revista sãopaulo

SP,SP: Reverendo Aldo Quintão

Há 28 anos na capital paulista, brasiliense conquista fiéis com discurso moderno

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(Para Folha de S.Paulo – 26/2/2012)

Dizem que o reverendo Aldo Quintão, 49, é polêmico. “Não é bem assim. Sou contemporâneo”, diz ele, que é casado há 23 anos e tem um filho de 22. Na Catedral Anglicana, em Santo Amaro, zona sul, o brasiliense conquistou fiéis com um discurso sem restrições. O direito ao aborto e o respeito aos gays estão na pauta.

O padre, em São Paulo desde 1984, já celebrou mais de 3.000 casamentos. Para este ano, não há vagas nos dias mais procurados, sextas e sábados.

Qual é o maior pecado paulistano?
O individualismo, que se traduz na insensibilidade diante dos dramas sociais. Precisamos de mais solidariedade. Parece óbvio, mas é muito difícil encontrar isso em uma cidade como São Paulo.

Por que dizem que o sr. é liberal?
Talvez porque debato questões polêmicas e defendo minorias. Temas como o direito ao aborto, os estudos com células-tronco, o respeito aos gays e o uso de anticoncepcionais devem ser abordados. Quero discutir o que é o mundo contemporâneo -e não o que é a igreja.

São Paulo é uma cidade liberal?
Por um lado, é liberal. É uma metrópole gigante, que garante o anonimato. Por outro, é conservadora nas relações entre conhecidos. Somos liberais enquanto cidade e conservadores enquanto família.

Quem frequenta a Igreja Anglicana?
Todos são bem-vindos. Inclusive gays assumidos, divorciados e fiéis desiludidos com outras religiões. O mundo moderno é marcado por uma sociedade plural. Na minha leitura do Evangelho, todo mundo tem o direito de ser feliz. Aqui, as pessoas sentem que as diferenças são respeitadas.

Quais foram os casamentos mais marcantes que realizou?
Foram dois extremos. Um foi a união de dois amigos de infância, num rancho em Pindamonhangaba (SP), onde brincavam quando crianças. O outro foi o casamento do cantor sertanejo Bruno, no Terraço Daslu. Adoro música sertaneja. De repente, vi que estava celebrando uma missa para Chitão- zinho, Daniel e Michel Teló. O próximo noivo famoso é o cantor Paulo Ricardo.

Quantos casamentos já celebrou?
Já fiz mais de 3.000 casamentos, 90% em São Paulo. Já casei evangélicos, hindus, judeus, muçulmanos, grávidas, desquitadas e por aí vai. E casamento gay? Farei assim que a lei permitir.

*

Intervenção artística na favela

JS

A convite da Embaixada da Espanha no Brasil, o coletivo BoaMistura esteve na favela Vila Brasilândia, na zona norte de São Paulo, para realizar a intervenção urbana “Luz nas Vielas”, parte da série “Crossroads: Proyectos de Arte Urbano”.

De Madri, os ilustradores Arkoh, Derko, Pahg, Purone e rDick compõem o BoaMistura, um coletivo de grafite entusiasta da cultura latino-americana, sobretudo brasileira. Nome e sobrenome? Os artistas dispensam. “Preferimos nos apresentar como uma coletividade mesmo, como uma BoaMistura”, brinca Pablo Purone, 28.

Eles desembarcaram na capital paulista no dia 2 de janeiro. Ali foram acolhidos pela família de Dimas Gonçalves entre 4 e 16 de janeiro. A missão? Levar cores fortes, palavras inspiradoras e muita luz para a periferia paulistana.

Ao lado dos moradores, encontraram vielas e becos que se tornariam painel para suas pinturas com efeito tridimensional. As palavras “amor”, “beleza”, “doçura”, “firmeza” e “orgulho” foram escolhidas pela comunidade para ilustrar o projeto. Com o fim da ação, caíram de amores pela cidade: “Encontramos outro lar na favela”, diz Purone.

sãopaulo – Por que o nome “Boa Mistura”, em português?
Pablo Purone
– Somos um coletivo de grafite. E a maioria dos coletivos tem nomes com inspiração anglo-saxônica, como referência aos Estados Unidos. Mas nós somos atraídos pela cultura latino-americana, sobretudo brasileira, pelo espírito colorido, pela alegria e pela diversidade de estilos. Além disso, somos espanhóis e nossos vizinhos, portugueses, também nos encantam. Por isso, escolhemos um nome em português.

Como vieram parar em São Paulo?
Há um ano, fizemos um projeto na Cidade do Cabo, na África do Sul, que se tornou tema do documentário “A Graffiti Affair in Cape Town”. Aí a Embaixada da Espanha no Brasil viu e nos convidou. Não podíamos deixar essa oportunidade escapar. Temos um ateliê profissional, com trabalho remunerado junto a companhias e estúdios de arquitetura –e é isso que nos permite viver e realizar projetos como os da África do Sul e do Brasil, que alimentam nossa inquietude como artistas.

E como escolheram a favela da Vila Brasilândia?
Na verdade, quando chegamos ao Brasil, ainda não sabíamos o que fazer. E há um detalhe: a obra que fazemos não é “transportável”. Não é como um quadro, que pode mudar de galeria para galeria. É um obra na rua, que fica na rua. Por isso, gostamos de vinculá-las e harmonizá-las com o cenário urbano. Quando chegamos a São Paulo, não tínhamos pensado em nada. Mas conhecemos um artista, que nos abriu um caminho. Era Jaime Prades, que se tornou um grande amigo. Ele nos apresentou um rapaz chamado Dimas Gonçalves, que vivia na Vila Brasilândia. E nos convidou a ficar em sua casa, com seus pais, irmãs e sobrinhos.

O que acharam da favela?
Encontramos outro lar. Tivemos o carinho de uma família, a simpatia dos vizinhos e o calor humano de uma comunidade. Eles abriram as portas de casa para nós, estrangeiros que eles nem conheciam. E fizeram isso quando viram que o nosso trabalho era de coração. Nós nos sentimos em casa.

Foram para o Rio?
A ideia era dedicar metade da viagem a São Paulo –e a outra metade ao Rio de Janeiro. Mas não conseguimos. Acabamos ficando muito envolvidos com a comunidade na Vila Brasilândia. São Paulo realmente nos conquistou. No fim, ficamos só cinco dias no Rio, onde fizemos um trabalho no Vidigal, com o pessoal do Nós do Morro.

Se pudesse deixar uma mensagem para São Paulo, qual seria?
Talvez todas as palavras que marcamos na Vila Brasilândia –“amor”, “beleza”, “doçura”, “firmeza” e “orgulho”. Mas minha mensagem seria principalmente “amor”.

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