aliás – estado

Tango de uma nota só

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(Para O Estado de S. Paulo – 24/3/2013)
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Eles estão em alta. Têm Messi, Nobel e Oscar – e adoram esfregar os trunfos na cara dos vizinhos. Têm ainda um Maradona para se gabar das glórias. Logo verão coroada a princesa Máxima, na Holanda, a primeira latino-americana numa corte europeia. E, após a fumacinha branca na chaminé da Capela Sistina, dizem altivos: habemus papam. Ah, os argentinos… 

Nessa semana, o papa Francisco recebeu as presidentes Cristina Kirchner e Dilma Rousseff. A nossa fez a brincadeira manjada, por supuesto: “A gente sempre diz: o papa é argentino, mas Deus é brasileiro.” A deles fez um comentário mais íntimo: “Nunca tinha sido beijada por um papa antes.” 

Nessa história de pompa vaticana, porém, ninguém se lembrou que o Tango 01, o Air Force presidencial argentino, tinha ficado encostado no aeroporto do Marrocos, com o rei Mohamed VI, amigo dos Kirchner. Por quê? Ora, a presidente não quis ter o avião confiscado nos aeroportos europeus, risco possível devido à dívida cobrada por fundos internacionais contra a Argentina desde a crise de 2001. Do Marrocos, a comitiva kirchnerista continuou o caminho para Roma num jatinho comercial Bombardier Global Express. A presidente, derretida em elogios ao papa no Twitter, nem ligou e deixou a fanfarrona impressão de veni vidi vici no Vaticano. “Eu me senti mais argentina do que nunca”, disse, após o encontro. 

Mas, apesar da onda nacionalista, o país está naufragando. A análise é do ensaísta argentino Marcos Aguinis. “Aqui, estamos no Titanic. Não sabemos o que acontecerá”, critica o psicanalista e ministro da Cultura no governo de Raúl Alfonsín. Enquanto o dólar paralelo subia na Argentina, atingindo o recorde de 8,75 pesos, uma diferença de 71,5% em relação ao oficial (de 5,10 pesos), bandeiras azuis e brancas flutuavam em diversas praças – cá e do outro lado do Atlântico – durante a missa inaugural do papa. 

“É um nacionalismo pueril, uma ilusão infantil que pretende negar a realidade. Não temos motivos para comemorar”, diz o autor de O Atroz Encanto de Ser Argentino (2001) e Pobre Patria Mia! (2009). De Buenos Aires, Marcos Aguinis conversou com o Aliás. 

Sr. Aguinis, é possível dizer que há um ‘orgulho’ argentino renovado?
Não diria isso. Alguns argentinos estão conquistando muito sucesso mundo afora, mas são exceções. Exceções que nos trazem alegria, certamente, mas não refletem a realidade do país. A Argentina não passa por um bom momento nem economicamente nem politicamente. Um clima de incerteza ronda a sociedade. E a identidade argentina mudou muito. Antes, tínhamos uma identidade fortalecida com os imigrantes que cá vieram para trabalhar e que tornaram a Argentina um país culto e rico, com boa educação e boa saúde. Mas essa identidade foi se apagando. Nos últimos tempos, nós nos tornamos um país decadente e intoxicado por propostas populistas falsamente revolucionárias. E precisamos lidar com o fardo negativo do peronismo. Assim, diria que não temos uma identidade definida. Se um dia muitos países latino-americanos nos invejaram, atualmente não é assim. Agora, nós invejamos vizinhos como Brasil e Chile, que escolheram caminhos melhores que o nosso. Dito isso, o orgulho argentino é um defeito – que, com razão, nos acusam de ter. É um orgulho insustentável, um nacionalismo pueril, uma ilusão infantil que pretende negar a realidade. É um sentimento negativo. Um Papa e um Messi não fazem um país maravilhoso. Precisamos de um país lúcido. Resisto a dizer que deveríamos estar orgulhosos, pois não temos motivos para comemorar. 

Em entrevista ao Aliás, em 2007, o sr. dizia que a arrogância argentina era uma ‘onipotência infantil’. Ainda pensa assim?
Sim, continuo pensando o mesmo. Isso se evidencia, por exemplo, no encontro da presidente Cristina Kirchner com o papa Francisco. Era uma reunião em que deveriam tratar temas universais, a partir de perspectivas amplas. Em vez disso, a presidente pediu ao papa – na minha opinião, de uma maneira inadequada e em momento inoportuno – que interviesse no conflito diplomático das Malvinas. Ora, isso revela um nacionalismo pueril, pequeno, quase bobo. Ademais, se a Argentina pretende recuperar as Malvinas, não conseguirá negociando com o Reino Unido. Tampouco adianta insistir nessa atitude prepotente, com ameaças. Isso só afasta as ilhas. Por outro lado, é preciso estabelecer relações amistosas com os malvinenses. 

No referendo de 12 de março, as Malvinas confirmaram a autoridade britânica…
Sim. Mas a Argentina nunca renunciará às Malvinas e suas riquezas. Evidentemente, pelas conformações geográficas, as ilhas são uma extensão da Patagônia argentina. Assim, o lógico seria que as ilhas ficassem integradas ao país. No entanto, a vida dos malvinenses é muito superior à dos argentinos da Patagônia… E eles não vão querer ser uma província argentina, para passar pelas mesmas crises que nós passamos. A Argentina tem muitos territórios não aproveitados – e as ilhas seriam só mais um. Penso que o caminho para um acordo – pacífico e favorável para todos – seria iniciar um política de acercamiento, reestabelecer um sentimento fraternal. Até a Guerra das Malvinas, em 1982, a relação com os malvinenses era muito boa. Eles vinham ao nosso território, às nossas universidades, aos nossos hospitais. E nós íamos para lá passear. Tudo ia bem até a invasão dos militares às ilhas – um gesto demagógico de expressão de poder. A guerra não tinha fins patrióticos. A princípio, provocou uma exaltação nacionalista. Tanto que muitos ocuparam a Praça de Maio para aplaudir o ditador Leopoldo Galtieri, não podemos esquecer. Mas, após a derrota, o governo militar perdeu mais e mais prestígio, até cair. Atualmente, Kirchner faz uma política similar: a pressão. Desta vez, não há risco de invasão. A Argentina não pode nem pretende invadir as ilhas. Mas o governo atual pressiona sem nem buscar a simpatia dos malvinenses. É lamentável não encontrar uma saída harmoniosa para essa questão. O impasse poderia desaparecer paulatinamente se fosse feito um acercamiento inteligente. 

Buenos Aires iniciou o julgamento dos crimes do Plano Condor. Este domingo marca o aniversário do golpe de 1976. Como o argentino se relaciona com esse passado?
O julgamento da Operação Condor estava pendente. E a expectativa é de que avancem nessa questão. Porém, no geral, a Justiça argentina está muito condicionada. Depois do governo de Raúl Alfonsín (1983-1989) – na minha opinião, o único governo totalmente democrático que tivemos desde 1983 até agora -, a Justiça está condicionada pelo Poder Executivo. Aqui, há duas justiças: uma para os que estão dentro do governo, outra para os que estão fora. Isso aconteceu no governo de Carlos Menem (1989-1999) e se fez muito mais claro nos tempos dos Kirchners. Não temos uma justiça independente e forte. Durante a ditadura, fui perseguido por escrever textos considerados subversivos, como o livro Carta Esperanzada a un General. Mas esses tempos terminaram em 1983. O país poderia ter avançado nessas questões, superando esse passado tão triste. Talvez resolver o passado como fizeram países como Chile e Uruguai. Mas a ditadura não pode ser usada como um instrumento de propaganda atual, para conquistar poder e popularidade. Além disso, me desagrada como a questão dos direitos humanos é abordada no país, pois não é tratada com equanimidade. Na época da ditadura, lembro bem, pedíamos a ajuda de delegações de direitos humanos do Brasil, dos Estados Unidos e da Europa para investigar essas violações. Mas, agora, a Argentina se nega a prestar ajuda a outros países que passam por situações similares. Por exemplo, a médica cubana Hilda Molina, dissidente do governo dos Castro, queria vir para cá pois seu filho fugiu, casou e teve filhos na Argentina. Ela queria visitar os netos, mas não permitiam sua saída de Cuba. Conversaram com Estela de Carlotto, a presidente das Abuelas de Plaza de Mayo, para que interviesse a favor da Hilda. Estela se negou a ajudar, pois não queria se desentender com os cubanos. Foi uma atitude muito parcial. Nessa semana, recebemos a visita de Yoani Sánchez. Muitos manifestantes, que se dizem defensores de direitos humanos, queriam fazer atos de repúdio à presença da dissidente no nosso país. É uma atitude hipócrita, altamente ideológica. A mesma parcialidade acontece com os direitos humanos em outras nações: a Argentina mantém relações com países como Bielorrússia e Irã. 

Como interpreta os ‘escrachos’?
Essas manifestações são uma expressão natural da efervescência juvenil. Como os indignados europeus e o Maio de 1968. Os jovens precisam fazer barulho, e isso é legítimo. Essas manifestações têm relativo valor político. Há um quê de brincadeira, de comédia. Contra quem estão? O que querem? Para quê? Como pretendem melhorar a situação do povo argentino? Isso é preciso questionar. Também é preciso questionar se servem a certas alas do governo para distrair a atenção de outras questões. Há tantas manifestações que nem se sabe mais para que são. Quase todos os dias há 3, 5, 10 movimentos que ocupam as avenidas de Buenos Aires. Fica difícil saber quem as ocupa e para que as ocupa.

Ainda sobre o passado, o que pensa sobre os rumores do papa na ditadura?
É uma lenda urbana. É uma invenção dos setores vinculados aos Montoneros, que construíram diversas acusações sem fundamento. Julio Strassera, um homem incorruptível e muito respeitado, julgou as juntas militares em 1984. Foi muito firme. E não se intimida para dizer a verdade. Strassera negou absolutamente a participação de Bergoglio durante a ditadura. Além dele, Pérez Esquivel, o Nobel, endossa essa defesa. Foi uma campanha contra o cardeal, que denunciou corrupção no governo de Néstor e Cristina Kirchner, que, desde então, nunca foram a uma cerimônia na catedral de Buenos Aires. No dia 9 de julho, nossa independência, há uma cerimônia – e todos os presidentes comparecem à catedral. Após as críticas do cardeal Bergoglio, os Kirchners nunca mais foram a um tedeum na capital. Vão a Córdoba, Salta, Tucumán… Mas não a Buenos Aires.

Que espaço tem a Argentina na política internacional?
A Argentina não está em condições de ser sócia dos países importantes. Nós caímos muito. Note que a presidente não pôde viajar com o avião presidencial para Roma. Ela foi até o Marrocos, onde pegou um voo comercial para continuar a Roma, para evitar possíveis contratempos: o embargo dos bens do Estado argentino, até que o país quite suas dívidas. É uma expressão da fragilidade argentina. Na América Latina, muitos governos se dizem esquerdistas e progressistas, mas não são. Levaram os países ao atraso e à pobreza. Há governos democráticos realmente progressistas, como Brasil, Chile, Uruguai. Mas Cristina Kirchner sempre quis ficar perto de Hugo Chávez. Ela o admirava – e ainda admira o culto à personalidade dedicado a ele. Às vezes, imita o estilo chavista no discurso, mais clownesco. Segue ainda a linha chavista com atitudes autoritárias, principalmente nas limitações à liberdade de expressão. Também se considera na linha bolivariana, que agora está órfã. E Kirchner gostaria muito de ocupar esse lugar de liderança. A aproximação chavista fez com que a presidente argentina assinasse um acordo com o Irã – um Estado isolado, pressionado pela comunidade internacional. O que é um absurdo para nós, pelos dois bombardeios em 1992 e 1994, ordenados pelo Irã e realizados pelo Hezbollah do Líbano. Como essa comissão poderá investigar esses crimes, se é formada por argentinos e iranianos? Seria o mesmo que formar uma comissão, no pós-guerra, para investigar os crimes nos campos nazistas, mas uma comissão integrada por aliados e Hitler e Goebbels.

Mas Kirchner tem calibre para substituir Chávez simbolicamente na América Latina?
Ela tem as características pessoais para isso. O que acontece é que a Argentina está passando por uma situação econômica e sociopolítica tão grave que não encontra o respaldo que tinha Chávez na Venezuela. Isso a impede. Como disse, o país está muito débil diante da comunidade internacional. 

Ao estilo de Evita, a presidente encarna o mito da mulher salvadora da pátria?
Bueno, não sabemos mais o que é o peronismo. Porque o peronismo já foi tudo: comunista, fascista, de direita, de esquerda… Foi como Lopez Rega, o bruxo de Juan Perón. Foi Isabelita e Menem. Todos são peronismos. É como um movimento que busca o poder a qualquer custo, com toques de justiça social e de apoio gremial. Mas não sabemos mais o que é. O kirchnerismo é mais uma versão do peronismo. E Cristina… Ela se diz Evita. Mostra retratos dela para todos os lados. Tenta, mas não consegue conquistar a veneração popular de Evita, pois não é autêntica. Cristina é uma atriz. 

O que foi a primavera cultural argentina?
Foi na década de 1980. Estimulamos a apresentação de peças de teatro, antes proibidas pela ditadura. E estimulamos o mercado editorial a publicar livros, antes censurados. Fazíamos atividades artísticas ao ar livre, temporadas de concertos, com investimento e iniciativa, para que o país recuperasse a efervescência cultural. Foi um tempo feliz, mas que depois deu lugar a uma estação de farândola, de diversão tosca. Para termos outra primavera, precisamos da sensação de que estamos regidos pela lei, que deve ser igual para todos. Aqui, estamos no Titanic. Não sabemos o que acontecerá. Temos manifestações culturais importantes, com cinema, música, literatura e teatro, mas o clima geral não é propício para realmente dedicar tempo e energia à cultura. Nos últimos tempos, temos dedicado muita energia para a política. E uma política muito pobre. 

Após dez anos da publicação de O Atroz Encanto de Ser Argentino, devo perguntar: o que é esse atroz encanto atualmente?
Quando lancei a edição brasileira do livro, com o presidente Fernando Henrique Cardoso em Brasília, ele me fez a mesma pergunta. E eu respondi: dê uma voltinha pela Argentina e já saberá o que é. Aqui, realmente vivemos esses dois universos. Temos elementos muito belos e ricos, mas imersos numa atmosfera muito cruel. Há riquezas naturais, mas a educação e a saúde estão em ruínas. Há criatividade e cultura, mas a pobreza é imensa. É um atroz encanto.

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