aliás – estado

Quem ri por último?

Na Europa ‘direitizada’, o ataque a um semanário de esquerda pode dar mais munição ao extremismo, diz sociólogo

Por Juliana Sayuri
De São Paulo

(Para O Estado de S. Paulo – 11/1/2015)

2015 estourou feito tiro de AK-47 – e seus estilhaços ricochetearam a partir do 11º arrondissement parisiense, na manhã de 7 de janeiro, quando três terroristas abriram fogo contra a redação do Charlie Hebdo. Entre 11 feridos e 12 mortos – incluindo Stéphane Charbonnier (o Charb, diretor do semanário satírico desde 2009), Georges Wolinski (“o” Wolinski), Jean Cabut (Cabu) e Bernard Velhac (Tignous) –, manifestações de solidariedade marcaram as páginas internacionais nos últimos dias. Além de vigílias Paris afora, tributos proliferaram internet adentro: primeiro, je suis Charlie, em homenagem aos cartunistas assassinados; no paralelo, not in my name, vindo de jovens muçulmanos, criticando as motivações dos autores do atentado – que teriam ligações com a Al-Qaeda no Iêmen.

Difícil dizer quem riu por último. Lembrada como uma revista provocativa, satírica, “subversiva”, anticlerical e às vezes antirreligiosa, Charlie Hebdo ironicamente foi quase “sacralizada” como símbolo da liberdade de imprensa. Ironicamente, a última charge rabiscada por Charb trazia um jihadista e a provocação: “França segue sem atentados. Atenção, esperemos até o fim de janeiro para desejar feliz ano-novo”. Ironicamente, Ahmed Merabet, o policial executado por terroristas na Rue Nicolas Appert, era muçulmano, detalhe que evocou nas mídias digitais as palavras atribuídas a Voltaire: “Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-la”. Ironicamente, saiu pela culatra a tentativa de silenciar um semanário polêmico, que se tornou alvo da fúria religiosa por publicar charges de Maomé: dos 60 mil habituais, a próxima edição saltou para 1 milhão de exemplares, graças a uma vaquinha milionária feita por Le Monde,Radio France, The Guardian, entre outros. Ironicamente, no dia 7 era lançado Soumission, controverso romance do escritor francês Michel Houellebecq, que retrata uma França transformada num Estado islâmico após a vitória de um novo partido em 2022 – muitos críticos consideraram o livro islamofóbico. […]

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