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Fora do foco

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(Para Folha de S.Paulo – 1/7/2012)

No anonimato da multidão, eles conquistam seus cinco segundos de fama. A vida dos figurantes não esbanja glamour como a de atores famosos, é verdade. Mas a participação desses “extras” é importante para dar um toque de realismo a campanhas publicitárias, filmes e novelas.

“Os figurantes compõem a muvuca paulistana. Sem essas pessoas no fundo, a novela, o filme e a cidade não têm vida”, promove-se o ator Felipe Cavalheiro, 28.

Nas gravações realizadas na capital, esse papel secundário é desempenhado por profissionais e amadores. Para quem tem pretensões artísticas, a figuração pode ser considerada um pontapé inicial para a carreira -os figurantes profissionais, aliás, preferem ser chamados de “elenco de apoio”. Muitos já têm até registro profissional de ator, na DRT (Delegacia Regional do Trabalho).

Por outro lado, os amadores veem a figuração como um “bico” nas horas vagas, com cachês que variam de R$ 50 a R$ 500 por dia, dependendo da produção. Alguns deles não querem ser atores nem famosos. Muitos são estudantes universitários e profissionais de áreas alinhadas ao universo artístico, como publicitários e marqueteiros. Afinal, um dos principais meios de conquistar uma pontinha como figurante se dá por indicação de amigos que trabalham em agências e produtoras de “casting”.

“O figurante ideal? Depende do perfil e do roteiro”, conta a produtora Gláucia Garcia, 36. Para compor o elenco, ela faz pesquisas, anda pela cidade e conta com agências, amigos e o Facebook -“uma ótima ferramenta para achar essas figuras”, afirma. “Precisamos encontrar e escolher as pessoas certas, justamente para dar realidade à ficção.”

O trabalho varia -há gravações de festas e shows com cachês generosos, mas também há produções nas quais é preciso manter a energia e a animação por horas a fio, com retornos financeiros que nem sempre compensam. Mas muitos figurantes continuam firmes e fortes. Afinal, são presença garantida quase todos os dias na TV. Confira acima alguns desses amadores.

Cachê de figurantes pode variar de R$ 50 a R$ 500 por dia, de acordo com a produção

graninha legal
Para bancar o curso noturno de relações internacionais, Celene Alves, 21, trabalha como “hostess” em eventos e faz pontas em novelas e programas de TV. “Sei que não é um ‘papel’. Faço porque é divertido e dá para tirar uma graninha legal”, conta ela, que já faturou R$ 3.000 em um mês. O primeiro convite veio de amigos. “Indicação é o mais importante para conseguir esses trabalhos.”

1.001 utilidades
André “Scooby” Martins, 33, faz o estilo 1.001 utilidades. Das 9h às 18h, trabalha num bar na Vila Olímpia. Depois, vai para a Globo, onde presta serviço. Até 2010, ele fazia figuração para programas como o “Altas Horas”. Hoje, é um dos responsáveis pela “linha de frente” do “Programa do Jô”. “Preciso manter a primeira fila certinha. Se sai um artista, preencho o lugar com figurante [R$ 75, quatro horas].”

ninguém vê
A profissional de marketing Demily Marques, 28, já fez dezenas de participações em campanhas publicitárias e longas como “O Signo da Cidade” (2007), dirigido por Carlos Alberto Riccelli. “Mas é só um bico. Não deixaria a minha carreira.” Em março, ganhou R$ 100 para ser mais um rosto bonito na plateia do show de Arnaldo Baptista. “O figurante está toda hora na mídia, mas ninguém vê.”

na pista até as 4h
Desde 2006, Paulo Amaral, 64, divide-se entre as funções de empresário musical e a própria “carreira artística”. “Todo mundo tem conta para pagar, então não esnobo trabalho.” Assim, já dividiu a cena com Fernanda Montenegro no Theatro Municipal para a novela “Belíssima”, da Globo. Em 2011, ao lado de outros 200 figurantes, dançou no vale do Anhangabaú até as 4h para um comercial de energético.

vida paralela
O estudante de propaganda e marketing Luiz Otávio Lima, 22, não quer ser ator. Mas já deu o ar da graça em novelas da Globo, curtas da TV Cultura e séries do Multishow, além de diversas campanhas publicitárias. “A figuração é uma vida paralela, uma forma de ganhar uma graninha extra.” Ele recebe de R$ 80 a R$ 240 por um dia de trabalho -em tempos bons, chega a faturar até R$ 2.500 por mês.

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