aliás – estado

Por una sonrisa

A argentina Máxima Zorreguieta se prepara para dar novo choque de latinidad à comportada Holanda ao se tornar rainha consorte

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(Para O Estado de S. Paulo – 3/2/2013)
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Das modernas princesas plebeias, de histórias destrinchadas nos tabloides como gatas borralheiras rumo ao castelo, reinam a inglesa Kate Middleton e a espanhola Letizia Ortiz. Mas, nos últimos dias, outra roubou os holofotes: a argentina Máxima Zorreguieta, prestes a ser coroada rainha consorte da Holanda, após a renúncia da soberana Beatriz.

Máxima se casou com o herdeiro holandês, o príncipe Willem-Alexander, no dia 2 de fevereiro de 2002, o que parecia marcar um “e viveram felizes para sempre” de uma fábula europeia pontilhada por versos de tango argentino. Mas, antes do final feliz, o “era uma vez…”: Taurina de 1971, Máxima nasceu, cresceu e adolesceu em Buenos Aires, ao lado de três irmãos e três meias-irmãs. “Mas ela sempre brilhou”, destaca a biógrafa Soledad Ferrari, coautora de Máxima, Una Historia Real (Random House, 2009). No apartamento de 120 m2 no portenho Barrio Norte viviam os Zorreguietas, família sem muitos caprichos. “E ela era uma garota comum. Ambiciosa, divertida e simpática. Mas jamais uma jovem aristocrata como quer retratar a casa real”, diz Soledad. Na infância gulosa, a menina costumava assaltar a geladeira de madrugada atrás de doce de leite. Também às escondidas, o pai lhe dava uns trocados de pesos para comprar alfajor Jorgito no quiosque do colégio. Era a filha preferida.

Graças ao pai, aliás, a holandesita estudou no Colegio Northlands, bilíngue, misto e laico. Aos 24, formou-se em economia na Universidad Católica Argentina. Passou por companhias como Boston Securities (Buenos Aires), HSBC (Nova York) e Deutsche Bank (Bruxelas). Em 1999, Máxima e Willem-Alexander se conheceram na Feira de Abril, em Sevilha. Ela, uma Britney Spears de amanhã – loiraça de olhos castanhos e sorriso fácil. Ele, um Donald Trump de ontem – de suspeito chinó loiro e bochechas rosadas. Ela, enroscada com um antigo affair alemão. Ele, enamorado à primeira vista.

Eis que o príncipe boêmio passou a cortejá-la. Namoraram. Em 2000, Máxima trocou Nova York por Bruxelas, onde passou a aprender o neerlandês e a história dos Oranges-Nassau. Noivaram, com duas versões hollywoodianas: na primeira, o príncipe pediu a plebeia em casamento enquanto a ensinava a patinar nos jardins do palácio Huis ten Bosch, a casa real em Haia; na segunda, Máxima teria tido um rompante de ciúme contra uma ex de Willem. Furiosa e de volta à Argentina, ela só o perdoaria ao ganhar um anel cravejado de diamantes laranja. Fato é que noivaram e, em 2001, a argentina recebeu a cidadania holandesa. Em 2002, trocaram alianças na Nieuwe Kerk de Amsterdam.

Vestindo Valentino, Máxima entrou sozinha na catedral, pois papá Jorge Zorreguieta, usineiro e ex-ministro do ditador argentino Jorge Rafael Videla, é persona non grata no país. Na época, o premiê holandês Wim Kok liderou uma investigação para descobrir se na ditadura militar o pai da noiva violara direitos humanos (tão defendidos na Holanda). Decidiram garantir-se e proibir a presença dele na festa. Assim, no início da cerimônia, ecoou na catedral o tango Adiós Nonino, de Astor Piazzolla – música favorita do pai, homenagem da noiva.

Uma vez princesa de Orange-Nassau, Máxima não mudou o jeitinho de moça latino-americana, com risada generosa, vestidos coloridos e acessórios extravagantes, sobretudo chapéus exóticos que quase a fazem perder a majestade. “Ela despertou a curiosidade europeia, que questionava como uma argentina se adaptaria à cultura holandesa”, conta o britânico Neil Blain, autor de Media, Monarchy and Power (Intellect, 2003). Não só se adaptou como se tornou mais querida que o príncipe e a própria rainha. O segredo? O sorriso, derretem-se fãs e paparazzi.

De lá para cá, Máxima se firmou como uma princesa humanista e progressista, talvez tentando se desvincular do passado do pai: encontrou-se com as avós da Praça de Maio, defendeu imigrantes e minorias étnicas na Holanda, atuou na inclusão financeira de mercados emergentes nas Nações Unidas. Teve três filhas – Amalia, Alexia e Ariana -, que leva nas férias para Patagônia e Jujuy. Na terra vizinha, a futura rainha quebrou o protocolo em visita oficial a São Paulo em novembro passado: no pomposo coquetel no Jockey Club, sambou com as mulatas e dançou rumba.

“É hora de dar vez à nova geração”, disse a rainha Beatriz, de 75 anos, no discurso oficial de sua renúncia. Passou o bastão para Willem-Alexander, o primeiro rei da Holanda desde 1890. E Máxima será a primeira latino-americana a imperar numa corte europeia (embora tenha raízes no Brasil, a rainha Sylvia Sommerlath, da Suécia, nasceu na Alemanha). Apesar da espontaneidade, a nova rainha parece discreta em momentos oficiais e não deve se rebelar contra o protocolo. Ao comentar a ascensão ao trono, disse apenas: “Será uma tremenda honra”. Coroada rainha no fim de abril, talvez a história mude. Mas, por enquanto, Máxima não é uma mulher de máximas.

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