aliás – estado

O último barraco

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(Para O Estado de S.Paulo – 24/6/2012)

Abre a porta sem mistério: “Desculpa a bagunça. Não repara, não”. E não há falsa modéstia nas boas-vindas. Até outra quarta-feira, dias desses de junho, abriria a porta de madeira do barraco na Rua Charles Coulomb, viela emboscada entre arranha-céus e cartões-postais paulistanos batizados em homenagem a gente importante – as Avenidas Engenheiro Luis Carlos Berrini e Jornalista Roberto Marinho e a Ponte Octavio Frias de Oliveira -, endereço no Brooklin que abrigou no pé a favela Jardim Edite desde a década de 1970. Agora, o mineiro passa a chave e destranca, um tanto ressabiado, uma porta branca quase igualzinha às dos outros 29 apartamentos e 15 quitinetes nos cinco andares de um prédio amarelo destinado a habitação popular na Rua Senador Feijó, a poucos passos da Catedral da Sé. “Entra, fia. Quer um café?”, diz, afastando uma bicicleta preta com as mãos e a vira-lata Bolinha com os pés. “Não repara, não. A casa é nova, por assim dizer. Ainda precisa dar um jeitinho.”

Lá na casa antiga não teve jeito, não. Na manhã do dia 13 de junho, Marcos se despediu do sobradinho no terreno de 290 metros quadrados na favela onde vivia desde o dia 23 de abril de 1978. Lá atrás carpiu o quintal, botou tijolo e telha, foi bater na porta do Palácio dos Bandeirantes para pedir, “por favor, água encanada e um pouquinho de luz”. Era uma casa de paredes azul-celestes, umas frágeis ainda de tijolo à vista, outras anonimamente grafitadas, umas ainda por construir, como as das bordas de uma porta azul destelhada que aparta o quintal de um puxadinho ainda a céu aberto. Diz que tinha quatro quartos, três banheiros, uma sala, uma cozinha e uma vista privilegiada para aquela ponte nova bonitona com iluminação colorida em datas especiais. Mas a casa ia cair, dizia uma carta de papel timbrado endereçada ao Ilmo. Sr. José Marcos Carneiro de Santana, no CEP 04576-030, São Paulo, SP, Brasil. Tinha até setembro de 2011 para desocupar o barraco, prestes a ser demolido. […]

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