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Entrevista: Tadeu Assad

Diretor do Centro Xingó comenta iniciativas e tecnologias sociais para convivência com a escassez hídrica

Por Juliana Sayuri
D
e Piranhas (AL)
(Para Arq.Futuro – 11/12/2015)

Lapinha do sertão famosa pelo cangaço, a cidade alagoana de Piranhas arde sob o sol de 48oC. Último trecho navegável do baixo Rio São Francisco, a cidadezinha abriga o Centro Xingó de Convivência com o Semiárido, um polo de difusão de tecnologias sociais para o sertão nordestino. Por seus 70 hectares se espalham modelos de cisternas, dessalinizador, ecofogões e outros experimentos voltados para a adaptação ao clima semiárido. 

Dizia Ariano Suassuna (1927-2014) que tentar combater a seca no nordeste é o mesmo que tentar impedir a neve na Sibéria. Na linha do poeta paraibano: “Não é uma questão de ‘combater’ a seca. A seca existe e existirá, é preciso pensar obras de adaptação ao clima semiárido. A convivência é se adaptar a essa condição climática adversa com ações mais sustentáveis”, diz Tadeu Assad, diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade (IABS), que realiza a gestão do Centro Xingó. “Tecnologias sociais são inovações simples, de baixa complexidade e alta adesão, para famílias em situação de vulnerabilidade social”, define. 

De Niterói, Assad é engenheiro formado na Universidade Federal do Ceará (UFC) e pós-doutor em gestão de conflitos socioambientais na Universidade de Brasília (UnB). “Sou sudestino”, diz o engenheiro fluminense que fincou raízes em Alagoas. Confira a entrevista exclusiva de Tadeu Assad ao Arq.Futuro:

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Juliana Sayuri

Qual é a situação hídrica do sertão nordestino atualmente?
Da foz ao cânion no baixo Rio São Francisco, não há água. Isso é fato: a cada cinco habitantes, dois têm dificuldades de acesso à água. Na minha opinião, o xis da questão é a linha de ações dos governos, com grandes açudes e grandes reservatórios, muita vezes vinculados a propriedades privadas, isto é, com outros interesses em jogo. Mas, de uns anos para cá, surgiu um movimento da sociedade sertaneja que começou a buscar soluções para a situação hídrica. A sociedade, integrada, passou a pressionar o governo a partir de 2002 e 2003 e, entre as alternativas encontradas, uma inovação se tornou política pública: a captação de água das chuvas.

Vi muitas cisternas nas casas na estrada que cruza o Estado de Alagoas.
Sim, virou um projeto do governo federal em 2011, o Programa Água para Todos, com o Ministério da Integração e o Ministério do Desenvolvimento Social. A ideia principal é privilegiar as tecnologias sociais, isto é, a própria sociedade se envolve para tentar resolver os problemas da realidade regional. Na minha opinião, é preciso integrar a iniciativa privada, o poder público e a sociedade. Isso está incorporando, intercambiando, transformando ações de algumas instituições em políticas públicas. Trata-se de criar alternativas. Por exemplo, você tem uma cisterna de 8 mil litros para 8 meses. É óbvio que isso não resolve inteiramente a situação hídrica, mas possibilita captar água das chuvas e ainda armazenar água – um caminhão pipa, se porventura passar ali, vai deixar água onde?, num balde? Digo que talvez seja o Programa Fome Zero da água: oferece o mínimo para a sociedade sertaneja poder sobreviver. Mas, é preciso mais. É preciso viver, não?

Qual é o papel do Centro Xingó nesse contexto?
Desde 2005, o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade (IABS) trabalha com a Agência Espanhola de Cooperação Internacional. Em 2010, fizemos uma parceria com o Fundo de Água (FASA), na linha dos objetivos de desenvolvimento do milênio traçados pelas Nações Unidas. O fundo nos repassou recursos para programas que focam tecnologias e inovações para a questão hídrica. Assim, lançamos dois programas: o Centro Xingó e o Prêmio Mandacaru. O Centro Xingó é como um laboratório para analisar e estudar a convivência com o semiárido, com atividades científicas, apoio a agricultores familiares, cursos técnicos, entre outras ações, pensando na melhoria da qualidade de vida das famílias em situação de vulnerabilidade social no semiárido. O Prêmio Mandacaru, por sua vez, pretende identificar e valorizar práticas inovadoras – e os projetos premiados são implementados pelo Centro Xingó. Temos dois conceitos-chaves: a vivência e a convivência.

O que quer dizer “vivência”?
Quero dizer que a comunidade é convidada para aulas e dinâmicas, para conhecer as instalações e a infraestrutura do centro, que possui área total de 70 hectares. Construímos até alojamentos ali para os visitantes dormirem. Temos barragens base zero, biodigestor, cisternas diferentes, canteiros econômicos e quintais produtivos. Na casa sertaneja, um modelo, temos dessalinizador, ecofogão e outros experimentos simples para adaptar a morada ao clima. Propomos técnicas simples, de relativa complexidade, que podem ser multiplicadas a baixo custo. A comunidade pode obter conhecimentos práticos para o cotidiano – e, de volta a suas casas, os visitantes se tornam multiplicadores, pois repassam conhecimento para os vizinhos e os amigos. Tentamos integrar: um seminário, por exemplo, pode reunir um aluno de escola técnica e um professor doutor de universidade para aprenderem juntos com um instrutor, que pode ser um morador da comunidade. Além disso, 20 famílias da zona rural do sertão alagoano foram escolhidas no Prêmio Mandacaru para um experimento demonstrativo das tecnologias sociais para convivência com o semiárido. Foram instaladas tecnologias sociais nas casas das famílias beneficiadas pelo projeto, a custo zero – e agora as casas estão abertas para visitas, para mostrar o impacto da tecnologia social diretamente no cotidiano e na atividade produtiva da família. É um programa de conscientização amplo, tentando tudo para gerar menos impacto ambiental e aprender a usar a água de forma mais sustentável.

Que outras práticas além da economia de água o sr. destacaria?
Pois é, não é só economia de água. É pensar o uso da água para a agricultura, a piscicultura, a pecuária o mais próximo possível das condições climáticas permitidas. É investir em ações para ovinocaprinocultura, apicultura e avicultura caipira, como fonte de renda para as famílias. Faria muita diferença para o desenvolvimento de uma família, por exemplo, uma cisterna, uma plantação de palma adensada (uma forma biológica de acumular água) e uma pequena pecuária de caprinos adaptados ao clima. Um canteiro econômico de hortaliças, por exemplo, se for planejado com drenos para a época de chuva, pode consumir 20 litros por dia, e não 50 litros como é o habitual. No fim, é uma questão de adaptação.

O sr. se refere muito à palavra “convivência”. O Estado de São Paulo está vivendo uma crise hídrica grave – e os paulistas precisam aprender a adaptar o cotidiano a partir da escassez. O que é conviver com a escassez?  
No caso do sertanejo, é uma condição natural. Por muito tempo, o programa do governo federal se voltava ao combate contra a seca. Era o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS). Mas, na verdade, não é uma questão de “combater” a seca. A seca existe e existirá, é preciso pensar obras de adaptação ao clima semiárido. A convivência é se adaptar a essa condição climática adversa com ações mais sustentáveis. E “combater” a seca pensando em condições de irrigação e situações discutíveis, vale lembrar, o Rio São Francisco está secando… Não, deveríamos investir em ações de gotejamento, animais adaptados, espécies nativas, um conjunto de práticas pensadas para a caatinga e o modo de vida do sertanejo. O trabalho que está sendo feito no nordeste ainda é pouco. A situação hídrica piorou na perspectiva macro, mas as microssoluções nas comunidades têm permitido condições melhores. E esse conhecimento poderia ser exportado para São Paulo. Aqui, Alagoas, a gestão hídrica é um hábito. Aqui, são cerca de 16 litros de água consumidos por dia por pessoa. Em São Paulo, são 300 litros. O sertanejo dá valor à água, pois a vida dele muda muito por causa de poucas gotas. 

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