arq.futuro

Caminhos do Velho Chico

Projeto pretende dinamizar o turismo sustentável da foz aos cânions do Rio São Francisco

Por Juliana Sayuri
De Piranhas (AL)

(Para Arq.Futuro – 29/12/2015)

No fim das dunas de areia branca, a esquina: o encontro do Rio São Francisco com o Oceano Atlântico. Ali, a foz do São Francisco, na cidadezinha alagoana de Piaçabuçu, 47o C no termômetro, sensação térmica de inferno, aliviada apenas com o vento que vem com os versos: “Um futuro incerto, quem sabe um deserto, um rio por um fio”.

Entre mar e sertão, sertão e mar, o Velho Chico abriga milhares de histórias – cirandas, contos, lendas, músicas, mitos, tradições indígenas e afro-americanas, filmes, novelas e notícias sobre as intempéries climáticas e os impasses do polêmico projeto de transposição de suas águas. Ainda principal recurso regional para o desenvolvimento socioeconômico dos povos ribeirinhos, cruzando mais de 2 mil quilômetros, o rio nasce em Minas, cruza Bahia e Pernambuco, e deságua entre Sergipe e Alagoas. É neste último trecho que se desenrolou o projeto Caminhos do São Francisco, iniciativa de dinamização do turismo sustentável no baixo Rio São Francisco realizada pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade (IABS), com apoio da Agência Espanhola de Cooperação Internacional e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). 

Juliana Sayuri

Lançado em abril de 2012, o projeto abarcou o trecho dos cânions à foz do Velho Chico, passando pelas cidadezinhas de Água Branca, Delmiro Gouveia, Piranhas, Olho D’Água do Casado, Belo Monte, Pão de Açúcar, Traipu, São Brás, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu (AL) e Canindé do São Francisco, Poço Redondo, Porto da Folha, Gararu, Nossa Senhora de Lourdes, Canhoba, Amparo do São Francisco, Propriá, Santana do São Francisco, Neópolis, Ilha das Flores e Brejo Grande (SE). “A ideia é fortalecer fontes de renda das comunidades ribeirinhas através do turismo sustentável. Foi finalizada a primeira parte do projeto, em dezembro de 2015. Agora começa o desafio de dar continuidade à iniciativa. Aliás, recomeça”, diz a coordenadora Jannyne Barbosa.

Entre 24 de novembro e 2 de dezembro de 2015, o Arq.Futuro se aventurou no lado alagoano do projeto, percorrendo 728 quilômetros, para conhecer o rio e algumas de suas milhares de histórias.  

A foz

É forte o vento nas dunas de Piaçabuçu, uma cidadezinha de pescadores colonizada por holandeses e franceses. Piaçabuçu, como muitas vilas nos arredores, atraiu imigrantes italianos, austríacos e alemães nos últimos tempos, investindo em pequenas pousadas, charmosas e tranquilas, como a Chez Julie, pousada familiar de uma índia amazônica casada com um francês. 

Partindo de Piaçabuçu, o passeio de buggy do Farol da Foz é uma ótima desculpa para se sujar de areia para depois se refrescar no Rio São Francisco. Capital barroca do Velho Chico, Penedo também atrai muitos visitantes, com várias igrejas, construções históricas e casa de memória, bordados tradicionais e festas populares.

Os cânions

De um lado, Delmiro Gouveia (AL). De outro, Canindé (SE). Na margem alagoana, o chalé do Mirante do Talhado, palco da novela Cordel Encantado, é um abrigo para corações intranquilos, seduzindo visitantes com trilhas na caatinga e aventuras como rapel e tirolesa nas rochas do rio. Na margem sergipana, as casinhas do Mundo Novo, onde foi gravada a série Amores Roubados, preferem corações tranquilos, livres e leves: distante da cidade, sem sinal nem wi-fi, a fazenda é um refúgio para quem quer parar e pensar na vida.

Outro destaque é a cidade histórica de Piranhas (AL) e suas casas coloridas, onde foram fincadas como troféus as cabeças do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, e de seu bando. Nos arredores, catamarãs, canoas e barcos à vela continuam a colorir a cidade, primeiro endereço escondido na caatinga nordestina que foi tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional.

O Velho e os versos

Os horizontes do Velho Chico impressionam, com paisagens incríveis: amanhecer nas trilhas da caatinga e do cangaço, sol alto nos diferentes trechos do rio, com singulares desfiladeiros, beiras e ancoradouros, água azul, esverdeada, esmeralda, árvores e cactos, suor e seca, silêncio e som. Só nos últimos tempos, as paisagens do Velho foram set para novelas e filmes como Velho Chico (2016), 5 Vezes Chico (2015), Amores Roubados (2014), Cordel Encantado (2011) e Deus É Brasileiro (2003). 

Outras artes do cotidiano encantam esses rincões: a cultura do próprio povo ribeirinho, entre bordadeiras, músicos e pescadores. As paisagens do rio certamente impressionam, mas é o bordado da dona Francisca Lima, o café do sr. José Augusto, o caju fresco do sr. Flávio Ferraz, o sorvete artesanal da dona Silvia Brandão do Engenho São Lourenço, o suco de limão do Parque Ecológico Castanho e a trilha do sr. José Francisco que fazem a diferença, mostrando o caminho dos Caminhos do São Francisco. Maior trunfo talvez do projeto: dar à comunidade o protagonismo de sua própria história. 

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