aliás – estado

O Código Orlandi

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(Para O Estado de S. Paulo – 20/5/2012)


Emanuela Orlandi vestia camiseta branca, jeans e tênis no dia 22 de junho de 1983, última vez em que foi vista pelas ruas tortuosas de Roma. No dia não esqueceu os detestados óculos, necessários para aperfeiçoar a nitidez roubada pelos graus de astigmatismo. Emanuela sumiu. E se tornou a italiana mais procurada do mundo.

Aos 15, a bambina não passava do 1,60 de altura. Tinha narizinho arrebitado, cabelos negros, longos e lisos, às vezes adornados por uma fita. Levava uma bolsa de couro e um estojo retangular, que acolhia a flauta transversal tocada na Scuola di Musica Tommaso Ludovico da Victoria. No conservatório, na época abrigado no Palazzo Sant’Apollinare – sede da Pontificia Università della Santa Croce desde 1990 –, a tímida ragazzina estudava piano, flauta e canto coral. Ali estava às segundas, quartas e sextas-feiras, das 16h às 19h.

Antes de se tornar pivô de lendas vaticanas protagonizadas por máfias e terrorismo internacional, dignas de narrativas hollywoodianas à la Francis Ford Coppola – para não mencionar a heresia pop dos romances de Dan Brown –, Emanuela Orlandi era só mais uma garota simples do liceu.

A rota para o conservatório não tinha mistério: ela saía da casa da família no Largo Sant’Egidio, no Vaticano, em direção ao Supremo Tribunale della Segnature Apostolica, do outro lado do Rio Tibre. Às vezes a pé. Outras a bordo do ônibus 64. A partir dali caminhava uns metros mais no Corso del Rinascimento e, passado o Palazzo Madama, atual sede do Senado italiano, já estava às portas do conservatório, que então recebia cerca de 700 estudantes. Foi nessa redondeza, talvez nas paralelas da bela Piazza Navona, que um policial vira uma BMW espreitar a menina, declarada desaparecida às 19h daquela quarta-feira de fins de junho de 1983.

A notícia, porém, só se tornou oficial ao meio-dia do domingo, 3 de julho. Diante de milhares de fiéis na Piazza di San Pietro, o papa João Paulo II fez um apelo aos responsáveis pelo desaparecimento. Pediu esperança à família Orlandi. E abençoou os presentes. Do amém em diante, Emanuela não era mais uma adolescente que, talvez rebelde, poderia simplesmente ter fugido de casa. Era uma cittadina vaticana desaparecida.

Emanuela é a quarta dos filhos de Maria Pezzano e Ercole Orlandi. Era a única colegial entre os irmãos Natalina, Pietro e Federica – jovens então na casa dos 20 – e a caçula Maria Cristina, de 13. “Quero demolir o muro de mentiras, reticências e silêncio que esconde a verdade sobre a sorte de Emanuela”, diz a carta aberta de Pietro, que há 29 anos se lança em trilhas incertas em busca da irmã.

Ercole Orlandi era carteiro de Karol Wojtyla. Na capital eterna, o mensageiro zelou pela ordem das cartas diplomáticas, convites oficiais e demais correspondências do papa. A profissão do pai junto ao sumo pontífice é fonte de inspiração para teorias conspiratórias que rondam o paradeiro da ragazza. Uns dizem que ela vive entre Inglaterra, Leste Europeu, Turquia. Atribuem a ela inusitados destinos: consultora da Avon, louca, monja. Outros dizem que foi raptada para pressionar pela libertação do turco Mehmet Ali Agca, preso pelo atentado ao papa em 1981 – sob as ordens, acusa Agca, do príncipe Hans-Adam II, de Liechtenstein. Agca foi libertado em 2010.

Outros apostam que Emanuela jaz na Basílica Sant’Apollinare, ao lado do antigo conservatório. Foi nessa basílica medieval, reservada a papas e cardeais, que autoridades italianas encontraram no passado 14 de maio o corpo de Enrico “Renatino” De Pedis, poderoso chefão da banda Magliana assassinado em 1990. Suspeita-se que ele teve túmulo privilegiado graças à doação de 1 bilhão de liras à Santa Sé – uma bagatela de 1,2 milhão de reais.

De Pedis é o primeiro fio dessa trama. Em 2005, uma voz anônima disse ao programa Chi L’ha Visto para vasculhar as tumbas de Sant’Apollinare atrás de Emanuela – e aí veio à tona a ossada do criminoso na cripta nobre. Em 2008, outra pista: a ex-amante de De Pedis, Sabrina Minardi, disse que a quadrilha teria sequestrado a menina a mando do arcebispo americano Paul Marcinkus. Só agora as autoridades permitiram perturbar a paz do chefão. De Pedis estava lá; Emanuela, não. Há ossos outros, que ainda serão periciados. “Jogar a culpa no morto não traz respostas para o mistério. Os dois casos não estão relacionados”, disse ao Aliás o jornalista Fabrizio Peronaci, com quem Pietro Orlandi assina o livro Mia Sorella Emanuela, de 2011.

Pietro ainda espera por um ponto final. Não sabe se Emanuela sequer pôde comemorar 16 primaveras no inverno de 14 de janeiro de 1984. Mas quer saber.

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