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Nenhum homem é uma ilha

Minha História – Ernesto Cantelli, 69

Por Juliana Sayuri
De Havana
(Para Mundo – Folha de S.Paulo – 3/6/2015)

Diz a página 331 do livro “José Lezama Lima, Ese Misterio que nos Acompaña”: “Ernesto Cantelli nasceu em Guanabacoa, em 28 de dezembro de 1945. Poeta, dramaturgo e diretor teatral. Mantém vários livros inéditos”.

Um jogo de palavras: “eu” não mantenho nada. Quem mantém é o governo. Teria publicado 20 livros, entre poesia e peças teatrais, mas o governo não permitiu.

Em 2010, no centenário de nascimento de José Lezama Lima [1910-1976], o Instituto Cubano do Livro e o Festival Internacional de Poesia de Havana compilaram cem composições em homenagem ao poeta. Fui um dos escolhidos. Foi a primeira vez que tive meu nome impresso na ilha.

Não sei o que fiz de “errado” para não ter reconhecimento. Sou de família muito pobre. Vivi em Boyeros, mas estudei em Santiago de Las Vegas. Era engraxate –“limpiabotas”, como dizemos. Era 1959 e a revolução triunfou.

A vitória fascinou a nós todos. Eu tinha 14 anos. E quis participar da história: ingressei num acampamento de formação militar na Sierra Madruga, na província de Havana. Quatro meses depois, fui para a Sierra Maestra, no acampamento de Camilo Cienfuegos [1932-1959].

Na época, Che Guevara [1928-1967] estava muito animado com a organização da juventude cubana. Recrutou muitos adolescentes para a AJR, Associação de Jovens Rebeldes [a partir de 1962, União de Jovens Comunistas].

Éramos 40 mil jovens combatentes. Quase 25 mil cumprimos a meta de subir cinco vezes o pico Turquino, a mais alta montanha da Sierra Maestra. Treinamos nas trincheiras de Che e de Camilo, além de outros campos de batalha da revolução. Essa trilha toda dava a impressão de uma história cubana enlouquecedora, mas maravilhosa.

A discussão sobre a história da revolução ainda é muito presente na ilha, pois ainda vivem muitos fundadores. Para Fidel e Raúl [Castro], a revolução é um fato certo. Para outros, mais jovens agora, não é fato “vivo”, mas anedota de um passado distante.

Enfim, Havana. Os mais jovens e menos corpulentos, como eu, eram treinados para a artilharia antiaérea. Os mais fortes, para o ataque.

Outros, mais inteligentes ou talvez mais instruídos, foram estudar aviação revolucionária. Fui um dos mais jovens na defesa contra a invasão da Baía dos Porcos –aqui dizemos “Batalla de Girón”.

Na gaveta

Assim, aprendi a não ter medo. Aos 15, já sabia atirar e carregar um fuzil muito maior que eu. Voltei à cidade por volta de 1962 e me graduei na Escola Osvaldo Sánchez Cabrera, que formava instrutores revolucionários, algo como comissários políticos.

Iniciei meus estudos em história na universidade, mas eu era muito impertinente e inquieto. Abandonei o curso. Queria escrever histórias revolucionárias. Livres. Isso deve ter incomodado o governo.

Tornei-me “proscrito”, quer dizer, não tive nada publicado. Sou, como dizem, “inédito” [Cantelli faz parte da “geração gaveta”, formada por autores cujas obras nunca foram publicadas no país].

Sou um dos últimos “proscritos”. Alegra-me muito que não haja mais muitos, pois a liberdade é importante. Mas penso que a liberdade de expressão não é algo que se deve pedir ou se permitir. Considero a liberdade algo transcendental. Nasci livre. Lutei pela liberdade. Quando não se podia dizer tudo, eu dizia. Por que agora, aos 69, teria medo de me expressar?

Fidel tinha uma linha diferente. Raúl já diz que é preferível que se abra tudo, sem segredos ou cochichos. Raúl sempre foi mais radical e crítico. Devia ter assumido, talvez, 15 anos antes. Está conversando agora com Barack Obama, o papa e tal. A expectativa para a abertura é grande, pois a espera é antiga.

Um dia carreguei um fuzil maior que eu. Hoje carrego um manuscrito de uma nova peça, “Martí Vive”. E vivo como guia turístico, tentando contar a história de Havana para quem vem nos visitar.

A ilha toda ainda é um país proscrito. Espero que não por muito tempo, não para sempre. O governo pode controlar a publicação de certos livros. Posso não publicar, mas posso escrever, recitar nas ruas e engavetar tudo, para que alguém um dia também conte a minha história.

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