de Ivan Marsiglia, e Bandido Raça Pura (2014) de Fred Melo Paiva —os três pela Arquipélago Editorial. 

Em 2009, eu, jornalista foca, japonesa loira, fui conversar com a editora Mônica Manir, e gastei meu latim: quero muito escrever no Aliás, é o melhor caderno do Estadão, as longas entrevistas com intelectuais importantes, as grandes reportagens, os perfis, os artigos, tudo, tudo, tudo. Como um caderno, dentro do conservador Estadão, conseguia ser tão “livre”? Os textos primorosos, ali na esquina do jornalismo e da literatura. O tom crítico, muitas vezes contrário ao que o Estadão publicava nos cadernos diários e nos editoriais. As reuniões de pauta, brainstormings de verdade. Era uma aventura de imprensa —e eu certamente queria participar dela. Em 2011, Mônica Manir me convidou para integrar a editoria. 

Aliás estreou em 2004, sob edição de Flávio Pinheiro, e depois, de Laura Greenhalgh. A proposta era oferecer um olhar diferente aos acontecimentos da semana —daí o slogan “a semana revista”. No domingo, uma pausa para pensar. Uma vírgula.  

As principais notícias dos últimos sete dias eram analisadas criticamente, em entrevistas e artigos assinados por intelectuais. Notinhas de 5 linhas, esquecidas no canto das páginas do jornal diário, se transformavam em reportagens gigantes e perfis de famosos, quase famosos e anônimos (um roubo qualquer, um mendigo, uma marcha, um índio, uma esquina e assim por diante). Depois de um redesenho de layout, o caderno ganhou uma vírgula: “aliás,”. E, em 2013, o slogan mudou: “um outro olhar”. 

Aprendi muito no Aliás, a melhor editoria e os melhores jornalistas. Escrevi muitas 8’s, no presídio, na favela, no assentamento sem-terra, no Chile e na França. Foi um privilégio participar da história do caderno. E foi uma dor pedir para sair em 2015, quando outro deadline me apertou: minha tese de doutorado. Sempre leio, e às vezes ainda escrevo para, o caderno com carinho. É um espaço importante na imprensa, principalmente em tempos turbulentos como os nossos.

Das 8 páginas iniciais, o caderno cresceu (para 12) e encolheu (para 6 e agora apenas 4, ficando sob o guarda-chuva do Caderno 2 com apenas um repórter —esta última mudança, na última semana). Espero que o caderno continue, que a reestruturação seja apenas uma vírgula. E que um historiador intrometido vá fuçar o arquivo do Aliás pra registrar o que é (foi?) essa experiência na história da imprensa.  

Não lembro a primeira vez que li o Aliás. Tenho certeza que não esquecerei a última. 

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