aliás – estado

Enigma egípcio

Por Juliana Sayuri
De São Paulo

(Para O Estado de S. Paulo – 7/7/2013)
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Um paradoxo golpeou o Egito nessa semana. No domingo passado, milhões de manifestantes ocuparam as principais cidades em protesto no aniversário da posse do islamita Mohamed Morsi, primeiro presidente democraticamente eleito na história egípcia. Na segunda, os manifestantes, furiosos, deram o ultimato: 48 horas para o presidente renunciar, ou se tornaria alvo de uma intervenção militar. Morsi fez coro com o que dizia o general Hosni Mubarak nos seus últimos suspiros no poder: “Sou eu ou o caos”. Por fim, na noite de quarta-feira, Morsi caiu.

Mas o paradoxo só se acirrou: como compreender o jogo político intrincado em que um movimento democrático – o Tamarod, apoiado por personalidades e oposicionistas de linha laica, liberal e esquerdista – pode pedir a derrubada manu militari de um presidente democraticamente eleito, justificando que é preciso redirecionar o país à democracia? De um lado, a Irmandade Muçulmana cravou e a imprensa internacional endossou: coup d’état! De outro, os manifestantes coloriram a Praça Tahrir com fogos de artifício, em celebrações que lembrariam a vitória com a queda de Mubarak no auge da Primavera Árabe, em 2011. Desta vez, foi a rua golpista? Se sim, foi um golpe oportuno? Justificável? A reviravolta egípcia fragilizou ou fortaleceu a democracia?

Quem responde a essas e outras questões é o escritor egípcio Alaa Al-Aswany, autor de Yacoubian Building (2002), Chicago (2007) e Automobile Club (2013). No Brasil, o escritor teve traduzidos a coletânea E nós Cobrimos seus Olhos (2013) e o best-seller O Edifício Yacubian (2009), publicados pela Companhia das Letras. Além do universo literário, Al-Aswany conquistou notoriedade internacional com o movimento Kefaya, que destronou Mubarak após três décadas no poder. Também confrontou o primeiro-ministro Ahmed Shafiq na TV – foi a primeira vez desde a década de 1970 que um líder egípcio se viu obrigado a responder ao vivo a inesperadas questões de um civil provocador. Em 2011, Al-Aswany foi celebrado como o mais importante pensador no prestigiado ranking Top 100 Global Thinkers, da revista Foreign Policy. Foi perfilado como o romancista revolucionário da Primavera Árabe na revista The New Yorker e escreveu artigos políticos para The New York Times, The Independent, The Guardian, Le Monde, El País. Nesses escritos, cravou um mantra: “Democracia é a solução”.

Nascido no Cairo em 1957, Al-Aswany reúne diversos papéis. Intelectual e ficcionista sensível aos dramas egípcios do presente, ainda é dentista, seu ofício original, no bairro de Garden City. Paralelamente, fundou o movimento Kefaya por volta de 2004 e se tornou um dos mais importantes campaigners pró-democracia no país. Nesta entrevista exclusiva ao Aliás, Alaa Al-Awany comenta a singular situação egípcia e diz por que não considera a derrocada de Morsi uma ruptura da ordem democrática: “Não foi um golpe de Estado. Tomamos de volta a revolução roubada”.

Outrora epicentro da Primavera Árabe, a Praça Tahrir foi ocupada mais uma vez. Em 2011, o movimento Kefaya estava lá. Em 2013, o Tamarod. Quais são as principais diferenças entre esses dois momentos?
Kefaya, que quer dizer “basta”, era um movimento independente e altamente simbólico. Foi a primeira vez que dissemos “basta” a Mubarak. Começou por volta de 2004, reuniu outros movimentos até conquistar os jovens, em 2008. Foi um acúmulo de visões revolucionárias que tomou as ruas em 2011. Muitos dos jovens do Tamarod estavam no Kefaya. O que vimos nos últimos dias foi mais uma onda de uma revolução muito forte. Revolução, vale lembrar, não é apenas um momento pontual. Este foi mais um capítulo. Tivemos três barreiras. Primeiro, Mubarak – e o Kefaya o derrubou. Segundo, os generais – e nos livramos deles nas eleições. Terceiro, Morsi e a Irmandade Muçulmana – e o Tamarod iniciou o movimento com uma campanha por eleições presidenciais antecipadas. Uma mobilização pequena a princípio, liderada por quatro jovens, que conquistou multidões. São jovens corajosos e criativos, realmente revolucionários. Tamarod quer dizer “rebelde”. Essa campanha reuniu mais de 22 milhões de assinaturas, todas documentadas. Pedimos aos signatários para irem às ruas, mostrar que não reconhecem Morsi. E assim vimos mais de 30 milhões de egípcios nas ruas.

Mas Morsi foi eleito democraticamente em 2012. Foi um golpe?
Morsi ascendeu ao palácio presidencial pela voz de 13 milhões de egípcios. Desta vez, tínhamos 22 milhões pedindo sua renúncia. Por quê? Porque não o reconhecíamos mais como legítimo. Mubarak era um ladrão corrupto, governando como ditador pela força. Mas Morsi é um terrorista fascista, governando como ditador pela força e pela palavra de Deus, ancorado na Irmandade. Tentou monopolizar o poder, a mídia, a Justiça e todas as instituições democráticas do país em favor dos interesses de sua gangue. Em novembro, fez um decreto que lhe dava superpoderes, anulando a lei e a própria ideia de Constituição. Suas decisões se tornaram inquestionáveis na Justiça. Novamente: sim, era um presidente democraticamente eleito, mas que se transformou num ditador fascista. Com essa autoridade excepcional, preservava os interesses de um comitê ilegal para escrever e impor uma nova Constituição. Além disso, sob suas ordens a polícia matou 134 manifestantes e prendeu outros 3.400. Não há como dar legitimidade a um regime assim. Não foi um golpe.

Mas por que não dar mais tempo para encontrar alternativas para a crise?Porque não resistiríamos. Se ficássemos mais um ano nessa situação – não digo nem esperar o fim do mandato do presidente –, não restaria nada para discutir. Simplesmente não restaria nada do país.

É possível confiar nos militares?
Penso que sim. Não derrubaram o presidente para tomar o poder para si. Disseram: estamos ouvindo os 30 milhões de vozes nas ruas, e o presidente deve ouvi-los também. Deram um tempo para Morsi agir. Depois deram um ultimato para um acordo com os opositores. Logo no início disseram: não temos intenção de tomar o poder, não queremos papel político nisso, queremos apenas impedir que o Estado egípcio se esfarele numa guerra civil. Tanto que o presidente temporário não é um general. É o juiz da Suprema Corte.

Há risco de os militares ficarem no poder?
Os generais não parecem interessados no poder agora, pois tiveram uma experiência terrível após Mubarak. Viram as manifestações vigorosas, sabem o que os esperaria se tentassem voltar. E os egípcios estão alertas, não aceitariam um novo regime militar nem por um único dia.

Se a economia estivesse mais forte, esse levante aconteceria mesmo assim?
Sim. Se pudéssemos confiar em quem está no poder, continuaríamos o cotidiano mesmo passando por dificuldades financeiras. Poderíamos esperar mais tempo antes de uma ruptura como essa, se isso fosse simplesmente uma questão sobre a performance frágil do presidente. Mas o que está em questão não é a competência. Morsi tomou decisões terríveis, econômicas e políticas, para favorecer os interesses de seus aliados. Lembro muito bem: um dia após ser eleito, Morsi convidou intelectuais e líderes revolucionários para conversar. Eu fui. E lhe disse: “Sr. presidente, o sr. tem duas opções. Primeiro, pode tentar alcançar as metas da revolução. Continuaria forte e apoiado pelo povo egípcio. Quer dizer, mesmo se perdesse o apoio da própria Irmandade, ainda teria o apoio do povo. Segundo, pode preferir agradar à Irmandade. Se fizer isso, perderá tudo, pois o povo nunca mais confiará no sr.”. Ele respondeu: “Certamente escolherei a primeira alternativa”. É muito estranho lembrar essa conversa agora. Nós nos sentimos traídos.

E qual é o sentimento agora?
Vitória. Sentimos que estamos tomando de volta a revolução roubada. Estávamos frustrados, pois não víamos nada mudar. Agora tomamos as rédeas, ninguém poderá ignorar a vontade do povo.

Morsi foi eleito pelo povo. Foram eleições justas?
Justas sim, mas os critérios não foram os melhores. Os oponentes de Morsi, os homens de Mubarak, foram alvo de 35 acusações de corrupção, não investigadas. Mohamed Morsi e Ahmed Shafiq gastaram milhões de libras egípcias nas campanhas – e ninguém sabe de onde veio esse dinheiro. Outro ponto: no primeiro turno, Morsi teve 5 milhões de votos (isto é, a Irmandade não foi capaz de fazê-lo vencer de uma vez). No segundo round, as opções eram Morsi ou Shafiq, premiê de Mubarak. Escolhemos Morsi. Muitos jovens votaram nele, comemorando o que simbolizaria uma derrota para o antigo regime. Imagine o seguinte: você pega um táxi para o Rio, depois descobre que o carro deliberadamente alterou a rota e está indo para Brasília. Você espera enquanto vê o táxi rodar milhares de quilômetros na direção errada? Ou pede para parar, para voltar para o caminho certo?

Em entrevista ao Aliás, na época das eleições, Tariq Ramadan disse que escreveu The Arab Awekening para advertir que os militares nunca desistiriam do poder no Egito.
Discordo. Primeiro, Ramadan é da Irmandade. É neto de um dos fundadores. Segundo, não vive no Egito (é suíço, mas vive na Inglaterra). Fico surpreso por ele fazer um comentário tão confiante sobre um país que talvez não conheça o bastante. Terceiro, a Irmandade propôs um acordo às Forças Armadas para lhes dar todo poder contra a revolução. Por isso, penso que o Exército não está agindo assim agora em benefício próprio – afinal, os militares teriam muitos mais benefícios se estivessem aliados à Irmandade.

Mas não se trata de uma disputa entre seculares e islamitas, certo?
Certo. Eu sou muçulmano. A maioria do país é muçulmana. A questão é a Irmandade. Quer dominar tudo em nome de Deus – a fortuna, a terra, o poder. O que está acontecendo é uma reviravolta importante que influenciará no Islã político. A Irmandade se tornará só mais um partido de direita – e não mais que isso. Nosso país tem uma composição cultural muito rica. O Egito é um Estado árabe e muçulmano há 15 séculos. Mas por 35 séculos tivemos outras culturas. E antes de Israel, tivemos judeus no nosso território. Somos um povo antigo, com várias etnias e diversas migrações – gregos, romanos, etc. A cultura egípcia é muito estratificada. Transformar essa cultura num país fanático seria contra nossa identidade. Também somos um povo jovem: 60% dos egípcios têm menos de 40 anos. Quando dizemos a “juventude egípcia” estamos nos referindo a mais da metade da população. Isso fortaleceu os movimentos.

Talvez a juventude tenha sido impaciente…
A sociedade está vívida e enérgica. A revolução nos mudou. Não temos mais medo, ultrapassamos essa fronteira. É uma mudança irreversível. Afinal, a revolução não é um piquenique no parque. É uma mudança real e profunda, que leva tempo. Se vemos a população disposta a morrer pela liberdade do país… Quando atingimos esse ponto, realmente precisamos ser otimistas sobre o futuro. Eu estou otimista.

Do lado pessimista, há o risco de o Egito se tornar a Argélia de 1990?
Um dos maiores erros dos comentaristas é fazer aproximações sobre situações ainda abertas, dizer que o Egito se tornará o Irã ou a Argélia. Discordo. Cada país tem seu contexto histórico, sua dinâmica própria. Só para citar duas diferenças importantes: a Argélia tem uma sociedade fragmentada em tribos, nós não; o Irã tem um líder supremo a quem obedecem, nós não. Não vejo paralelos possíveis.

Enquanto Barack Obama expressou preocupação, Bashar Assad festejou a queda…
Assad não é importante para nosso movimento. Esse cara é um ditador terrível, que deveria ser destronado e julgado num tribunal pelos crimes na guerra civil na Síria. Catherine Ashton, da UE, e outros europeus disseram que não foi um golpe. Já os americanos… Imagine assim: você compra uma jaqueta muito cara, depois descobre que não serve mais. Tenta devolvê-la, mas não é permitido, a política e tal. Os americanos compraram a ideia da Irmandade no poder, pois pensavam que poderiam dominar o país através dela. Agora viram que a jaqueta não serve mais. Era tarde demais para devolver. A alternativa, para fazer valer o preço pago, é usar a peça apertada mesmo. É o que os EUA estão fazendo: não querem admitir que escolheram o lado errado no Egito.

Nobel da Paz, Mohammed El Baradei seria um nome nesse novo horizonte político?
Baradei é um dos nomes mais importantes na revolução. Honesto e querido pelos egípcios, poderia liderar o país nessa transição democrática. Não sei se o fará.

Daqui a uns dez anos, os livros de história lembrarão o que aconteceu nessa semana como um golpe ou uma onda revolucionária?
Se um historiador vê isso como um golpe, pode encerrar a carreira. É mais uma onda da revolução, que ainda não terminou. Haverá outras ondas. O que estamos vivendo mostra que nosso país está pronto para a democracia real. Afinal, democracia não é um livro sagrado. É o poder do povo.

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