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Mama África

Controversa ex-mulher do Prêmio Nobel da Paz, Winnie Madikizela-Mandela anda ressentida com o partido sul-africano

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(Para O Estado de S. Paulo – 15/7/2012)

Pesada pode ser a coroa de primeira-dama. Enquanto umas se tornam meras coadjuvantes à mercê dos humores dos chefes de governo, outras arcam com o ônus da celebridade – por nobres ou infames razões. Outras ainda se veem repentinamente catapultadas à política. Mas poucas provocaram tanta controvérsia e conquistaram tanta relevância histórica quanto a sul-africana Winnie Madikizela-Mandela. Na verdade, ela nem foi uma primeira-dama “oficial”. Nelson Mandela e Winnie separaram-se em 1992, apesar de terem se divorciado em 1996; no meio tempo, o líder, maior político da África do Sul, foi eleito presidente, em 1994.

Winnie voltou, furiosa, às páginas da imprensa nessa semana, com uma carta vazada no britânico The Guardian. “Ninguém se interessa por nossa família. Ninguém se importa”, ela escreveu ao porta-voz do partido, Jackson Mthembu, reclamando do Congresso Nacional Africano (CNA). Diz ainda a suposta correspondência que, no centenário do partido, no dia 8 de janeiro, a Luthuli House quicou os Mandelas para escanteio, reduzindo Winnie a simples “espectadora” das comemorações. Winnie não quis comentar o assunto. Mas antes protagonista da história política da África do Sul, Winnie Madikizela-Mandela jamais se contentaria com a posição de espectadora.

Nomzamo Winifred Zanyiwe Madikizela é a quinta dos nove filhos de Columbus Madikizela e Gertrude Mzaidume. Foi uma filha amada, apesar de invejar a beleza estonteante da mãe, uma ruiva de olhos azuis, e do lamento confesso do pai negro, que esperava um segundo filho homem naquele 26 de setembro de 1936, quando a menina nasceu. Ainda jovem, ela se tornaria simplesmente “Winnie”, uma das raras figuras femininas contemporâneas lembradas apenas pelo primeiro nome, como Diana, Madonna e Oprah. “No entanto, é principalmente a mídia ‘branca’ que se refere a ela como Winnie. Tal familiaridade não seria aceitável nas culturas africanas tradicionais. Isso a populariza demais, como uma estrela de Hollywood”, pondera a antropóloga sul-africana Mary West, da Nelson Mandela Metropolitan University. O fascínio midiático lhe rendeu livros e filmes, como Mrs. Mandela (2010), da BBC, e Winnie (2011), do sul-africano Darrell J. Roodt, estrelado pela atriz norte-americana Jennifer Hudson. No ano passado, a musa vociferou contra a adocicada produção hollywoodiana: “É um insulto. Não sei o que pode ser romântico na minha amarga luta. Ainda estou viva e considero um total desrespeito vir à África do Sul, rodar um filme sobre minha luta e dizê-lo uma tradução ‘romanceada’ da minha vida.” Em vez de romance, provavelmente drama define melhor sua trajetória em loopings do céu ao inferno.

Aos 17, Winnie saiu de Bizana rumo a Johannesburgo, para estudar assistência social na Jan Hofmeyr School. Entre 1955 e 1956, foi-lhe oferecida a oportunidade de continuar os estudos nos Estados Unidos, mas ela recusou – preferiu apostar no Hospital Baragwanath, onde se tornaria uma das primeiras profissionais negras da área no país. Ali trabalhou com Nthatho Motlana, da Youth League do CNA. Assim, ao longo da década de 1950, época marcada por uma nascente resistência ao apartheid, em vigor desde 1948, uma alegre e vibrante Winnie já flertava com a política.

Eis que, em uma tarde perdida de 1957, o advogado Nelson Mandela decidiu dar carona ao amigo e estudante de medicina Diliza Mji até a Universidade de Witwatersrand. Passando por Baragwanath, notou uma bela rapariga negra de uns 20 anos parada no ponto de ônibus. Disse que nunca esqueceria aquele rosto. Tempos depois (destino imprevisível…), o casal Adelaide Frances (amiga de Winnie, do Helping Hand Hostel) e Oliver Tambo (amigo de Nelson desde a Universidade de Fort Hare) fez a ponte: Nelson- Winnie, Winnie-Nelson.

Flertaram. Nelson Mandela, na casa dos 40, já tinha assinado os papéis do divórcio de Evelyn Mase, com quem tivera quatro filhos (deles, apenas a caçula Makaziwe está viva).

Namoraram. O bacharel apresentou a nova namorada aos amigos Chief Luthuli, Ismail Meer, Moses Kotane e Walter Sisulu, que se encantaram, mas advertiram: “Tal beleza intimidante e sedutora não combina muito com uma revolucionária”, conta a biografia Winnie Mandela: A Life (2003), escrita pela jornalista Anne Marie du Preez Bezdrob. Nelson riu da brincadeira. Winnie não.

Casaram em junho de 1958 no Transkei e mudaram-se para a casa do noivo, na Rua Ngakane, 8115, em Orlando West, Soweto. Tiveram duas filhas: Zenani e Zindzi. Apesar da breve temporada vivida como mais uma simples família sul-africana, a política sempre marcaria a história dos Mandelas, atropelada pelos anos sombrios do país.

Em agosto de 1962, Nelson Mandela foi preso pelas autoridades do apartheid. Por 27 anos ficaria isolado no presídio da Ilha Robben, a 11 quilômetros da Cidade do Cabo. Nos tempos de cárcere do líder rebelde, Winnie tomou as rédeas do movimento antiapartheid e se tornou um dos principais nomes do CNA. Dessa época vieram os contornos de heroína mítica – admirada, corajosa, imperial – e símbolo da resistência tão forte quanto o próprio Mandela. Nos efervescentes anos 1960 e 1970, Winnie liderou manifestações, fundou a Black Women’s Federation, foi presa e torturada na cidade de Brandfort. A bravura na militância contra o apartheid a coroou como “mãe da nação”.

Mas a história degringolou na década seguinte. Primeiro, com o discurso de 13 de abril de 1986, quando Winnie defendeu o bárbaro “colar” para trucidar dissidentes. “Unidos, com nossas caixas de fósforo e nossos ‘colares’, libertaremos este país”, bradava ela, referindo-se aos pneus encharcados de gasolina que eram colocados no pescoço dos inimigos e incendiados.

Depois, veio o revés mais sinistro da primeira-dama rebelde, envolvendo o Mandela United Football Club, uma espécie de gangue de jovens guarda-costas de Winnie. A mando dela, a trupe teria sequestrado e assassinado Stompie Moeketsi, um garoto de 14 anos. A história foi revelada no livro Katiza’s Journey (1997), do jornalista britânico Fred Bridgland, de 71 anos, 30 dos quais dedicados ao trabalho na África.

Em 1988, Katiza Cebekhulu, um dos “jogadores” do Mandela United Football Club, se infiltrou na casa do pastor Paul Verryn, que abrigava jovens negros perseguidos em Soweto. Bridgland contou ao Aliás que Winnie acreditava – “ou diz que acreditava”, ressalva – que o religioso estaria abusando sexualmente desses jovens, incluindo Katiza, mas nunca foram encontradas evidências. No dia 31 de dezembro, a pretexto de salvá-los das garras de Verryn, Winnie teria ordenado a tortura de Katiza, Stompie e outros dois garotos, a fim de arrancar uma confissão dos abusos supostamente perpetrados pelo pastor. “Did you let that white reverend fuck you, you dogs?”, inquiria uma transtornada Winnie, segundo depoimentos dos garotos nos tribunais. Winnie suspeitava que Stompie era informante da polícia e por isso o espancou mais. Dias depois, o menino foi encontrado morto com um corte profundo na garganta.

Desde então, os Mandelas trilharam caminhos diferentes, quase opostos. Nelson Mandela foi libertado no dia 11 de fevereiro de 1990, poucos dias depois de Frederik Willem de Klerk dar fim ao apartheid. Mandela assumiu a presidência do CNA, recebeu o Prêmio Nobel da Paz e foi eleito presidente em 1994, ficando no poder até 1999. Winnie teve menos sorte. Após acusações de ordenar espancamentos, sequestros e torturas de quem atrapalhasse seu caminho, a outrora “mãe da nação” se transformou em uma temida madrasta, insultada em grafites e pichações pelos muros do país. Em 1991, foi formalmente acusada, julgada e condenada a 6 anos de prisão pelo sequestro de Stompie, mas na apelação conseguiu uma quase simbólica multa de US$ 3 mil. Escapou das acusações de cúmplice de assassinato graças a duas testemunhas que garantiram que ela nem estava na cidade na noite do crime.

O vespeiro voltou a se agitar com a Comissão da Verdade e da Reconciliação, em Johannesburgo, presidida pelo bispo, depois Prêmio Nobel da Paz, Desmond Tutu. Alvejada por críticas impiedosas, depoimentos comprometedores e revelações de outros crimes em 40 testemunhos, em 1997, Winnie permaneceu em silêncio. Primeiro, com um sorriso irônico e gestos provocativos; depois, impassível e quase sombria, camuflada por óculos Chanel e joias extravagantes. “Desculpe, mas não tenho muita compaixão por ela”, diz Bridgland, que está escrevendo um novo livro sobre a história, com foco nos álibis – falsos, ele diz – que inocentaram a mama.

Apesar da desgraça que se abateu sobre seu passado heroico, a vaidosa Winnie não quis sair de cena. Elegeu-se parlamentar e, em 1993, fundou a Women’s League do CNA, presidindo-a por uma década. Mas em 2003, outro escândalo: foi considerada culpada em 43 acusações de fraude e 25 de roubo.

Das peripécias reveladas pela imprensa, cartas a amantes enquanto Mandela estava preso eram dos menores males. A antiga rebelde passou a ser vista por muitos como amarga e corrupta, com um estilo de vida cheio de anéis de diamante, guarda-costas, limusines, viagens em jatinhos particulares e entremeado por discursos incoerentes. Outros, porém, ainda a veem como heroína, com lugar especial nos corações sul-africanos.

“Pelo inferno que passou, é surpreendente como Winnie continua uma pessoa adorável, eletrizante e verdadeira, doce e amarga ao mesmo tempo”, diz Mfundi Vundla, produtor da ópera Winnie (2011), que esteve em cartaz no State Theatre de Pretória. “Ela ainda é bem-vinda e honrada no Comitê Executivo do CNA. Ainda a consideramos mãe da nossa nação. Só podemos ter reverência, respeito e gratidão pela família Mandela”, endossa Troy Martens, porta-voz da Women’s League do CNA.

Em 1998, Nelson Mandela se casou com a viúva Graça Machel, antiga primeira-dama moçambicana. Dez anos depois, nas celebrações do 90° aniversário do líder sul-africano, as sorridentes Graça e Winnie posaram diplomaticamente para fotos. Uma, a intelectual discreta e refinada, de tailleur amarelo e óculos de grau. Outra, a mulher extravagante, com joias, óculos escuros e taça de champanhe na mão.

“Apesar dos muitos pesares, Winnie Madikizela-Mandela é uma das mais importantes figuras políticas na história moderna da África do Sul”, considera o scholar Tim Hughes, do South African Institute of International Affairs.

Prestes a celebrar 76 anos, Winnie não deverá sair de cena tão cedo. Entre lenda e pop star, continuará intensamente amada e detestada na África do Sul.

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