aliás – estado

Reviver a utopia

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(Para O Estado de S. Paulo – 4/8/2013)

Seattle foi uma faísca. Em 1999, milhares de manifestantes ocuparam as ruas contra o sistema capitalista, impedindo a rodada da OMC. Depois, o rastilho de pólvora se alastrou mundo afora: floresceu um forte movimento antiglobalização com manifestações em São Paulo, Quebec, Praga, Melbourne, Gênova, Davos, e a estreia do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, aglutinando anarquistas, intelectuais e políticos, no início dos anos 2000. Nesse contexto mergulharam o fotógrafo André Ryoki e o filósofo Pablo Ortellado, autores de Estamos Vencendo (Conrad, 2004). Parte do livro, as fotos deste ensaio foram feitas em São Paulo, entre 2000 e 2002. Historiador e atualmente roteirista, Ryoki conversou com o Aliás sobre a estética dos protestos de ontem e de hoje.

O livro parte de Seattle, mas as fotos focam São Paulo. Há um link entre essas cidades?
Totalmente, pois era um movimento internacional, que queria questionar, com a alternativa “outro mundo é possível”, a globalização que se firmava na época. Essas cidades passavam por contextos históricos similares, com o auge do neoliberalismo e das políticas de Estado mínimo, que tiveram impactos socioeconômicos não só na América Latina e no Brasil, mas nos países centrais do capitalismo.

Quer dizer, as fotos poderiam simbolizar São Paulo ou qualquer outra metrópole?
Não diria isso, pois vejo uma diferença estética nas manifestações. Existia uma especificidade no Brasil: o caráter lúdico. A ideia era ocupar a cidade. A metrópole concretiza as relações entre o capital e o trabalho, de uma forma muito cruel. Os manifestantes queriam ir para a rua e inverter essa lógica. Afinal, a gente não quer apenas cruzar a cidade para ir trabalhar. A gente quer se divertir, fazer festa, vestir fantasia. “Brincar”, mas não de uma maneira leviana – e sim para subverter a ordem urbana. Essa proposta lúdica era uma especificidade da época, não vejo isso nas manifestações atuais.

E a repressão policial era muito diferente?
Era tão truculenta quanto é hoje. Isso não mudou muito – e lá se foram quase 15 anos. A questão é que as manifestações atuais conquistaram uma dimensão muito maior. Na época o pessoal apanhava pra caramba, com as mesmas balas de borracha, as mesmas bombas, o mesmo gás lacrimogêneo. Os fotógrafos apanhavam como apanham hoje. A diferença, crucial, é que a imprensa não noticiava isso.

Anarquistas estão muito presentes nas fotos do livro. Agora vemos os Black Blocs…
As manifestações se ancoravam em movimentos horizontais, sem hierarquia nem líderes. Isto é, bebiam nas fontes do anarquismo. Eram organizações autônomas, em que cada um decide seu grau de envolvimento e seu papel. Os anarquistas não estão “voltando”, porque nunca foram embora. Esses movimentos se contrapõem à organização partidária, que visa ao poder institucional. O alvo é outro: eles querem viver a própria utopia nas manifestações.

Que perspectiva você pretendia oferecer?
Queria documentar o pessoal se apropriando da rua. E é impossível ser imparcial. A foto diz o que você pensa sobre a realidade. Nunca me preocupei em fazer essa diferenciação – eu fotógrafo versus eu ativista. O meu olhar tinha um lugar, um porquê.

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