revista mundo estranho

O que são newsgames?

Por Juliana Sayuri
De São Paulo

(Para Editora Abril – 12/2011)

M3São jogos casuais baseados em notícias (“news”, em inglês) e em fatos reais. Tudo começou com a fundação a produtora Newsgaming, que lançou, em setembro de 2003, o primeiro deles: “September 12th”, inspirado nos atentados de 11 de Setembro, com um pé na realidade e outro na ficção. O formato ainda é experimental, mas já é explorado pelos maiores jornais do mundo, como o americano The New York Times, e por revistas brasileiras, como a Superinteressante.

Nos newsgames, os enredos são casuais, os movimentos são fáceis (geralmente, apontar e clicar), ancorados em uma mecânica simples (gráficos 2D, programados em flash) e bem atuais. Para produzir um jogo novo, a equipe geralmente conta com um repórter, um designer/ilustrador, um editor e um desenvolvedor. Além de atrair leitores para sites dos jornais, esses jogos pretendem melhorar o entendimento a respeito de um fato. “O newsgame reflete o desafio atual para quem produz conteúdo: buscar novas formas de contar histórias”, diz o jornalista Tiago Dória.

Aperte o play
Conheça alguns newsgames famosos e aprenda como as notícias podem ficar mais divertidas nesses jogos

September 12th: A Toy World
Primeiro newsgame, lançado em setembro de 2003, tem como cenário uma cidadezinha no Oriente Médio. As instruções: “As regras são fatalmente simples. Você pode atirar. Ou não”. A ideia é disparar mísseis contra os terroristas, sem atingir a população civil. O game é uma crítica à guerra ao terror desengatilhada depois do 11 de Setembro

Play Madrid
No dia 11 de março de 2004, três explosões simultâneas e quatro bombas destruíram a estação de trem Atocha, em Madrid. Logo no dia 13, o jornal El País postou o segundo game como um tributo às vítimas dos atentados na capital espanhola. O newsgame simula uma vigília, onde os avatares seguram velas. Com o mouse, os jogadores precisam manter a chama acesa

Food Import Folly
Em maio de 2007, o jornal The New York Times publicou um newsgame com foco na (falta de) fiscalização na importação de alimentos nos Estados Unidos. A missão do jogador é proteger o país dos alimentos contaminados, com recursos limitadíssimos. No fim, é uma crítica ao Food and Drug Administration (FDA)

Fatworld
Lançado em janeiro de 2008, o newsgame põe na balança as questões da obesidade e da nutrição nos Estados Unidos. As instruções dizem: “Fit or fat? Live or die?” (“Em forma ou gordo? Viver ou morrer?”). O jogador deve montar dietas, menus e receitas, decidir malhar (ou não) e administrar um restaurante para uma cidade inteira

FONTES: Delmar Galisi, doutor em Design pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e coordenador do curso de Design de Games da Universidade Anhembi-Morumbi; Geraldo Seabra, jornalista e mestre em Comunicação pela UFMG; Gonzalo Frasca, pesquisador e desenvolvedor da Powerful Robot Games, PhD pelo Center for Computer Games Research de Copenhague e catedrático da Universidade ORT de Montevidéu; Luiz Adolfo de Andrade, jornalista, designer de games e doutorando pela UFBA.

*

Quais ataques reais teriam sido inspirados por games?

JS

Dos recentes ataques terroristas na Noruega ao atirador que matou alunos de uma escola em Realengo, no Rio, vários episódios violentos teriam sido, segundo as investigações, inspirados por cenas de videogames. Mas são apenas teorias – a relação entre jogar um game violento e partir para ataques na vida real ainda é polêmica entre os cientistas (veja boxe). Enquanto alguns pesquisadores culpam veementemente os jogos, outros defendem que não há relação de causa e consequência. Independente da teoria, é preciso considerar que os autores dos ataques também estavam sujeitos a fatores como abuso de drogas, tendência à agressividade, transtornos psicológicos etc. Além disso, o contexto sócio-econômico, político e cultural também ajuda a explicar as motivações dos atentados.
Texto: Juliana Sayuri / Ilustra: Pictomonstro

Brincadeira tem limite
Será que dá para jogar a responsa dos atentados a seguir nos videogames?

CHACINA NA NORUEGA
QUANDO 2011
LOCAL Noruega
INSPIRADO EM World of Warcraft e Call of Duty
Em julho, o fundamentalista cristão Anders Breivik detonou um carro-bomba no complexo governamental de Oslo. Momentos depois, fez uma chacina em um acampamento na ilha de Utoya, a 40 km dali. No total, foram 93 mortes. O norueguês revelou um manifesto de 1500 páginas dizendo que os games World of Warcraft e Call of Duty: Modern Warfare inspiraram-no

MASSACRE EM REALENGO
QUANDO 2011
LOCAL Rio de Janeiro
INSPIRADO EM Counter Strike
No dia 7 de abril, o ex-aluno Wellington Menezes de Oliveira invadiu a escola Tasso da Silveira, no bairro de Realengo. Armado com dois revólveres, o atirador matou 12 estudantes e se suicidou. O diário do jovem foi encontrado depois, com anotações que misturavam terrorismo e jogos eletrônicos, como Counter Strike, que tinha táticas de guerra e crime organizado

TIROS EM COLUMBINE
QUANDO 1999
LOCAL Colorado, EUA
INSPIRADO EM Doom
Um dos ataques contra escola mais famosos – virou até documentário, com Tiros em Columbine –, aconteceu quando os jovens Dylan Klebold e Eric Harris feriram mais de 20 pessoas, mataram 12 colegas e um professor na Columbine High School. Depois, os atiradores se suicidaram. O arsenal incluía espingardas, pistolas semi-automáticas e um rifle. Os estudantes americanos eram viciados em Doom, jogo narrado em primeira pessoa, em que o player é um fuzileiro solitário

INSPIRAÇÃO NEFASTA
QUANDO 2011
LOCAL Alphen aan den Rijn, Holanda
INSPIRADO EM Call of Duty
No dia 9 de abril, Tristan van der Vlis disparou mais de 100 balas com uma arma semi-automática em um shopping na Holanda. Depois de matar seis pessoas e ferir 17, o agressor se suicidou. Logo vieram as suspeitas sobre a relação do ataque com o jogo Call of Duty: Modern Warfare 2, encontrado na casa do criminoso. Em um dos episódios do game, o soldado Joseph Allen dizima civis no aeroporto de Moscou

PÂNICO NO SHOPPING
QUANDO 1999
LOCAL São Paulo
INSPIRADO EM Duke Nukem
O estudante de medicina Mateus da Costa Meira disparou diversos tiros de metralhadora contra a plateia de cinema do filme Clube da Luta no Morumbi Shopping. O jovem imitou o passo–a-passo de Duke Nukem, game em primeira pessoa com uma cena de tiroteio dentro de um cinema. Os três mortos e diversos feridos custaram a Mateus uma condenação de 120 anos de prisão

MISSÃO DE VINGANÇA
QUANDO 2000
LOCAL Murcia, na Espanha
INSPIRADO EM Final Fantasy
O adolescente José Rabadán Pardo matou os pais e a irmã com uma katana (espada japonesa ao estilo dos samurais). Na época, o espanhol disse que estava em uma missão de vingança para Squall Leonhart, protagonista do jogo Final Fantasy VIII. A marca registrada do “herói” digital é o movimento Renzokuken, uma série de cortes e um “fatality” poderoso

DIA DE FÚRIA
QUANDO 2009
LOCAL Winneden, Alemanha
INSPIRADO EM Counter Strike
Após postar um aviso sobre assassinatos na internet, Tim Kretschmer roubou o revólver do pai e voltou à sua antiga escola na Alemanha. Disparou mais de 60 balas e fez 15 vítimas, entre estudantes e professores. Acossado pela polícia, cometeu suicídio. Durante as investigações, a polícia descobriu que ele era obcecado por armas e games como Counter Strike

FANTASIA MACABRA
QUANDO 2010
LOCAL Puyallup, EUA
INSPIRADO EM Dungeons and Dragons
A jovem Kimmie Daily, de 16 anos, foi estuprada e brutalmente assassinada por Tyler Savage nos EUA. Na época com 18 anos, o estudante era viciado em Dungeons and Dragons, um RPG de fantasia medieval. Depois do crime,  o garoto simplesmente foi à casa do vizinho para jogar o game e “lidar” com o que fizera. Tyler ainda espera o julgamento, mas, se considerado culpado, pode ser condenado à pena de morte

Polêmica quente
Games violentos geram violência?

SIM: De acordo com um estudo de 2005 desenvolvido na Universidade de Aachen, na Alemanha, jogar videogame provoca as mesmas respostas violentas no cérebro que uma agressão real. Para o psiquiatra Klaus Mathiak, os games são como um “treinamento” para o cérebro reagir a esse gatilho de violência. Pesquisadores da Universidade de Iowa, nos EUA, também defendem essa teoria
NÃO: Segundo um estudo de 2011 desenvolvido por Scott Cunningham, da Universidade de Baylor (EUA), Michael R. Ward, da Universidade do Texas (EUA), e Benjamin Engelstätter, do Centre for European Economic Research, na Alemanha, os games diminuem índices de violência, servindo como válvulas de escape para a agressividade. Um livro da Harvard Medical School Center também desacredita o potencial perigoso dos jogos

Brincando de detetive
Na esteira do sucesso de séries como CSI, alguns games querem ajudar a solucionar, e não causar crimes

– Autopsy of a Murder: Jogo para PC em que o player recebe cinco evidências e pode até usar laboratórios de balística e química, além das clássicas impressões digitais
– CSI: 3 Dimensions of Murder: Inspirado em CSI: Crime Scene Investigation, o jogo coloca o player como um dos famosos investigadores de Las Vegas
– L.A. Noire: Que tal viver um policial em Los Angeles na década de 1940? Nas investigações, preste atenção às pistas, tome o depoimento das testemunhar e faça inquéritos com os suspeitos

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