revista sãopaulo

Sumiu do mapa

Estudo mostra como a mudança do nome de ruas apaga a memória da cidade

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(Para Folha de S.Paulo – 22/1/2012)

Tente caminhar pela rua da Imperatriz, cruzar a travessa do Palácio e chegar à rua da Princesa. Com essas indicações, nem GPS nem Google Maps poderiam ajudar. Traduzindo o itinerário para os dias atuais, no mapa estariam pontilhadas, respectivamente, as ruas 15 de Novembro, Anchieta e Benjamin Constant, localizadas no centro histórico de São Paulo.

Esse foi um dos trajetos redescobertos pela linguista italiana Alessandra Cirrincione, 63, radicada na capital paulista há oito anos. Aqui, decidiu se aventurar pela história da cidade com mapas antigos, revisitando os tradicionais bairros de Brás, Bexiga e Barra Funda, consagrados pelo escritor Antônio de Alcântara Machado (1901-1935), além de Bela Vista e Sé.

Para compor a dissertação de mestrado defendida no ano passado na FFLCH-USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo), ela estudou 190 logradouros para traçar um mapa “retrô” da capital, que integrou o projeto Atlas das Cidades, de Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick, autora de “A Dinâmica dos Nomes na Cidade de São Paulo: 1554-1897”.

Percorridas as trilhas tortuosas pelos mapas do álbum “São Paulo Antigo: Plantas da Cidade”, organizado pela Comissão do 4º Centenário, em 1954, a pesquisadora observou as transformações que São Paulo sofreu ao passar de vila a metrópole. “O mapa é um registro. Sumir do mapa é apagar parte da memória da cidade.”

A história das ruas da capital conta com raros documentos cartográficos sobre o período compreendido entre 1554 e 1808. Com a chegada da família real portuguesa ao Brasil, em 1808, a nomeação das vias passou a ser oficializada pelo rei, d. João 6º.

Mas, a partir da instauração da República, em 1889, intelectuais e políticos riscaram do mapa as referências à monarquia, dando início a um processo de renomeação das ruas. “Antes, a corte era o centro das atenções. Agora, quem serão os nossos novos heróis? Se não os temos, vamos construí-los”, ironiza Alessandra Cirrincione.

Segundo a pesquisadora, em 19 de novembro de 1889, populares liderados pelo político Martinho Prado Junior entraram na Câmara hasteando a bandeira republicana e pedindo a mudança da nomenclatura de pontos importantes do centro da cidade -o que hoje não seria possível com tamanha facilidade.

Assim, a rua da Princesa se transformou em rua Benjamin Constant (homenagem a um dos fundadores da República), a rua da Imperatriz se tornou rua 15 de Novembro (data oficial da proclamação da República), a rua do Príncipe mudou para rua Líbero Badaró (referência a um dos líderes da luta pela Independência) e a rua do Imperador se converteu em rua Marechal Deodoro (homenagem ao primeiro presidente do Brasil) -esta via desapareceu do mapa, no entanto, com a reurbanização do largo da Sé entre 1911 e 1912.

Com o novo estilo para a designação das vias, foram homenageados “heróis” como engenheiros, médicos e políticos, diz a italiana. “Não era mais uma questão de espaço, como as ruas do Quartel e da Quitanda, ou de sentimento, como a rua da Alegria e o beco do Inferno, mas de personalidade.”

Além do centro histórico, outros logradouros batizados com inspiração popular e indígena passaram a representar personagens republicanos. “É como se esses capítulos da história nunca tivessem existido. Nome de rua é um nome próprio, um patrimônio intangível. Em São Paulo, ruas importantes foram esquecidas”, lamenta ela.

Se essa rua fosse minha
São Paulo tem cerca de 49 mil ruas cadastradas e ainda há discussões sobre a alteração de alguns nomes. É o caso das vias em homenagem a personagens não mais ilustres, como a avenida Presidente Castello Branco, o elevado Presidente Arthur da Costa e Silva e a rua Dr. Sérgio Fleury. A homenagem a militares da ditadura é criticada por movimentos sociais, como o Tortura Nunca Mais, e se tornou alvo de um projeto de lei do deputado Milton Flávio (PSDB) que tramita desde 2009 na Assembleia.

Há também casos pitorescos, como a rua Purpurina, que teve o nome escolhido por vontade popular em 1939, mas hoje incomoda alguns moradores da Vila Madalena, na zona oeste. Se antes bastava o clamor dos republicanos, hoje o processo para a alteração é mais difícil. Segundo a lei 14.454, de 2007, o pedido só pode ser feito se duas ruas tiverem o mesmo nome (ou a fonética e a ortografia similares) ou se os moradores do local se sentirem ridicularizados. Na segunda condição, deve ser entregue um abaixo-assinado à Secretaria da Habitação, que abre um processo administrativo e o encaminha para a análise da Secretaria da Cultura. Depois, a mudança segue para a sanção -ou não- do prefeito.

O historiador Maurílio José Ribeiro, da Seção de Denominação de Logradouros Públicos da prefeitura, alerta para a preservação dos registros, que têm valor histórico. A linguista Maria Vicentina Dick concorda. “Não se pode dar nome de rua por modismo. Afinal, a moda passa e a cidade fica.”

*

‘SP não é linda, mas é vibrante’

JS

O arquiteto Márcio Mazza, 62, é daqueles paulistanos xeretas -e com orgulho. Em 2007, após quase uma década entre Los Angeles e Paris, ele retornou ao Brasil e criou o projeto Arq!Bacana, que promove passeios temáticos por São Paulo.

“Fui esmiuçando a cidade para criar os roteiros, buscando opções fora do eixo da nossa ‘Manhattan’. Adoro descobrir cantos escondidos, lugares pitorescos e mistérios urbanos”, conta Mazza, que já elaborou mais de 15 passeios alternativos e atraiu, nos últimos cinco anos, cerca de 10 mil participantes.

Para ele, o melhor da cidade é sua energia. “Vamos admitir: São Paulo não é uma cidade linda. É até feia. Mas é vibrante.”

Farol do Jaguaré
“Obra de Henrique Dumont Villares, sobrinho-neto de Santos Dumont, o mirante proporciona vista de lugares como o rio Pinheiros, a Cidade Universitária e a Lapa. É preciso agendar a visita.” (R. Salatiel de Campos, s/nº, Jaguaré, região oeste, tel. 3714-1702).

Jockey Club
“O melhor horário é a happy hour. A partir do bar Mercearia do Jockey, dá para contemplar um belo pôr do sol, emoldurado pela muralha urbana de prédios iluminados na marginal.” (Av. Lineu de Paula Machado, 1.263, Jardim Everest, região oeste, tel. 2161-8300).

Largo da Freguesia do Ó
“Entre o botequim Frangó e a simpática Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, o largo tem um charme interiorano, de uma São Paulo de outra época. Vale um passeio à tarde.” (Largo Matriz de Nossa Senhora do Ó, s/nº, Freguesia do Ó, região norte).

Praça Pôr do Sol
“Brincando com os bairrismos de São Paulo e Rio, essa seria a nossa pedra do Arpoador. Rodeada por prédios e grafites, a pracinha cheia de namorados tem vista para a área verde do bairro.” (Av. Diógenes Ribeiro de Lima, 100, Alto de Pinheiros, região oeste).

Edifício Martinelli
“Primeiro arranha-céu de SP, o palacete construído por Giuseppe Martinelli oferece uma vista privilegiada de uma São Paulo histórica e decadente. É possível ver marcos como a catedral da Sé.” (Av. São João, 35, Sé, região central, tel. 3104-2477).

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