aliás – estado

Zagueiro na área

Por Juliana Sayuri
De Taquaritinga (SP)
(Para O Estado de S. Paulo – 9/6/2013)

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Um acordo de cavalheiros, dizia-se. No dia 27 de maio, em uma sala sem graça, em volta de uma mesa ainda mais sem graça, armados de iPhones, reuniram-se por horas na NR Sports, no centro de Santos, os tais cavalheiros que selariam o destino de Neymar. Neymar da Silva Santos, o pai; Wagner Ribeiro, o empresário; Raúl Sanllehí, o diretor do Barcelona; João Vicente Gazolla, o advogado do Santos; Eduardo Musa, o assessor; André Cury, o empresário do Barça na América do Sul; e Edmilson. Peraí, Edmilson? Que Edmilson? Aquele do gol de bicicleta na Copa de 2002?

O próprio. O zagueiro caiu de gaiato no Dia D da saga catalã de Neymar. Na saída da NR Sports, jornalistas à espera, o ex-jogador se tornou fonte primária: “Está assinado. Neymar assinou por cinco temporadas e viaja no domingo à noite para se apresentar ao Barcelona”. Nesse mundo de coringas e cartolas, ninguém é bobo. Edmilson logo postou fotos do encontro no Instagram, deu declarações a jornais e, após uma entrevista à rádio espanhola Esports Cope, virou o possível “tutor” de Neymar na capital catalã, por ser amigo – e “homem de confiança” – da família Silva Santos. “Uns tempos atrás, seu Neymar me ligou, para saber se eu podia descer para Santos para trocar umas ideias. Queria saber como é o clube, a cidade e tal. E calhou de acontecer nesse dia a assinatura com o Barça…”, conta Edmilson. Calhou? Simples assim? “Sim, calhou”, desconversa.


Pois seu Neymar, conhecido retranqueiro, alisa a bola um pouco mais. “Ah, foi por acaso. Já tínhamos uma reunião marcada para conversar sobre a possível ida do Neymar pro Barcelona. Foi realmente uma coincidência o Edmilson estar lá no momento do ‘sim’.”, endossa, voz apressada ao celular DDD 13. “Ele se prontificou a oferecer ajuda, pois já jogou lá. Foi um ato benevolente. Ele é bem-vindo. Mas é uma relação de amizade, não um negócio.”

Enquanto Neymar, o Júnior, brilhava no Camp Nou na segunda-feira 3 de junho – com 70 mil torcedores, festa, tapete vermelho e toda a pompa europeia para celebrar o acordo de 57 milhões -, Edmilson arrumava a malinha para pegar a estrada para o interior de São Paulo. Com os holofotes futebolísticos voltados então para o território espanhol, o zagueiro aposentado se recolheu novamente aos bastidores.

Voltou, na verdade, para a terrinha natal. A 340 km da capital, Taquaritinga se perderia entre as tranquilas “cidadezinhas quaisquer” de Carlos Drummond de Andrade. Nos últimos tempos, Edmilson tem visitado a cidade a cada 15 dias. Ali, é o “tio” da galera. Na tarde da última terça-feira, sol e céu azul, vestia camiseta rosa vibrante, jeans, ray-ban de aro branco e tênis preto com cadarço laranja. Não fossem as pequenas rugas ao redor dos olhos verdes, passaria por um meninão de 1,86 m aos 36 anos. Desde 2006, mantém na cidade de 55 mil habitantes uma fundação para 300 crianças e adolescentes carentes. Entre uma reunião e outra para acertar parcerias para a fundação, atravessou o pátio e a grama, foi “beliscar” a merenda das crianças na cozinha e voltou com uma mexerica nas mãos. “Sobre o que você quer conversar?” Sobre você, oras. “Eu?” Despedaçou os gomos da mexerica. Ficou brincando com os pedaços entre os dedos.

Na sua Taquaritinga, diz que viveu os melhores momentos de sua infância, lá pelos 10 anos. Morava numa casinha na Vila São Sebastião, perto da linha do trem, com os pais, dona Lia e seu Divino, e dois irmãos, Rogério e Natália. Ajudava o pai na colheita de laranja e na carga dos dois caminhões, mas gostava mesmo era de passar as tardes no campinho de terra nas redondezas de casa, jogando bola com os meninos do bairro. E jogava sério. A dinheiro. “Era nervosinho o menino. Se ganhava, era só alegria. Se não ganhava, brigava, rasgava os trocados que deveria pagar aos outros meninos. Aí eles iam tocar lá no portão de casa: ‘Ô, dona Lia, Dmilson tá brigando de novo’”, conta a mãe, que dia sim dia não tinha que pegar o menino pela orelha para fazer a lição de casa. Anos mais tarde, o ex-jogador escolheria esse mesmo campinho de terra para construir a Fundação Semeando Sonhos.

Mexerica vai, mexerica vem, Edmilson começa a lembrar pedaços de sua trajetória. Aos 11, talvez 12, começou a jogar como amador. Queria ser volante. Aos 14, estreou no infantil no XV de Jaú, peneirado entre 300 garotos. Começou a adolescer e, com o tempo, a amenizar a braveza. Mas pouco, por enquanto. “Ele não queria ficar em Jaú… Chiava por causa do beliche de cimento, com colchão muito fino, onde tinha que dormir. Pegamos um fusca velho emprestado de um amigo e num sábado levamos um colchonete grosso para ele. Pedimos para ficar ali. Ia ser bom para ele”, lembra dona Lia, uma senhora simpática de 60 anos, morena, joãozinho acaju, de fala veloz.

Em 1994, num jogo entre XV e São Paulo, fizeram o convite e aos 18 o rapazola estreava no Tricolor paulista, primeiro no júnior e logo depois no profissional. Quis levar os pais para morar na capital. “Mas eu não queria ir. Sou acostumado na roça, né? Só fiquei porque o Edmilson arrumou dois terrenos lá e dava para fazer uma horta”, conta seu Divino, paulista do pé rachado de 63 anos, fios grisalhos e olhos verdes.

Nessa época, Edmilson conheceu Simeia, às portas da Igreja Missão Mundial Graça e Paz e deu mais um passo à, ops, graça da paz. Um ano depois, casaria com a primeira namorada, no dia 23 de dezembro de 1999. Mais seis meses, foi convidado a jogar no Lyon, da França, na época um azarão que não punha as mãos numa taça havia muito tempo. Na temporada 2001/2002, porém, o time voltou ao páreo com a conquista do Campeonato Francês (o primeiro da história do Lyon) e depois venceu as sete temporadas seguintes.

E dá-lhe mexerica. Edmilson a descasca com facilidade, mas é difícil, um retranqueiro, na hora tirar a própria casca e contar suas histórias. Mas aí se lembra que sabia sair jogando e, de repente, dá um esbarrão inesperado com a vida. Quieto, discreto, às vezes bravo, mas bom coração, dizem. Dentro de campo, destacou-se na zaga – e nas vezes em que desembestava a cruzar as linhas inimigas, como no tal gol de bicicleta na Copa do Mundo de 2002. Fora de campo, construiu a imagem de bom moço, interessado e responsável, pai de família. Ainda mais nos tempos badalados do Barcelona, que o convidou para se unir ao clube na temporada 2004/2005 por algo na casa dos 8 milhões.

Edmilson seria o sexto brasileiro no time espanhol, que já contava com Ronaldinho Gaúcho, Sylvinho, Tiago Motta, Belletti e Deco (brasileiro, mas naturalizado português). Seria e quase não foi. Isso porque, por causa da Lei Bosman, só eram permitidos cinco jogadores não europeus – e o sexto teria que se virar. Edmilson se virou atrás de alguma cidadania para permanecer na Europa. Faltando um dia para entregar os documentos, o gol de gambiarra: “Meus avós eram italianos. Todo mundo pensa que quem salvou a lavoura foi o Divino, branquinho. Mas fui eu. Minha mãe era baiana preta dos olhos azuis, filha de italianos”, conta dona Lia. “O menino tem quatro nomes: Edmilson José Gomes de Moraes. Se também tivesse o meu sobrenome, Romano, tudo ficaria mais fácil. Mas nem pensei nisso. Aí precisaram correr atrás da certidão de casamento lá numa cidadezinha italiana que não lembro o nome.”

Uma vez acertada a questão da cidadania europeia, Edmilson ficou no Barcelona, onde o jovem Messi já jogava. Ficou até 2008, num estilo bem diferente das farras, festas e tentações barcelonetas que fizeram tremer outros casamentos. Preferia fazer churrascos em casa, com os amigos. Ali Simeia e Edmilson já tinham as filhas: a francesa Tiffany, agora com 10 anos, e a espanhola Emily, com 7. Depois do Barça, mudou para Villareal, Palmeiras, Zaragoza, Fortaleza e finalmente se aquietou.

“Olha, papi, se você for para a China ou qualquer outro lugar, não vou com você. Eu vou ficar no Brasil”, disse Tiffany, certa vez. Foi o bastante para papi (já prejudicado por lesões) decidir se aposentar. Quem lembra é Simeia, que não usa aliança e entrega o deslize do marido. “Edmilson já perdeu umas dez alianças, esqueceu em vestiário, quarto de hotel… Aí cansei. Quero uma definitiva.” Em 2012, depois da aposentadoria, decidiram fazer o design de uma aliança nova, que trocarão no aniversário de casamento. Descuidado, mas comprometido. Apesar dos dedos livres de Simeia, Edmilson usa uma grossa aliança dourada.

Aposentado, ele passou a se dedicar aos bastidores do futebol, com uns quatro projetos simultâneos. Todos, de alguma maneira, voltados para jovens aspirantes. De volta à defensiva, não quer comentar muito sobre suas investidas. Com a fundação, já fez amistosos solidários, como o jogo no Estádio Hudson Buck Ferreira, da esquecida Matonense, que contou com Neymar em 2010. Foi o primeiro encontro entre Edmilson e Neymar pai, o início da amizade.

No paralelo, o zagueiro também aposta no Instituto Brasileiro de Futebol, o BFut, um projeto embrionário que pretende investir em novos talentos no interior de São Paulo. Participa como técnico linha-dura do reality show Menino de Ouro (no SBT, a final irá ao ar neste domingo, às 10h), que escolherá um garoto promissor para treinar no Corinthians, Palmeiras ou São Paulo. Também há convites para se tornar diretor de futebol (de algum clube que não diz qual é) e para treinar equipes de base do Barcelona. Econômico nas palavras, não deixa escapar detalhes, como se não quisesse publicidade. “São muitos projetos ao mesmo tempo. Posso dizer? Era mais fácil só jogar bola.”

Misto de treinador, psicólogo, educador, empresário, diretor, Edmilson parece reunir as características para ser um verdadeiro “tutor”. Dentro de campo, quer inteligência e versatilidade. Fora de campo, quer educação – o que inclui os simples “bom dia” e “obrigado” dos jovens boleiros. “E o jogador deve saber a responsabilidade de vestir uma camisa de um time. Ele está vestindo o sonho de um torcedor de ter um fim de semana feliz”, diz, batendo no peito. “É o que falta hoje. A gente não tem mais espelho. Nada contra. Neymar é um menino que vende muito bem a imagem, mas… (‘joga com a golinha da camisa levantada’, completo mentalmente a frase pra ele). O sonho de um menino hoje é ter dinheiro, dirigir um carrão, ter o cabelo e o brinco, namorar a menina da novela. Quer dizer, não pode ser só isso. Falta um espelho pra esses meninos”, diz.

Mas, cá entre nós, Edmilson, que interesse você tinha nessa reunião em Santos? “Que o Neymar vá pro Barcelona, que se torne o melhor do mundo no seu tempo e na sua hora. E se torne um espelho pros outros meninos. Esse é o meu interesse.”

Edmilson mora em Alphaville, mas mantém casas em Barcelona e Taquaritinga. Em setembro, estará na Catalunha para conversar com o Barça sobre sua fundação e a possibilidade de treinar as equipes de base. “Posso encontrar o Neymar por lá, dar dicas a ele, enquanto resolvo meus assuntos. Mas não vou ser contratado pra fazer isso. Não sou babá, né?”

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