arq.futuro

Entrevista: Nathália Diniz

Arquiteta lança livro vencedor do Prêmio Odebrecht de Pesquisa Histórica

Por Juliana Sayuri
De São Paulo

(Para Arq.Futuro – 9/11/2015)

Nathália Diniz atravessou diversos sertões. Passou pedregulho, tijolo, pedra, taipa, barro. Autora da dissertação de mestrado Velhas fazendas da Ribeira do Seridó (defendida em 2008) e da tese de doutorado Um sertão entre tantos outros: fazendas de gado nas Ribeiras do Norte (em 2013), sob orientação de Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), a arquiteta lança agora Um sertão entre tantos outros, livro publicado pelo Prêmio Odebrecht de Pesquisa Histórica – Clarival do Prado Valladares.

De uma família de Caicó, na região do Seridó, no interior do Rio Grande do Norte, Nathália Diniz nasceu na capital potiguar, mas nunca perdeu de vista suas raízes sertanejas: nas férias de julho, na semana santa e na Festa de Santana, por exemplo, a família retornava a Caicó, onde ficava numa casa das fazendas que pertenceu ao tataravô da arquiteta. “Voltar a Caicó me fascinava na infância. Vivi na capital, mas sempre tive o coração nos sertões”.

No livro, a pesquisadora traz um estudo inédito sobre os sertões do norte, região que abrange terras de seis Estados: Rio Grande do Norte, Piauí, Pernambuco, Paraíba, Ceará e Bahia. Atualmente professora do Centro Universitário Facex, em Natal, a arquiteta concedeu esta entrevista exclusiva ao Arq.Futuro. Confira:

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Divulgação

Suas investigações de mestrado e de doutorado abordaram a arquitetura do sertão. Que avanço traz o novo estudo que originou o livro?
Minha tese de doutorado englobava levantamentos in loco no Rio Grande do Norte e na Paraíba. A partir de estudos de outros autores, meu estudo inicial incluía Piauí, Ceará e Bahia – Pernambuco tinha ficado de fora. Neste novo projeto, que agora se tornou livro, tive a oportunidade de realizar mais levantamentos arquitetônicos nessas regiões. Fiz uma viagem de 43 dias, percorrendo quase 5 mil quilômetros, de Natal ao Piauí, voltando a todas as fazendas visitadas no mestrado e no doutorado e descobrindo outras construções. Após o Prêmio Odebrecht, dediquei um ano à pesquisa e um ano ao projeto editorial, contando com a ajuda da historiadora Maki Hirai como assistente e o apoio dos professores Paulo Garcez e Beatriz Bueno. Além disso, um fotógrafo registrou os lugares e um paleógrafo transcreveu documentos e símbolos. Assim, o livro traz muito material inédito, focado num patrimônio arquitetônico desconhecido, pois a arquitetura do sertão é um conjunto, isto é, não está dividida pelas fronteiras invisíveis dos Estados. 

Que características comuns permitem pensar a arquitetura do sertão como um conjunto?
Pois é, digo “um sertão entre tantos outros”, título do livro, pois o sertão é múltiplo, com climas diversos e muitas diferenças culturais. Quando digo “um sertão”, refiro-me à arquitetura, com casas-sede em que o gado era a principal fonte de renda, com agricultura de subsistência e pequenos mercados de mantimentos, além do cultivo de algodão e produção de pequena escala de farinha e de rapadura. Esse é o ponto-chave. Outro ponto é a proximidade das glebas de terra – e cercar uma gleba de 3 hectares era muito difícil na época. As propriedades não tinham limites físicos definidos para impedir a passagem de um para outro e, assim, muitas vezes o gado ia pastar ou procurar água no terreno vizinho. Entre os séculos 18 e 20, o sertão era marcado por concentração de riqueza, medida por gado, escravos (até a época permitida) e terras. Terceiro ponto: a arquitetura era materialmente muito simples, sem ornamentação devido à condição econômica – o que difere muito das casas litorâneas, que abrigavam mais objetos valiosos, como porcelanas.

O que mais a arquitetura pode revelar sobre o cotidiano da época?
O último capítulo do livro traz um estudo de caso sobre a dinâmica social da região, a partir de uma pesquisa documental nos inventários do século 19. Das casas, o vestígio material, restaram apenas as paredes. Mas paredes não contam histórias sozinhas. Quem conta são os artefatos que as pessoas utilizavam na época. Nos inventários post-mortem é possível descobrir relações de parentesco, por exemplo, e objetos passados por gerações e mais gerações como herança. Estudei a família Paes de Bulhões, do Rio Grande do Norte. Descobri que os Paes de Bulhões tinham mais de 10 propriedades no sertão – sete entre Rio Grande do Norte e Paraíba. Muitas casas, a maioria talvez, foram desmoronando, com o desgaste econômico, a rusticidade e a mudança para as cidades. Diante da ausência das antigas famílias, as antigas construções foram abandonadas – embora novas casas (com características mais atuais, como inclusão de sistema hidráulico e suítes) tenham sido edificadas no mesmo terreno, logo ao lado das antigas casas.

Como está a preservação das construções nesses sertões?
É marcante a ausência dos órgãos de preservação nessa realidade rural. As casas que estão em ruínas ainda guardam um pouco de romantismo, mas muitas casas já desapareceram, muitas foram mal reformadas, misturando tipos de argamassa, por exemplo, o que prejudica a conservação da construção. Na minha opinião, falta a presença mais forte de órgãos de preservação para compreender e implementar melhores formas de conservar esse patrimônio histórico que, se nada for feito, será perdido.

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