aliás – estado

A viúva vermelha

Da clandestinidade a honrarias políticas, a luta feminista de Clara Charf fora da sombra do guerrilheiro Carlos Marighella

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(Para O Estado de S. Paulo – 9/3/2014)

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Clareou. Passava das 5h30 da matina dessa quarta-feira de cinzas e de nuvens tristes, ainda na ressaca do carnaval, enquanto as ruas paulistanas eram novamente tomadas por carros, buzinas e guarda-chuvas coloridos. Era o retorno à rotina da gente comum, que entre céu e concreto enfrenta trânsito caótico, trabalho chato, preço abusivo do filé ao café, tudo para voltar para casa e, depois de mais uma jornada, começar tudo de novo. Ainda chuviscando no início da tarde, enquanto caminhava pelas ruas do Bom Retiro, prestes a encontrar Clara Charf pela primeira vez, não imaginava que era justamente assim que a ilustre viúva de Carlos Marighella gostaria de ser retratada aos 88 anos: como gente comum.

Uma mulher comum, aliás. Quer dizer, tudo que ela não é. Clara Charf me recebeu na sua casa, após diversos pedidos de entrevista sobre sua luta feminista. Arisca, ressabiada e um tiquinho rabugenta, no primeiro minuto disparara do outro lado da linha: “Que que é esse tal Aliás?”. Por fim, aceitou e abriu a porta, que trazia um tradicional capacho de “bem-vindos”. De pele alva, olhos castanhos e fios brancos, a senhora vestia camisa vermelha, sua cor preferida, e jaqueta jeans. Se noutros tempos não tinha tempo para vaidades, dessa vez tinha batom rosinha, broche e brinco de flor. […]

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