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Os moicanos são de Marte

Como o descolado engenheiro californiano Bobak Ferdowsi, de 32 anos, se tornou a cara da Nasa ao conquistar o Planeta Vermelho – além de fãs, pretendentes e o próprio presidente americano

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(Para O Estado de S. Paulo – 9/9/2012)

Eram 22h31 do domingo 5 de agosto em Pasadena, Califórnia, quando o Curiosity pousou no território de Marte. Foi um feito. Depois de uma longa jornada de 560 milhões de quilômetros no espaço sideral, iniciada no dia 26 de novembro de 2011, o Mars Science Laboratory, o popular Curiosity, deitou rodas no misterioso Planeta Vermelho. Nos minutos finais antes da aterrissagem, não por acaso lembrados como “os sete minutos de terror”, pois a geringonça precisaria desacelerar drasticamente de 21.250 para 2,7 km/h, pairou a respiração tensa e inquieta dos integrantes da equipe reunidos no Jet Propulsion Laboratory (JPL), do California Institute of Technology, da Agência Espacial Americana (Nasa). Por fim, o glorioso suspiro: os cientistas, engenheiros e técnicos presentes se abraçaram, celebraram e pularam como crianças ao ver a nave terráquea finalmente tocar o solo marciano. “Isso foi incrível. Fala sério, não foi cool?!”, bradou Richard Cook, um dos coordenadores da pioneira missão. Sim, foi cool, muito cool. No entanto, feitos científicos, históricos e tecnológicos à parte, muitos olhares instintivamente miraram outro alvo: Bobak Ferdowsi.

O engenheiro californiano Bobak Ferdowsi, de 32 anos, se tornou um dos rostos mais famosos da agência americana. No momento do pouso do Curiosity, ele estava ali tranquilo em um dos computadores do JPL (tranquilo na medida do possível, certamente, pois estamos falando de uma turnê inédita em outro planeta), quando as câmeras se encantaram por seu look rebelde. Com pinta de rock star, principalmente pelo penteado moicano (a crista com pinceladas de azul e vermelho, as laterais com estrelas desenhadas tal qual a bandeira norte-americana), Ferdowsi ficou conhecido como o “Mohawk Guy” da Nasa.

Os Estados Unidos apostaram US$ 2,5 bilhões nessa empreitada. O Curiosity é considerado a mais ambiciosa aventura intergaláctica, superando as sondas Spirit e Opportunity, que flanaram na órbita de Marte. O novo brinquedinho bilionário é como um laboratório motorizado, do tamanho de um fusca de 1 tonelada, equipado com 17 câmeras, sensores atmosféricos, detectores de radiação, canhões de laser para pulverizar rochas, entre outras ferramentas hi-tech. A saga do Curiosity deve durar, no mínimo, dois anos no campo de Marte. O desafio é descobrir se ali há sinais de vida, passada ou presente – e verificar as “condições de habitabilidade” do planeta. Um dos principais comandantes dos movimentos desse jipe espacial é o tal Bobak Ferdowsi, integrante do JPL desde 2003, na época, com 23 anos.

O cientista tem credenciais acadêmicas estelares, como as do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e da Universidade de Washington. Ele é diretor de voo do Curiosity, responsável pelo lançamento, pouso e subsequente missão em Marte. Escorpiano do dia 7 de novembro de 1979, nascido na Filadélfia, Pensilvânia, o engenheiro descendente de persas (o pai é do Irã, a mãe é do Mississipi) morou em San Francisco, Tóquio e Washington. Quando criança, assim como muitos americanos, queria ser astronauta. Prodígio nos tempos universitários, foi orientado por gente do calibre do alemão Hans Dehmelt, Prêmio Nobel de Física.

Fã de beisebol, Jim Bouton e Johnny Cash, sci-fi e The Big Bang Theory, Ferdowsi tem um leve bronzeado californiano. Às vezes deixa a barba charmosa por fazer, outras não; às vezes aparece com óculos quadrados emoldurando as sobrancelhas grossas, outras não. Aos olhos dos fãs, o perfil é certamente seu melhor ângulo fotográfico, pois destaca o maxilar forte, o nariz perfeitinho e o moicano. O desenho e as cores do penteado foram escolhidos pelos amigos da equipe do JPL. “Também precisamos nos divertir”, disse Ferdowsi. Na semana passada, ele trocou as estrelas por outro detalhe nas laterais da cabeça: raspou uma pequena trilha pontilhada, como marcas de pneus na estrada, em referência à roadtrip do jipe-robô nas crateras do planeta vizinho.

Ferdowsi conquistou Marte. Conquistou também um pedaço da Terra. Do dia para a noite, angariou mais de 53 mil seguidores no Twitter, inspirou o Tumblr Fuck Yeah Bobak Ferdowsi – Nasa Needs More Mohawks, saiu dos bastidores e deu entrevistas a The New York Times, Washington Post e The Wall Street Journal. Disse que o pouso foi uma experiência incrível e impressionante. “Estou vivendo o sonho”, suspirou o americano.

Ferdowsi também ficou surpreso com a avalanche de e-mails e pedidos de amizade no Facebook. “Virar uma sensação da internet… Não, ocupado demais aterrissando um robô em Marte para notar”, ironiza um dos pôsteres ilustrados com sua foto. “Isso é surreal”, resumiu. O galã recebeu até pedidos de casamento – centenas deles, de meninas e de meninos, vindos dos quatro cantos do mundo. Mas as/os pretendentes nem tiveram chance, pois o engenheiro mora com a namorada em Pasadena. Discreto, ele não quis nem revelar o nome da sortuda.

Dias após o pouso do Curiosity, a Nasa recebeu um telefonema. Era o presidente Barack Obama, querendo parabenizar o pessoal do JPL. “Soube que há um moicano especial trabalhando aí na missão. Até pensei em fazer um moicano também, mas minha equipe não deixa”, brincou. “Vocês são muito mais cool do que costumavam ser”, disse.

É verdade. E o JPL se orgulha dessa atmosfera universitária, com engenheiros talentosos e cientistas geniais usando camisetas havaianas, sandálias havaianas e outras hippices no trabalho. “O JPL é muito multicultural. A equipe é como uma família que privilegia a diversidade”, conta Ramon Perez de Paula, de 59 anos, diretor executivo das missões de Marte. Brasileiro radicado nos EUA desde 1969, De Paula iniciou a carreira no JPL em 1985. Desde aquela época, o centro já era conhecido por abrigar jovens profissionais de diversas nacionalidades e culturas. Assim, a “legião estrangeira” permitia um clima mais moderno e liberal. “O estilo mais formal, de terno e gravata, predomina no quartel-general em Washington. You know, reuniões importantes pedem um visual mais sério. No dia a dia, eu mesmo vou trabalhar de tênis e mochila”, conta o executivo, um dos chefões das expedições Odyssey (2001), Mars Reconnaissance Orbiter (2006), Phoenix (2008) e Curiosity (2012), em conversa com o Aliás, a partir do QG da Nasa em Washington.

“Nas nossas profissões, o que vale mesmo é o que a gente pensa. E nada mais”, endossa o engenheiro Nilton Rennó, da Universidade de Michigan. “Essa é uma das ideias, aliás, da Generation Y da Nasa”, lembra o brasileiro, um dos pesquisadores das missões Phoenix e Curiosity.

Em 2007, uma trupe de jovens talentos do Johnson Space Center, de Houston, declarou-se, simples e ambiciosamente, como a Generation Y, disposta a oxigenar a cinquentenária Nasa. Foi quase um manifesto por uma geração global, independente, inovadora, plugada, wired. Gente fina, elegante e sincera, não importando o moletom surrado, o moicano pink, o óculos fundo de garrafa, etc.

Aí entram personas como Bobak Ferdowsi. E Adam Steltzner, um dos engenheiros chefes da missão, conhecido como o “Elvis Guy” dentro e fora do JPL (aos 49 anos, o cientista hipster mantém uma banda de rock e um topete à la Mr. Presley). E o próprio Curiosity, que tem Twitter e Facebook oficiais, com divertidos, e às vezes irônicos, posts publicados na primeira pessoa. “Eu malho. Depois de dirigir a distância de um campo de futebol, faço exercícios para os músculos”, diz um tweet do dia 6 de setembro, brincando com os passeios e experimentos com braços robóticos do jipe-robô.

Quase diariamente, a Nasa publica as novidades do Planeta Vermelho – a primeira fotografia, a primeira foto colorida, o primeiro passeio, a primeira transmissão sonora, a primeira foto do Mount Sharp, o primeiro registro 3D e 360 graus… “Esse acompanhamento, por todo o mundo e em tempo real, é novo. As novas mídias dão ‘vida’ à missão, dão um caráter muito pessoal. O interesse da sociedade é muito importante para nós. Ferramentas como Facebook e Twitter facilitam muito. E isso estimula os jovens a se interessarem pela ciência”, diz De Paula.

Uma pequena revanche dos nerds desponta nesses flertes entre ciência e cultura pop: agora, os geeks são cool. “Bobak Ferdowsi é um cientista, inteligente e estiloso. Parece uma combinação surpreendente. Mas não deveria ser. Na verdade, se isso for visto como uma surpresa, quer dizer que a cultura popular ainda se ancora nos antigos estereótipos”, critica a socióloga americana Lori Kendall, da Universidade de Illinois, em entrevista ao Aliás. “Não é mais a Nasa chata do passado. Ainda somos nerds e geeks, sem dúvida. Mas agora nos expressamos mais”, conta Ferdowsi.

Apesar do frisson a seu redor, Ferdowsi prefere continuar nos bastidores. “Há um espírito de humildade muito forte na Nasa. O importante é o trabalho, e nem tanto as nossas trajetórias pessoais. Isso se inspira muito na simplicidade de Neil Armstrong (1930-2012). É a ideia imortalizada ao pisar na Lua: ‘Um pequeno passo para um homem, um grande salto para a humanidade'”, lembra De Paula. Entre passos e saltitos, o moicano virou forte candidato, por livre e espontânea pressão das tietes mundo afora, a embarcar como astronauta na primeira missão tripulada a Marte, prevista para 2030. Agora o desafio é fincar a bandeira norte-americana no Planeta Vermelho.

Todas as manhãs, o pessoal do JPL põe músicas para literalmente despertar o Curiosity. Na playlist, canções dos Beatles, Beastie Boys, Frank Sinatra e The Doors, óperas de Wagner e trilhas sonoras de Guerra nas Estrelas e Missão Impossível. Ferdowsi também estreou o programa Getting Curious with the Mohawk Guy na estação Third Rock Radio. Tocou bandas indies como Arcade Fire, Kings of Leon, Modest Mouse, Muse e Prodigy. A ideia, endossada pela Nasa, é justamente atrair jovens e estudantes para o mundo da ciência e da tecnologia.

Nesta quarta, o Curiosity completou um mês em Marte. Até agora, o jipe rodou 109 metros no território, deixando rastros visíveis a partir do espaço. E, dias atrás, o famoso robô transmitiu ao vivo a estreia da música Reach for the Stars, do rapper will.i.am, do Black Eyed Peas. A equipe do JPL pretendia fisgar a atenção dos estudantes visitantes para explicar como funciona a transmissão sonora do jipe estacionado naquelas terras distantes. “Why they say the sky is the limit, when I’ve seen the footprints on the moon?”, questiona a canção. Aliás, adivinha quem apertou o play? Ele, Bobak Ferdowsi.

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