aliás – estado

As três mosqueteiras

Com manifestação performática na Catedral de Moscou, roqueiras abalam o Kremlin

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(Para O Estado de S. Paulo – 5/8/2012)

Um protesto de 1 minuto e 52 segundos no dia 21 de fevereiro. Por esse pato três roqueiras russas podem pagar até 7 anos de prisão. Isso porque o palco escolhido para a performance foi a Catedral de Cristo Salvador de Moscou. No altar, as garotas da banda Pussy Riot tocaram a prece punk Holy Shit, que intercala hinos religiosos com versos diabólicos como “Virgin Mary, hash Putin away”. Enquanto umas arranhavam nervosos riffs de guitarra, outras saltitavam, faziam o sinal da cruz e dançavam cancã como possuídas. As freiras ficaram escandalizadas. Os guardas, perdidos. Agora as rebeldes Yekaterina Samutsevich, Maria Alyokhina e Nadezhda Tolokonnikova ocupam o banco dos réus no tribunal Khamovnichesky de Moscou, acusadas de vandalismo e ódio religioso.

Na catedral, assim como noutras manifestações na Praça Vermelha e no metrô, as meninas usavam máscaras de ski néon e vestidos coloridos à Restart. As balaclavas fluorescentes, aliás, são a marca da banda formada em outubro de 2011. Pussy Riot reúne umas 10 músicas e 15 roadies, uma “equipe técnica” encarregada de gravar os protestos e postá-los no YouTube. Nas influências musicais, o streetpunk britânico Oi!, simbolizado por bandas como Angelic Upstarts. Nas inspirações políticas, Julia Kristeva, Michel Foucault e o movimento feminista underground americano Riot Grrrl, dos anos 90.

Após o protesto na catedral, as cúpulas douradas do templo ortodoxo estremeceram. “É uma blasfêmia. O diabo está rindo de nós”, declarou o patriarca Kirill. Putin também deve ter ficado putin, pois mandou um batalhão atrás das moças. Foi feito um relatório de 2.800 páginas e, no dia 4 de março, Maria e Nadezhda foram presas. Onze dias depois, Yekaterina também.

Yekaterina Samutsevich, 29 anos, é artista formada pela Rodchenko Moscow School. Maria Alyokhina, 24, é poeta, mãe e estudante de jornalismo na capital russa. A bela Nadezhda Tolokonnikova, 23, é artista, estudante de filosofia e mãe também.

A prisão do trio causou frisson internacional. Diplomatas, intelectuais e pop stars saíram em defesa das garotas: estrelas como Franz Ferdinand, Red Hot Chilli Peppers, Stephen Fry e Sting; políticos como o norueguês Thorbjorn Jagland, do Conselho Europeu, a paquistanesa Farida Shaheed, das Nações Unidas, e o diplomata americano na Rússia, Michael McFaul. Em Israel, o sociólogo Alek Epstein publicou a coletânea Art on the Barricades. Em Paris, o curador Andrei Erofeev montou a mostra The Case of the Pussy Riot Artists no Palais de Tokyo. Em carta ao presidente russo em sua visita a Londres nessa semana olímpica, celebridades inglesas reivindicaram um “julgamento justo” para as manifestantes. Anistia Internacional e Human Rights Watch também entraram na história, pedindo a libertação das garotas. “Elas são prisioneiras de consciência, pois foram presas por expressar ideias políticas pacificamente”, define a campaigner russa Natalia Prilutskaya, radicada em Londres. “São tempos difíceis. Dá para sentir o clima nebuloso que se formou sobre a liberdade de expressão no país desde o affair Erofeev”, diz.

Em 2006, Erofeev e o ex-diretor do Sakharov Museum, Yuri Samodurov, organizaram a exposição Russia’s Forbidden Art, com pôsteres de Mickey e Lenin como Cristo. Eles foram acusados de incitação ao ódio religioso, mas, depois da pressão internacional, escaparam da sentença de 5 anos de prisão com uma multa de US$ 5 mil. Em 2009, o coletivo anarquista Voina apoiou os réus – e líderes do movimento acabaram na prisão, onde estão até agora.

De lá para cá, a coisa arrochou. Após os protestos contra as eleições parlamentares em dezembro e as presidenciais em março, Putin promulgou uma lei que pune manifestações não autorizadas com multas estratosféricas. “O totalitarismo russo lembra a Inquisição medieval. A internet é a última zona livre para nós”, diz o filósofo Alex Plutser-Sarno, ideólogo do Voina ainda em liberdade.

Embora forte, a mobilização cibernética não adiantou. As três mosqueteiras do Pussy Riot continuam presas. No julgamento, pediram desculpas, mas não admitiram culpa ante as acusações. Para elas, o protesto era político, e não religioso. Mas as testemunhas chorosas complicaram: “Elas cuspiram no meu rosto e na minha alma”, disse uma freira. “Estou tentando perdoá-las, mas não sou perfeito”, lamentou um coroinha.

Na quinta, o ativista Yaroslav Nikitenko saiu do tribunal para conversar com o Aliás. Disse que a atmosfera da corte estava tensa, com as rés engaioladas numa redoma de vidro guardada por um rottweiler alucinado. (Para Yaroslav, testemunha de defesa, tenso mesmo foi o dia seguinte, quando oficiais o espancaram e esmagaram seu celular.) Às 11h33, o prédio foi esvaziado sob ameaça de bomba. Às 18h28, hare krishnas se uniram aos manifestantes pró-Pussy nas ruas. “Mesmo nos tempos soviéticos, as cortes eram mais honestas que esta”, bradou o advogado de defesa Nikolai Polozov. Mas às 21h18 a juíza notou que ninguém mais prestava atenção às ordens da casa: Maria Alyokhina lia o jornal, defensores se distraíam nos seus celulares, promotores folheavam seus arquivos…

O veredicto só deve sair na próxima semana. Mas Stanislav Samutsevich, pai de Yekaterina, já arrisca: “Serão condenadas. Isso é um julgamento político”.

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