aliás – estado

Vão nosso

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(Para O Estado de S. Paulo – 8/12/2013)

A (94)

Cara Lina Bo,

Desde que a sra. se foi, a cidade mudou muito, de uma maneira indescritível nessas breves linhas. Mas podemos dizer que, de 1992 para cá, sua obra-prima modernista se tornou palco preferido para as mais diversas e coloridas manifestações na Avenida Paulista. Por seus paralelepípedos passaram gays e simpatizantes, estudantes e professores, mães e vadias de peitos nus. Também pararam artesãos, desempregados, hippies, mendigos, viciados – o que, principalmente nos últimos tempos, causou certo incômodo na sociedade paulistana. Por quê? Bom, conto.

Passava das 9 da noite nessa terça-feira quando o artesão Hernandez Aliel decidiu montar sua barraca mais uma vez sob o seu, digo, o nosso vão. Enquanto o menino João Pedro já bocejava, o pai armava o pequeno iglu azul numa quina qualquer entre as quatro colunas vermelhas idealizadas pela sra. Mas foi Hernandez arrematar os tirantes improvisados para vir o guardinha, sem graça por fazer o trabalho sujo – “Amigo, desculpe, hoje já não pode mais acampar, não é nada pessoal, você sabe, você tá no seu direito aí, mas preciso fazer o meu lado e pedir pra você sair”. Hernandez saiu sem pestanejar, não quis armar o barraco com o policial. Atravessou a avenida, João Pedro no colo, armou a barraca ao lado do parque, João Pedro dormindo; ainda pensou se valia voltar para discutir, talvez sim, talvez não; mas adormeceu ali mesmo, noutra rua.

Na manhã seguinte, por volta das 7, acordou, atravessou a avenida de volta, passou no metrô, voltou para o vão e mostrou uma notinha no jornal: “A pedido do prefeito Fernando Haddad, a Guarda Civil Metropolitana permanecerá de plantão por 24 horas no vão livre do Masp, na Avenida Paulista, até o dia 15. O vão livre foi tomado por barracas de camping, montadas por moradores de rua e (…)”. Hernandez passou o jornal adiante. “Mas que vão ‘livre’ é esse, hein?”

Diz-se que, nos últimos tempos, uns e outros se sentiram no direito de “ocupar” o vão livre do museu arquitetado pela sra. Ousadia de uns barraqueiros aí. Entre as tendas estava uma ocupada por Hernandez e João Pedro, vigiada pelo amigo Tiago Guerra; outra por um playboy apaixonado por uma mina menor; outra por uns três malucos favó, uns vagabundos que só pedem favor; outras por um pequeno traficante de gorro verde e seus seis camaradas; outra por um cara, o irmão e o mano, fugidos do litoral paulista ameaçados por uma facção criminosa. O diabo é que esses maltrapilhos estavam incomodando a mostra de Yann Arthus-Bertrand, um fotógrafo ecofriendly respeitável que faz questão de expor as obras de A Terra Vista do Céu, em cartaz até dia 15 de dezembro, ao ar livre, para surpreender e interagir com o cotidiano e a cidade. “Nos 20 anos que passei fotografando a Terra, eu a vi mudar, pois o impacto do homem é visto do céu”, diz o fotógrafo francês. Mas nem precisa ir tão longe, caro Arthus-Bertrand, a mudança também se vê no chão. No nosso chão, ao lado de suas belas fotos aéreas, essas pessoas ousaram montar barracas ao anoitecer, desmontar ao alvorecer e tocar a vida depois.

Desse quadro, outros imprimiram a ideia no papel: por que não gradear o vão livre do Masp? Pediram para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, mas não teve jeito. A resposta: deveria ser preservado o projeto original da sra. E, entre outras expressões, o vão de 74 metros foi nivelado a uma “casa da sogra”. Mas teve arquiteto lembrando palavras suas sobre a construção modernista: “Minha preocupação básica foi a de fazer uma arquitetura feia (…). Uma arquitetura ruim e com espaços livres que pudessem ser criados pela coletividade (…). Quis fazer um projeto ruim. Isto é, feio formal e arquitetonicamente, mas que fosse um espaço aproveitável, que fosse uma coisa aproveitada pelos homens”. Homens simples, pois, pensaram: por que não aproveitar para dormir no vão?

Mas Lina, Hernandez e outros artesãos são moradores de rua lato sensu – não que isso realmente importe para poder ficar no museu. É que às vezes eles ficam ressabiados, irritados até, por serem jogados no mesmo saco que camelôs e mendigos, dizem. Hernandez Aliel tem 26 anos, 10 de estrada. Tiago Guerra também tem 26 anos, também 10 de estrada. Um paranaense, com ex-mulher amazonense e filho nascido no Pantanal. Outro do litoral sul da Bahia, Itacaré, com mulher e duas filhas à espera em Pedreira, interior de São Paulo. Hernandez quer juntar grana para construir uma casinha no Pará. Guerra precisou trocar Bahia por São Paulo para provar para a sogra paulistana – e o juiz – que era capaz de sustentar suas duas filhas, apesar do estilo de vida, digamos, não tradicional. Os artesãos se encontraram no Masp, nos primeiros dias de novembro. “A gente não é ‘morador de rua’. A gente é viajante, é diferente.” E nem adianta questionar se eles se consideram hippies – “Isso é da história americana lá de Woodstock, né? Não, não somos isso. Somos malucos de estrada, artistas 365 dias na BR, saca?”

Não sei se a sra. sacaria, mas tento ilustrar: artesãos errantes como Hernandez e Guerra não gostam do sistema. E o sistema não gosta deles. Eles querem rodar o País em busca de matérias-primas como sementes, pedras, ossos, couro e capim dourado para lapidar suas peças. O sistema quer que eles vivam nos tempos modernos, num emprego que detestam para ganhar dinheiro para comprar coisas que não precisam. “O sistema é mau, mas minha turma é legal…”, Hernandez cantarola, enquanto torce um pedaço de arame para mais um brinco. “Sei que a sociedade olha feio pra gente. Tipo esse engravatado passando na rua. O horizonte dele é assim, quadrado”, diz Guerra, enquadrando o próprio rosto com as mãos. 

Hernandez e Guerra têm os pés sujos e as mãos calejadas. Os pés, por andarem descalços nas ruas, apesar de suas havaianas estiradas por aí. As mãos, por trabalharem non-stop com o artesanato, que lhes rende R$ 500 num dia, zero reais noutro. Até terça, o paranaense e o filhote estavam dormindo na barraca, trazida dum camping no Tocantins, enquanto o baiano, amigo leal, dormia fora como um cão de guarda.

Ao lado deles sentei-me no vão, um tanto livre do sol “forte como nunca”, como diziam as páginas d’O Estado de S. Paulo no dia 7 de novembro de 1968, data da inauguração do museu projetado pela sra., que abrigaria o riquíssimo acervo de Assis Chateaubriand, “um dos mais ativos e generosos embaixadores a visitar a corte de St. James”, nas palavras da Rainha Elizabeth II, enquanto o povo, sob o suor de 34ºC, ocupava árvores, andaimes, janelas, postes, terraços e até o painel que saudava: São Paulo welcomes Her Majesty, the Queen.

De volta a 2013, sob um sol novamente escaldante, na casa dos 37ºC no relógio da Paulista, Hernandez vestia bermuda xadrez e regata, tatuagens e cachos. Guerra vestia bermuda colorida e regata, tatuagens e cachos quase domados por um rastafári, anéis e óculos. Nessa tarde no museu, já livre das “indesejáveis” barracas azuis, passaram diversos tipos: cinegrafista, fotógrafo, skatista, índio com carrinho de som, estudante, hippie chic, turista, poeta com dito best-seller a tiracolo, gravatas e sombrinhas, all-stars e iPhones. Muitos passageiros, aliás, interessados nos brincos e balangandãs de Hernandez e Guerra. “Mas com uma barreira dessas aí, nem Pelé faz gol”, Guerra sussurrou, enquanto a gravação de um quadro humorístico atrapalhava a visibilidade de suas peças no meio-fio. Nem cogitou discutir, preferiu recuar uns passos, mas por instinto: o sol avança, a gente adentra o vão livre pra escapar dele.

Ali no meio do vão, o GCM Nunes O+ – guardinha não, por favor, policial –, observava a leve movimentação, nada fora da rotina. Encostou o queixo na porta do carro, que, como dizia a notinha do jornal, faria plantão 24 horas no Masp. “Você vê, uns caras estão aqui por opção; outros estão aqui por falta de opção, perdidos e sozinhos. Desde Kassab, não tem política pra essa gente em situação vulnerável. Eles só vão varrendo as pessoas de um lado a outro da cidade. Saída praissoaí só educação mesmo.” Também ali, uma base da PM observava outro movimento: parou quatro rapazes – camiseta, jeans e tênis – para revistá-los, nada fora da rotina. Nada encontraram.

Hernandez e Guerra não fazem questão de dormir no Masp. Dormem noutros cantos. Hernandez tem uma mochila do Bob Marley, um cobertor surrado e os brinquedos do filho. Guerra tem uma mochila azul e só. Um não fuma nem bebe. Outro fuma Hollywood. Sob o sol forte das 15h30, vão adentro, eles juntavam moedas para mandar Bob comprar coca no mercado – Bob é um maluco beleza, vive no fantástico mundo de Bob, mas não tem maldade, não. Outro dia, um bêbado se jogou no chão e disparou três palavrões. João Pedro, 2 anos, repetiu imediatamente as palavras. Bob surtou: “Você não tem educação? Não tá vendo que tem um guri pequeno? Simbora, maluco, aqui cê não pode ficar xingando, não!”

Guerra e Hernandez aprenderam a viver na rua. Guerra quase teve um cobertor velho roubado à mão armada num beco em Vitória. Hernandez alugou uma casa em Belém, que foi invadida e levaram “só tudo”, aí preferiu dormir na rua, mais sussa. “Eu trabalho. Se eu quiser, pago R$ 50 num hotelzinho para dormir e tomar um banho. Mas, às vezes, eu simplesmente não quero.” Mas por que não um albergue ou algo assim? “E se eu quiser dormir na rua? Eu posso. Então, por que não?” Por que não, Lina Bo?

Fato é que esses e outros artesãos viram muita história passar entre essas colunas. A do amigo argentino que precisa juntar dinheiro para ir à Itália, onde vivem a ex-mulher e a filha; a do playboy viciado em crack, mas ninguém suspeita; a da patricinha neo-hippie rebelde com ou sem causa; a do Gaúcho, artesão veterano do Masp, esse “morador de rua com orgulho”, que quer render para rever a filha e poder pagar Lucky Strike, lasanha e churrasco; a do Piauí, outro veterano, o cara das petecas, que foi parar no YouTube por seus discursos messiânicos nas jornadas de junho. “Tem espaço pra tudo, cara legal, trafica, favó. Cada um faz sua história.” O vão lembra o que Danilo Miranda disse certa vez, num café distante, sobre o Sesc Pompeia, não por acaso também projetado pela sra.: “É a rua que a gente ‘entra’, sabe? Uma rua onde todo mundo pode andar, dum jeito livre e total. Sem catraca, nem livre nem paga”.

Pois Guerra quis ver a mostra Corpos e Rostos, de Lucian Freud, dias desses, numa terça de catraca livre no Masp. Quis conferir, pois viu o pôster da exposição e ficou intrigado com os detalhes da gravura. Justo de Lucian Freud, que, nas palavras de Teixeira Coelho, fazia um certo humanismo incômodo: “Pinto o que vejo, não o que você quer que eu veja”, dizia o artista, que buscava nos seus modelos apreender uma certa verdade, algo invasivo e perturbador, não tranquilizador. “Fenomenal”, Guerra diz. Definições artísticas à parte, porém, ele não se interessou por outras relíquias do Masp. Valoriza, mas não gosta especialmente. Como outros artesãos, Guerra não gosta muito “dessa coisa de museu”. “Tá ligada no Cândido Portinari? Morreu envenenado pelas telas que fizeram o cara famoso. Só foi valorizado verdadeiramente depois de morto, vi no museu lá em Brodowski. Mas, aí, minha avó dizia: é preciso valorizar as pessoas em vida. Em morte é fácil, depois dos tropeços de cada qual.”

Desde 1993, Hernandez e Guerra estão na estrada. A pé, bike, ônibus. Pretendem ficar ao léu até quando, senhores? “Não sei.” E se lhes oferecessem uma casa e um emprego das 9 às 6? “Jamais, não preciso disso”, responde Guerra. “Trabalho já tenho. Casa, não. Todo mundo quer um lar pra voltar”, pondera Hernandez.

Cara Lina, no fim, esta carta era só para contar as últimas transformações no vão livre. Nem arrisco a dizer o que a sra. diria se visse essas discussões. Mas Renato Anelli, antigo aluno da sra. e um dos diretores do Instituto Bardi, arrisca: “Lina era muito crítica, combativa, às vezes ácida. Diria uns bons palavrões sobre essa ideia de cercar o museu. Defendia a importância do espaço público para reconhecer a diversidade e as contradições da sociedade. Defendia a liberdade e a riqueza cultural do cotidiano. Desde sua vinda, na década de 1940, ela tentava se equilibrar entre o choque e o fascínio por essa vida na ruas do Brasil”. No paralelo, Anelli organizou uma manifestação no Masp no sábado: um abraço, simbólico, como um statement pela liberdade política do museu – que, quando construído, definiu Teixeira Coelho, atual curador do Masp, era um lugar de sonho da arquitetura, de uma vista desimpedida, donde se podia ver longe rumo às montanhas da São Paulo da década de 1960. Bom, como disse, a cidade mudou muito: verticalizou imensamente, proibiu isso e aquilo, mergulhou numa bolha imobiliária, ficou mais dura e mais cruel. Para muitos, virou um pesadelo.

Hernandez e Guerra acordaram nessa terça-feira qualquer e voltaram ao museu. Não são muito fãs de livros, pois esperam ver logo o final da história. Mas Lina, nesta página, a história deles é mais uma dessas sem-fim, das que se vão sob o nosso vão.

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