aliás – estado

Pega-rapaz

Por que o roteirista das novas ‘Adventures of Superman’ se transformou em vilão diante do movimento gay

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(Para O Estado de S. Paulo – 17/2/2013)
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Santa controvérsia, Batman! Querem trancafiar o Superman no armário? Talvez transformá-lo num herói californiano marrento a la Arnold Schwarzenegger? Macho alfa da cultura pop norte-americana, o Superman se tornou alvo de questões polêmicas sobre sexualidade nos últimos dias, após a editora DC Comics divulgar a contratação do escritor Orson Scott Card para redigir histórias para a revista Adventures of Superman a partir de abril, com ilustrações de Chris Sprous e Karl Story. Mas, para o alto e avante, por que tanta discussão sobre as preferências íntimas do homem de aço?

Eis Orson Scott Card, o x da questão. Premiado por histórias de ficção científica, o escritor americano é um declarado arqui-inimigo do movimento gay. Nascido no verão de 1951 em Richland, Washington, Card já rubricou obras com sete pseudônimos: Byron Walley, Brian Green, Dinah Kirkham, Frederick Bliss, Noam D. Pellume, P. Q. Gump e Scott Richards, por razões diversas – da simples gambiarra à identidade marqueteira. Mas id, ego, alter ego à parte, Card cresceu entre Arizona, Califórnia e Utah. Passou pelo Brasil na década de 1970, como missionário mórmon por cidades como Campinas, Itu e São Paulo. De volta a Utah, casou com uma namoradinha antiga, em 1977. Atualmente vive com a família em Greensboro, Carolina do Norte, onde escreve ensaios, peças, romances, poesias, roteiros. Estreou no universo das HQ com Ultimate Iron Man, da Marvel, em 2005. E, agora, prepara o lápis e o laptop para escrever o primeiro capítulo da nova antologia do paladino da justiça.

Neto de Charles Ora Card, fundador de uma colônia mórmon canadense, o roteirista per se é um personagem complexo, com criptonita própria: mórmon fiel, mas amante de fantasia, ficção científica e romances bíblicos; democrata desde criancinha, mas apoio declarado ao republicano John McCain no primeiro round contra Barack Obama em 2008; autor da saga Ender’s Game (1977), protagonizado por um garoto que aprende a lidar com a alteridade e amar aos inimigos, mas intolerante com questões, digamos, delicadas. “Os direitos dos gays são uma ilusão coletiva”, declarou certa vez, em memorável entrevista àSalon, em 2000. Quase dez anos depois, Card se tornou um dos diretores da National Organization for Marriage, um movimento que faz campanha aberta contra o casamento gay, que, diz Card, levaria ao “fim da democracia” na América.

“Superman é um cara legal. Mais que isso, ele é ‘o’ cara”, diz Andrew Wheeler, no britânico The Guardian. Rabiscado pela primeira vez pelo escritor Jerry Siegel e pelo artista Joe Shuster em 1938, o “real” Clark Kent é considerado um arquétipo do super-herói: um homem poderoso que protege os desprotegidos. “Para citar uma famosa frase da série no rádio na década de 1940, ele defende ‘a verdade, a justiça e o american way’”, continua Wheeler. “É difícil conciliar os princípios de Superman com os valores de Orson Scott Card.” Assim, a escolha da editora surpreendeu muitos fãs, que não demoraram a tricotar com os simpatizantes e militantes do movimento LGBT uma petição para demitir o roteirista – foram 12.345 signatários até sexta-feira. Noutra petição, fãs fiéis defendem o roteirista – 116 a favor de Card. Em resposta diplomática do tamanho de um tweet, a editora disse apenas: “Nós apoiamos firmemente a liberdade de expressão. No entanto, visões pessoais dos indivíduos associados à DC Comics são apenas isso: visões pessoais. E não da companhia.”

É quase paradoxal, porém, a escolha de Card em tempos de arco-íris nas histórias em quadrinhos. Foram três revelações em 2012: a DC Comics arrancou Alan Scott/Lanterna Verde do closet; a Marvel, editora rival, divulgou o casamento do mutante Northstar, do X-Men, com o namorado de longa data; e, em entrevista à Playboy americana, o roteirista Grant Morrison confirmou a suspeita que ronda a batcaverna há tempos: sim, o playboy Bruce Wayne é gay – e Robin dispensa apresentações.

Nos últimos tempos, super-heróis – um tanto quanto másculos, ai e com M maiúsculo, já indicava o visionário Robocop Gay – estão conquistando mais “liberdades” sexuais. Mas a história é mais antiga: “Os comic books sempre foram gays”, diz o escritor Noah Berlatsky, colunista cultural de revistas como Slate The Atlantic. Para Berlatsky, a Mulher Maravilha é certamente gay, desde sua estreia, em 1942. Mas Superman é uma incógnita, apesar dos indiscretos olhos de raio X e do pega-rapaz almofadinha que não desmancha nem na hora de salvar o mundo de meteoros gigantes. “E a ideia de identidades conciliadas se destaca: por um lado, o alien fantasiado Superman se ‘passando’ por Clark Kent; por outro, o afeminado Clark Kent se ‘passando’ pelo viril Superman”, pondera Berlatsky.

“Superman é um ícone da cultura pop”, diz Joseph Darowski, da Brigham Young University Idaho e autor de The Ages of Superman: Essays on the Man of Steel in Changing Times (2012). “Entre outros apelidos, ele é lembrado como ‘o homem do amanhã’. Nos quadrinhos, Metropolis é retratada como uma utopia, uma cidade ideal para o futuro. Então, a HQ precisa se manter à frente do tempo, na curva da tecnologia e da sociedade”, diz Darowski. “É extremamente improvável que qualquer história de Orson Scott Card mude essa essência do Superman”, arrisca.

Para muitos, a escolha de Card foi uma jogada de marketing da editora, pois o filmeEnder’s Game, inspirado no seu best-seller, estreia nos cinemas em novembro. Para outros, foi aposta de um publisher mais louco que o Batman. Até a estreia de Adventures of Superman, o suspense. E a questão que não quer calar: poderá o herói finalmente dispensar a imbatível sunga vermelha por cima da fantasia justa?

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