aliás – estado

Sou da pipa, mano

Em pleno feriado, um Vikings psicodélico de 18 m ‘aterrissa’ no bairro de Santa Cecília

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(Para O Estado de S. Paulo – 25/11/2012)

Chaplin estava lá. Todo prosa com o bigodinho e a cartola como manda o figurino imortalizado no cinema. Elvis Presley também, ao lado de Michael Jackson e Jimi Hendrix, trio de ouro que os moderninhos melancólicos tanto querem ressuscitar como hologramas. Não faltaram Che Guevara, tal qual registrou o fotógrafo Alberto Korda, por supuesto, nem Marilyn Monroe, mas sem as cores pop art de Andy Warhol. Da Vinci, Einstein, Gandhi, Lady Di e Yasser Arafat também flanaram ali, ao lado de gente não tão ilustre, como Saddam Hussein. Foi uma festa no céu de São Paulo. Não viu?

Conto: foi no finzinho do feriadão prolongado de 15 a 20 de novembro. Teve Águia militar, helicópteros da TV, sirenes dos bombeiros e da polícia, bicicleta, moto na contramão, neguinho curioso pronto para postar o acontecido no Instagram. Uma balbúrdia, diga-se de passagem. Quem despertou antes das 8 horas da matina no Dia da Consciência Negra viu o que provocou o fuzuê: um balão gigante, um modelado de 18 metros de altura feito como um patchwork psicodélico amalgamado de personalidades e referências cult. O artista? A Turma Vikings.


Feito inteiramente de papel de seda, a partir de um projeto de design, com pitacos de arquitetura e engenharia, por assim dizer, o flutuante dos Vikings é uma colcha de “tacos” de 2 a 7 centímetros, encaixados como os ladrilhos de um mosaico. “É o estilo taqueado”, diz Ricardo Ferreira. Só de olho nas fotos, o baloeiro estima que um projeto desse porte deva custar uns R$ 3 mil e leve no mínimo 6 meses para ficar pronto e içar voo.

O balão subiu aos céus num gramado verde de Embu das Artes. O pião colorido ziguezagueou pela zona norte, perdeu um tico de altitude, o 193 dos bombeiros tocou, cruzou a Barra Funda, na zona oeste, 193 de novo, desceu mais um tanto até pousar nos antigos silos na Favela do Moinho, no centro paulistano, 193 delirando. Uns disseram que moradores simplesmente tiraram a tocha do balão, na melhor das intenções, para impedir mais um incêndio na favela de Campos Elíseos. Outros já dizem que foi uma tentativa de “resgate” feita pelos garotos da Equipe Filhos do Céu, que estavam correndo atrás do danado desde o trilho do trem da Barra Funda, entraram na humildade na favela, mas forrou de polícia e aí, mano, não teve jeito, tiveram de liberar o balão. Jeito ou outro, mais uma vez entre nuvens, a barrica, ainda cheia de ar quente, continuou viagem para o alto e avante. Vento pra cá, Praça da República. Vento pra lá, Higienópolis. Por fim, o balofo caiu em Santa Cecília. Caiu quietinho, sem fogaréu. Ficou um tanto destroçado, porém, preso nos fios elétricos da Rua Jaguaribe. Não se sabe o que sobrou. Os restos foram parar no quintal? No lixo? No DP?

Às portas do DP. Balões agora são fichados na polícia (vide a Lei de Crimes Ambientais 9.605/1998, que proíbe fabricar, transportar e soltar balões que possam provocar incêndios nas florestas, nas cidades e noutros assentamentos humanos; a brincadeira pode render de 1 a 3 anos de prisão). Na mesma terça, quatro trambolhões gigantescos deram rasantes na cidade. Lá pelas 7h20 da manhã, quatro rapazes num Gol preto foram enquadrados no BO 5570, na Central de Flagrantes, no Tucuruvi. Eram suspeitos, que até agora ficaram só na suspeita mesmo, de fabricar os juninos soltados em novembro. “Não sei de nada, não. Sou do pessoal da pipa, mano. Nós só fomos presos porque demos de cara com a polícia na contramão”, disse, arisco, um dos rapazes. “Estávamos indo para a casa de um amigo, que estava sem gás”, disse outro, justificando o botijão encontrado no carro. “A camiseta? Sei lá, é de um festival”, arrematou um terceiro elemento, sobre a camiseta da Equipe de Peso, um possível convescote de baloeiros paulistanos.

Fato é que o céu não tá pra balão. Muitos baloeiros vivem na “clandestinidade” atualmente, reunidos em turmas discretas e em festivais fechados. A Turma Vikings, por exemplo, prefere ficar no anonimato, apesar do frisson provocado pelo modelado na capital. Outros, porém, se articulam no Balobook (sim, há um Facebook baloeiro), discutem modelos em fóruns, postam fotos de bagdás, carrapetas, charutos, golfiers, modelados e trufis, que vez e outra são vistos riscando os céus de capitais como Curitiba, Rio e São Paulo.

Mas se sabem que é proibido, por que raios continuam a soltar balões? “Para nós, é uma obra de arte. Viu o que caiu aí em Santa Cecília? É uma obra-prima. Não é trabalho de amador”, diz Marcos Moura Real, presidente da Sociedade Amigos do Balão, no Rio. “Já fui convidado a mostrar balões em muitos países, incluindo México e França. Lá fora a gente é artista popular, com bandeira brasileira hasteada e tudo. Por que no Brasil ainda é fora da lei?”, questiona o carioca.

Nos últimos tempos, muitos se engajaram nos balões ecológicos, que não têm buchas nem cangalhas de fogo, isto é, não têm potencial para provocar incêndios. No Rio, a Lei 5.511/2012 permite soltar balões artesanais sem fogo. Em São Paulo, tramita o Projeto de Lei 469/2012 na mesma linha. Enquanto o imbróglio não se assunta, baloeiros preferem continuar miudinhos, num mundão de céu azul às vezes colorido com papel de seda.

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