revista sãopaulo

A ressaca das ruas

Vizinhos de bares e casas noturnas reclamam do lixo que resta depois do fim da festa

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(Para Folha de S.Paulo – 18/12/2011)

F (18)
Depois de se divertirem em bares, casas noturnas e restaurantes noite adentro, os festeiros colecionam histórias para contar. Na manhã seguinte, porém, quem lida com os efeitos colaterais das noitadas são os vizinhos.

Ruas badaladas costumam amanhecer com os excessos da noite anterior: garrafas e latas na sarjeta, vestígios de vômito e urina, bitucas de cigarro e objetos de toda sorte perdidos. É a ressaca das ruas.

“A mistura de escritórios, residências e lazer num mesmo bairro é rica, mas também traz conflitos entre a vida noturna e a diurna”, diz o arquiteto holandês Merten Nefs, que estudou na USP a revitalização urbana em Amsterdã, Berlim e São Paulo.

Segundo Nefs, os moradores podem dialogar com os donos de bares e se unir para, em grupo, exigir da prefeitura um esquema melhor de limpeza. Mas, em última instância, também precisam aprender a conviver com alguma desordem. “Quem tem o privilégio de morar numa área com muito divertimento precisa ter certa tolerância em relação a som e sujeira.”

Universitários
Da happy hour de uma quinta-feira à última música de uma balada de sábado, a sãopaulo percorreu os pontos mais agitados da cidade e voltou a eles nas manhãs seguintes para conferir o impacto da farra.

Há vários perfis de comportamento. Perto de universidades, por exemplo, a tendência é ocupar a rua. É o caso dos arredores do Mackenzie, na Vila Buarque, do campus Memorial da Uninove, na Barra Funda, e da PUC, em Perdizes. Os estudantes compram bebidas em botecos simples e se sentem à vontade na rua, às vezes bloqueando a passagem de carros. “Eles transformaram a mureta do prédio em balcão. Tivemos de plantar arbustos para impedir que deixassem copos ali”, conta Renato Eboli, 77, morador da rua Ministro Godói, perto da PUC.

Já em Higienópolis, perto da Faap, a história é outra. Com mesas na calçada disputadas pelos jovens, o La Villete, na praça Vilaboim, contratou uma empresa para limpar o local de madrugada e não depender dos horários da administração pública.

O pós-festa na Vila Madalena também está melhorando. Bares como Genésio, Filial, Salve Jorge e São Bento contrataram empresas particulares há dois anos para cuidar do lixo. “Sessenta por cento da Vila está OK. Pode passear em um domingo às 8h e vai encontrar a rua limpa”, diz Flávio Pires, presidente da Associação de Gastronomia, Entretenimento, Arte e Cultura da Vila Madalena.

De fato, as ruas estavam transitáveis no domingo da visita. Lá, assim como no Itaim Bibi, nos Jardins e na Vila Olímpia, vários bares e restaurantes seguem o mesmo ritual: após o fim do expediente, retiram o lixo ensacado, varrem a calçada -ou esperam empresas particulares- e, de manhã, lavam o passeio em frente à casa.

O problema são os vãos entre dois estabelecimentos: portões, árvores e outros espaços que não ficam diretamente em frente viram depósito de cigarros e garrafas.
“Não adianta passar o problema adiante. Há vácuos na cidade, pequenas ruas próximas à badalação que ficam esquecidas”, diz o empresário Marcelo Motta, presidente da Sociedade Amigos do Itaim Bibi.

Lado A e lado B
Símbolo da ressaca das ruas, o Baixo Augusta, na região central, amanhece em estado deplorável. “A história se repete todo fim de semana”, diz o professor Márcio Rodrigo, 37, que vê a boemia passar da janela de seu apartamento. Ele diz que não é contra a balada. “Não vim morar aqui inocentemente. Escolhi a Augusta porque adoro bares, cinemas e restaurantes. O que me assusta é a ausência do poder público.”

Essa crítica é partilhada pela advogada Célia Marcondes, presidente da Sociedade dos Amigos e Moradores do Bairro de Cerqueira César. “Se a cidade quer uma rua 24 horas, é preciso ter uma gestão 24 horas”, diz. Há seis meses, ela divulgou, de porta em porta, uma carta pedindo a colaboração dos comerciantes e a presença da prefeitura em questões como limpeza e segurança.

De quem é a culpa
São Paulo produz 291 toneladas de lixo por dia, segundo estimativa da Limpurb, que contrata empresas para fazer a limpeza de bueiros, recolher o lixo e varrer as ruas.

Mas a questão da responsabilidade é quase uma pegadinha: se a sujeira estiver na calçada, os bares, baladas e restaurantes são os responsáveis; se estiver no meio da rua, as subprefeituras devem responder pelo destino correto do lixo. Na prática, a reclamação deve ser feita à prefeitura nos dois casos (confira o telefone abaixo).

Em nota, a Coordenação das Subprefeituras cita a lei 15.442, sancionada neste ano com duas novidades. A primeira é a mudança no valor da multa imediata aplicada para quem não mantiver as calçadas em boas condições. A punição agora é de R$ 300 por metro linear -antes, começava em R$ 96,33. A outra é que a lei passa a valer também para os inquilinos dos imóveis, e não só para os proprietários, como anteriormente.

Para a advogada especialista em direito urbanístico Daniela Libório, porém, independentemente do que conste em lei, a prefeitura é responsável pela limpeza urbana. “Pode atribuir a responsabilidade aos proprietários, mas terá que fiscalizar sempre. O que não pode é o município dizer que a responsabilidade é dos donos e não atuar para corrigir a limpeza ineficiente da calçada”, afirma. E o cidadão não fica de fora. De acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, a sociedade deve disponibilizar adequadamente os resíduos para a coleta.

“No caso da cidade de São Paulo, há ainda uma determinação legal de que os estabelecimentos que gerarem mais de 200 litros de resíduos por dia deverão contratar serviço particular para fazer a coleta e a destinação adequada do lixo”, diz Carlos Silva Filho, diretor-executivo da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais. Quem não cumprir a lei pode receber multa e até denúncia por crime ambiental.

Serviço
Reclamações podem ser registradas na Central de Atendimento da prefeitura (pelo telefone 156), no Alô, Limpeza (tel. 3397-1723) ou no Sistema de Atendimento ao Cidadão (sac.prefeitura.sp.gov.br).

*

“Pogréssio” paulistano

Estudo mostra de que forma a urbanização de São Paulo foi embalada, nos anos 1950, pelas canções de sambistas como Adoniran Barbosa

JS

Uma metrópole em construção, uma coletânea de discos de samba e uma generosa dose de malandragem paulistana. Esses foram os pilares para a tese de doutorado “Debaixo do ‘Pogréssio’: urbanização, cultura e experiência popular em João Rubinato e outros sambistas paulistanos (1951-1969)”, defendida pelo arquiteto Marcos Virgílio da Silva, 35, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

“Pogréssio”? Sim, como na licença poética dos famosos “fumos” e “vortemos” de Adoniran Barbosa (1910-82) nos versos de “Ói Nóis Aqui Traveis”, canção consagrada pelo grupo Demônios da Garoa.

Virgílio pretendia narrar as transformações vivenciadas pela cidade nas décadas de 1950 e 60, mas a partir do ponto de vista dos trabalhadores. “Na época, o discurso das elites costumava enfatizar o crescimento urbano como um progresso inexorável”, conta. “Em vez disso, interessava-me investigar o que a população entendia dessas transformações. Era preciso ir além da superfície do discurso ufanista e investigar esses grupos subalternos.” A partir daí, o arquiteto construiu sua documentação: 50 álbuns de samba cedidos por colecionadores (entre LPs, CDs, obras raras e arquivos digitais), entrevistas antigas (mantidas em acervos como o do Centro Cultural São Paulo e o do MIS) e biografias de sambistas como Adoniran Barbosa, Germano Mathias, Osvaldinho da Cuíca, Noite Ilustrada e Nenê de Vila Matilde, além das obras de Geraldo Filme, Demônios da Garoa e Paulo Vanzolini.

No estudo, o nome verdadeiro de Adoniran Barbosa, João Rubinato, prevaleceu sobre a alcunha artística. A ideia era destacar as vivências do sambista na cidade. “No início da década de 1950, ele residia no ‘centro novo’, em um apartamento na rua Aurora. É a época de ‘Saudosa Maloca’, música inspirada em uma demolição nessa rua, presenciada pelo artista em suas andanças”, conta.

Redutos do samba
Além dos tradicionais redutos do samba paulistano, como a Barra Funda e o Bexiga, o urbanista destacou o ziriguidum despretensioso dos engraxates na praça da Sé e nas intermediações do centro antigo, as rodas improvisadas nos botequins depois do expediente, os bailes de gafieira e os cordões carnavalescos.

Com a urbanização frenética e as fortes correntes migratórias nos anos 1950 e 60, a cidade viu nascer novos bairros, rearticulando as culturas nas periferias -o que deu caldo para uma música popular temperada com os baiões e outros ritmos do Norte e do Nordeste.

Ao mesmo tempo, porém, o estilo ia perdendo espaço nos bairros centrais. Foi o caso do largo do Banana, antes berço do samba na Barra Funda, que se transformou em um viaduto. Na época, nasceram muitas melodias cheias de saudosismo, mas também os desfiles de Carnaval no calendário oficial da cidade, em 1968, as escolas de samba nos bairros, a profissionalização dos músicos e o acesso ao disco e à rádio como formas de perpetuar o samba.

À ideia de São Paulo como “cidade do trabalho” o arquiteto adiciona outra figura: a do malandro. “Para os sambistas, a condição de trabalhador é contingente e precária: talvez haja trabalho hoje, amanhã não”, diz. Uma ilustração para a filosofia de botequim é a letra de “Conselho de Mulher”, de Adoniran: “Amanhã vou trabalhar, se Deus quiser -mas Deus não quer”.

Virgílio diz que prefere pensar que os habitantes atuais de São Paulo, “mesmo judiados por essa urbanização impessoal e autoritária”, não deixam de viver a cidade da melhor forma que podem. “Eles preservam seu afeto e sua memória, em qualquer brecha que se lhes deixe”, afirma.

E se a urbanização de São Paulo fosse uma música? Seria “Tradição”, de Geraldo Filme, arrisca o urbanista: “O samba não levanta mais poeira/ asfalto hoje cobriu nosso chão/Lembrança eu tenho da Saracura/ saudade tenho do nosso cordão/ Bexiga hoje é só arranha-céu/ e não se vê mais a luz da lua/ Mas o Vai-Vai está firme no pedaço/ É tradição, e o samba continua”.

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