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Arte de viver

Sempre inquieta, a atriz Fernanda Montenegro segue atuando na TV, no teatro e no cinema

Por Juliana Sayuri
De São Paulo

(Para Fundação Conrado Wessel – 6/2015)

Fernanda Montenegro estrelou todos os naipes que se espera de uma infatigável atriz de sucesso: foi artista, aviadora, cafetina, mãe, madame, miserável, milionária, prostituta, samaritana. Foi heroína, vilã e até Virgem Maria. Já há bastante tempo é considerada pela crítica especializada uma das grandes atrizes brasileiras de todos os tempos. Esteve em mais de 50 peças, 30 novelas e minisséries e 15 filmes. Laureada com mais de 35 prêmios nos seus 70 anos de carreira, a atriz nunca parou. E nem pretende. “Ficar parada não é da minha natureza”, declarou a artista nas diversas entrevistas na época da estreia do monólogo Viver sem tempos mortos (2010), inspirado na vida da escritora francesa Simone de Beauvoir.

Senhora de olhos expressivos, lábios finos e marcas de expressão que ganhou ao longo de seus 85 anos, Fernanda já recebeu diversas designações – de old lady from Ipanema a “dama da dramaturgia”, definição da qual não gosta. “É ridículo. É como se me tirassem de uma pessoa e me transformassem em uma personagem”, afirmou em outra entrevista.

Entre atos, a busca por uma identidade sempre inquietou a atriz, que tantas vezes se transformou e assumiu outras personalidades, como nos versos adorados, atribuídos a Clarice Lispector: “Esta mulher que é minha mãe / Esta mulher que é minha avó / Esta mulher que é minha filha / Esta é a mulher que sou / Sou todas elas, ainda mais algumas / E nenhuma delas, nenhuma, / Nenhuma delas é a mulher que sou”. Inquietação identitária talvez amenizada com o passar do tempo, pois a artista certa vez dissera num já distante 1995: “Eu não sei quem eu sou. A gente acha que a gente é alguém. A gente acha que a gente pode ser alguém. Às vezes, a gente é até alguém, mas definir? Não há definição de nada. Muito menos de mim mesma, pois inclusive nem sei realmente em que zona eu me apresento ou me escondo. Vou vivendo. Só isso”.
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Murilo Meirelles

Carioca do bairro de Campinho, descendente de imigrantes italianos, Fernanda Montenegro – batizada como Arlette Pinheiro Esteves da Silva – tinha 15 anos e fazia o curso técnico de secretariado. Também já trabalhava na Rádio MEC como locutora e adaptando peças literárias para roteiros de radionovelas, de acordo com O exercício da paixão (1990), biografia da atriz escrita pela jornalista Lúcia Rito. Ao lado da rádio estava a Faculdade Nacional de Direito, depois vinculada à atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ponto de encontro de uma trupe de teatro amador, onde Fernanda daria os primeiros passos rumo aos palcos. Estreou em 1950 com Alegres canções nas montanhas, de Julien Luchaire, com tradução de Miroel Silveira, ao lado do ator Fernando Torres (1927-2008), com quem se casaria não muito tempo depois, aos 23 anos. Da união, nasceram o cineasta Cláudio Torres, em 1962, e a atriz Fernanda Torres, em 1965.

Desde a década de 1950, a atriz cultivou grandes amizades no palco e nos bastidores. No cinema, debutou em 1964 com A falecida, filme inspirado na tragédia escrita pelo amigo Nelson Rodrigues e dirigido por Leon Hirszman. Do mesmo diretor, filmaria o clássico Eles não usam black-tie (1981), com Gianfrancesco Guarnieri, autor da peça (1958) que inspirou a fita. No eixo Rio-São Paulo, atuou na TV Tupi, na Companhia Maria Della Costa e no Teatro Brasileiro de Comédia. Em 1959, Fernanda e Fernando fundaram a própria companhia: o Teatro dos Sete, com Sérgio Britto, Ítalo Rossi, Gianni Ratto, Luciana Petruccelli e Alfredo Souto de Almeida.

“Juntamente com Fernando Torres, meu companheiro por 60 anos, produzimos uma dramaturgia respeitável e responsável: Cervantes, Molière, Racine, Goldini, Henri Becque, O’Neill, Pirandello, Harold Pinter, Peter Weiss, Simone de Beauvoir, Fassbinder, Beckett, entre tantos. Além de tantos brasileiros: de Martins Penna a Nelson Rodrigues”, lembrou Fernanda em depoimento para este perfil. “Para mim, o importante dessa trajetó- ria é que sempre levamos nossas produções às periferias, aos teatros populares. Sempre houve grande interesse dessas plateias pelo que lhes trazíamos ou lhes trazemos. Essas plateias nunca nos abandonaram. De Racine a Beckett. Quando há debates após a apre- sentação, esses espectadores nunca deixam de se posicionar”, contou a atriz.

Na década de 1960, Fernanda estreou nas novelas. A “estrela Montenegro”, como a homenageou o amigo Milton Nascimento na música Mulher da vida, tornou-se, principalmente a partir da década de 1980, o nome preferido de diretores e roteiristas como Cassiano Gabus Mendes, Gilberto Braga, Guel Arraes, Manoel Carlos e Sílvio de Abreu, marcando presença em numerosas produções da TV Globo – muitas vezes interpretando papéis escritos especialmente para ela. Um dos grandes sucessos televisivos ocorreu com a novela Guerra dos sexos (1983), de Sílvio de Abreu, em que atuou com Paulo Autran, outro grande ator e amigo.

Entre tantas atuações no país, um filme foi o responsável por catapultar seu nome no exterior: Central do Brasil, de Walter Salles, em 1998. Fernanda Montenegro deu vida à personagem Dora, que trabalhava na estação Central do Brasil, no Rio, escrevendo cartas a pedido de analfabetos. Cruzou-lhe o caminho um menino, Josué, vivido por Vinícius de Oliveira, que ficou órfão nos primeiros minutos do drama. Dora decide levar o garoto ao encontro do pai, cruzando o país para enveredar pelo sertão nordestino.

Dora rendeu a Fernanda uma indicação inédita ao Oscar em 1999 – a única brasileira indicada ao prêmio até hoje. Quem ganhou, no entanto, foi a atriz norte-americana Gwyneth Paltrow por Shakespeare apaixonado. À época, Fernanda se definiu no talk-show de David Letterman como “azarão” na disputa e como old lady from Ipanema, referência à música de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. O diretor Walter Salles atribui à atriz os méritos do trabalho: “O filme inteiro foi construído em torno de Fernanda. Ela levou cada um de nós a fazer o melhor. Central do Brasil não existiria sem ela”, afirmou o cineasta para esta edição.

O filme foi um marco não só na carreira da atriz, mas na história do cinema nacional. Salles a define como a atriz “mais extraordinária” com quem trabalhou. “Ela é uma das raras pessoas que fazem o Brasil melhor. Pela excelência e o rigor de seu trabalho, pela extrema inteligência e sensibilidade, pela capacidade de pensar o país onde vivemos com uma grande coragem e pertinência. A Fernanda artista e a Fernanda cidadã são inseparáveis. Uma se prolonga na outra, para nossa sorte”, diz o diretor.

Fernanda artista e Fernanda cidadã se encontram em inúmeros momentos. No prefácio de O exercício da paixão, Caetano Veloso arriscou impressões sobre as diversas faces da atriz: “Há artistas que nos abalam com a potência do seu gênio; muitos, na tentativa desesperada de salvar o mundo, dele se afastam, às vezes virando as coisas à própria arte, à vida mesmo. Fernanda, artista de gênio, em nenhum dos três itens foge ao centro: no meio do mundo, no meio da arte, no meio da vida”.

Tal imersão persistiu nos últimos tempos. Em 2012, Fernanda levou aos palcos paulistanos o monólogo Viver sem tempos mortos, dirigido por Felipe Hirsch. Inspirada na escritora francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), a peça teve sessões gratuitas em 21 Centros Educacionais Unificados (CEUs), como parte do projeto CEU é Show, que levou mais de 800 espetáculos de música e teatro aclamados pela crítica para a periferia de São Paulo. “Foram dias intensos, mas felizes”, declarou a atriz, admirada ao encontrar “teatros exemplares e extraordinariamente cuidados”.

“Cresci com meus pais fazendo turnês nas periferias de São Paulo e do Rio, participando de leituras dramáticas, encontros e debates. Cresci aprendendo que isso é importantíssimo para não se criar uma cidade partida”, lembra a filha Fernanda Torres. “Ter a presença de uma artista da dimensão da mamãe dentro de um centro cultural na periferia é importante para os dois lados, o artista e o público. Minha mãe ficou fascina- da com o público do CEU, que estava muito preparado para melhor usufruir da experiência”, comentou a atriz, entre gravações da série Tapas e beijos, da TV Globo. “Houve quem dissesse: ‘Ah, Simone de Beauvoir, um projeto elitista’. E aconteceu o contrário, as mulheres assistiam e diziam: isso é a minha vida. Não existe a cultura da elite e a cultura do povo. O grande lance da cultura é fazer essa ponte, de A a Z.”

A mãe complementa as palavras da filha: “O artista deve ir com o seu melhor e acreditar naquele ser humano que está diante de si na plateia. Essa diversificação de repertório, essa democratização é a função do teatro. A minha geração fez e faz essa trajetória. Vivi e vivo o impacto desse encontro emocional, dialético, redentor, que só o teatro dá. E essas plateias populares estão sedentas dessa fé. O melhor e eterno teatro hoje vive nas catacumbas, nos pequenos espaços, nas periferias, nas favelas, nas comunidades. Falo sem demagogia. Falo com conhecimento de causa”, afirmou Fernanda em depoimento a esta edição, entre gravações da novela Babilônia, de Gilberto Braga. 

Nessa trama de 2015, a atriz interpreta Teresa, que vive um relacionamento amoroso de décadas com Estela (Nathália Timberg). No primeiro capítulo, as atrizes deram um beijo apaixonado que despertou conservadorismos adormecidos. “Não posso acreditar que ainda se espantem com a homossexualidade. Não acredito que, depois de tantas novelas com essa temática, ainda tenha esse escândalo”, lamentou Fernanda, à época, em entrevista à imprensa.

Fernanda Montenegro recebeu reconhecimento de diversas instituições, artísticas e políticas, com prêmios em festivais nacionais e internacionais – Imprensa, Molière, Shell, Urso de Prata no Festival de Berlim, Festival de Havana, entre muitos outros, além do FCW de Cultura 2014. Em 2013, tornou-se a primeira atriz latino-americana a vencer o Emmy Internacional, por sua atuação no especial Doce de mãe, da TV Globo.

O reconhecimento à contribuição da atriz não ficou restrito às confrarias artísticas. Convidada para ser ministra da Cultura nos governos de José Sarney e Itamar Franco, Fernanda gentilmente recusou. Em 1999, foi condecorada com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito por Fernando Henrique Cardoso. “Se estivéssemos na Inglaterra, você seria dame, seria lady. Não vale a pena. É melhor ser o que você é […], com essa espontaneidade, com essa força extraordinária, com talento incrível e com simplicidade”, disse o presidente, ao entregar a comenda civil à atriz.

Senhora de seu tempo, Fernanda parece dominar a arte de viver sem tempos mortos. E recita Simone de Beauvoir para expressar essa arte: “A impressão é de não ter envelhecido, embora eu esteja instalada na velhice. O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou para mim. Provisoriamente. Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar. Portanto, ao meu passado devo o meu saber e a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa para a minha liberdade hoje? Não sou escrava dele. (…) Não desejei nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos”.

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