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Legendários

Eles trabalham à margem da lei, de graça e com nome falso. Penetram a madrugada online com a assessoria de uma rede de especialistas de várias áreas de conhecimento, brasileiros e estrangeiros. Sua missão? Traduzir com fidelidade os diálogos da sua série preferida antes de ela chegar ao Brasil.

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(Para Editora Abril – 5/2011)


S1Os Psicopatas deram o primeiro golpe que vai matar no Brasil a TV como até hoje conhecemos. De 2004 a 2010, o primeiro coletivo brasileiro de legendadores independentes fez as melhores traduções da série Lost. Ao baixá-las ilegalmente, fãs passaram a assistir em português poucas horas depois da transmissão nos EUA. Nada mais de esperar meses para o episódio sair no canal AXN – ou mais tempo ainda para comprar o DVD. Assim puderam discutir junto com o resto do mundo os desdobramentos do programa que transformou espectadores em usuários e fez do vídeo apenas uma face de um produto centrado na internet e em suas redes sociais.

Antes dos Psicopatas, essa torrente de downloads ilegais era barrada pela língua. Legendas em português não eram prioridade; muito mais interessante era investir no espanhol, que atinge o mercado hispânico nos EUA e desce para quase toda a América Latina. Restava aos brasileiros ou baixar legendas piratas ruins ou esperar pela legendagem oficial. Esse descaso fez com que no rastro dos Psicopatas surgisse uma legião de fãs incondicionais dispostos a traduzir suas séries prediletas. Hoje o portal Legendas.TV, epicentro da tradução independente, concentra o trabalho de cerca de 50 coletivos.

Falta de precisão científica, negligência com trocadilhos e expressões erradas. Incomodada com essas falhas na tradução da série The Big Bang Theory, transmitida pelo Warner Channel, Darth Wandy, estudante de física da UFPE, decidiu montar seu próprio coletivo. Com o irmão MasterHit, estudante de física na Universidade Federal de Santa Maria, RS, angariou colaboradores no Orkut e organizou os N.E.R.D.S. – Nerds Eager to Rock Doing Subtitles (“Nerds Loucos para Arrasar Fazendo Legendas”). “Nós sabemos que o correto seria making subtitles, mas usamos doing sob licença poética”, diz Wandy.

E o que move esses fãs? A simples paixão pelas séries. “Nunca ganhamos um tostão!” Pelo contrário – o dinheiro para pagar a hospedagem do site e do domínio de e-mail vem do próprio bolso dos coletivos. Wandy ainda inventa alguns gastos extras, como um kit de lembrancinhas com camisetas e chaveiros da equipe. Mas a falta de grana não significa que o trabalho não traga recompensas.

Embora os legendadores não divulguem seus nomes verdadeiros para evitar implicações por violação de diretos autorais, seus nicknames, presentes em letrinhas amarelas nas vinhetas de cada episódio, os transformaram em celebridades da internet. E há também as amizades. Enquanto esperam baixar o novo episódio, os legendadores se reúnem pelo Skype para tocar violão e cantar em um luau ou jogar “stop” versão The Big Bang Theory. Alguns chegam a se conhecer offline. Foi em um bate-papo enquanto legendavam uma série que John Doe, da equipe Outsiders, especializada em resgatar séries rejeitadas por outros coletivos, conheceu sua noiva, Mih.

Turma afiada
Os canais brasileiros de TV paga começaram a ceder à pressão dos legendadores independentes. Com tantos downloads ilegais, os canais pagos abreviaram de meses para apenas uma semana o atraso em relação à transmissão americana. Wandy dá a receita para essa influência.

“Nós somos nerds com todas as letras maiúsculas”, diz ela, orgulhosa de os N.E.R.D.S. terem um colaborador fluente em Klingon (a língua fictícia de Jornada nas Estrelas), um colecionador de histórias em quadrinhos e outras excentricidades geek que ajudam nos diálogos de The Big Bang Theory.

Entre seus 40 colaboradores pelo Brasil estão estudantes de física, informática e engenharia – além de estudantes de letras, sempre interessados em traduções. Até estrangeiros entram para ajudar, como um amigo chinês para os momentos de crise em que Howard Wolowitz tenta ensinar mandarim a Sheldon Cooper. “Modéstia à parte, o pessoal é muito bom!”, conta Wandy.

Os coletivos também se especializam em áreas. Para decodificar os sintomas, medicamentos e jargões de House, Grey’s Anatomy e do spin-off* Private Practice, Flaviamar e MatheusT, do InSUBs, têm no seu time uma fisioterapeuta, um enfermeiro e um estudante de medicina. Tudo para manter o slogan “Qualidade É InSUBstituível”. “As séries com temáticas específicas sempre nos dão mais trabalho. Mas todas são complicadas se você não estiver familiarizado com seu enredo”, diz Flaviamar. Traduzir o sarcasmo e os diagnósticos do dr. House? “É uma vitória.”

Sem fronteiras
Cada coletivo tem um número oficial de colaboradores. Mas extraoficialmente é difícil saber quantos estão envolvidos. “Somos um pouco ‘legenders sem fronteiras’, pois todos os nossos tradutores fazem legendas para outras equipes, assim como legenders de outras equipes nos ajudam em algumas traduções”, conta John Doe, administrador do coletivo Outsiders, mas que também colabora com os N.E.R.D.S. São aliados, sem fronteiras geográficas nem exclusividade, e reunidos pelo portal Legendas.TV.

Mas as fronteiras emergem quando o assunto são as séries prime time*. Os Psicopatas fizeram história com Lost, os N.E.R.D.S. nasceram sob o signo de Big Bang Theory, a InSUBs marcou território nas séries médicas, os Subsfreak se aventuram nas investigações criminais de CSI, e os Outsiders salvaram as abandonadas Nurse Jackie e Human Target.

“A divisão de séries é combinada pelas principais equipes parceiras do site. Cada equipe fica com a sua”, conta LucasJoao, o estudante de 15 anos que lidera os 40 tradutores da Subsfreak. Mas a fila anda se um grupo não der conta dos padrões estabelecidos pelo site – 23 caracteres por segundo, limite de 35 caracteres por linha, máximo de duas linhas por legenda, tempo de exposição mínimo de 1,3 segundo, sem asteriscos, frases ou palavras não traduzidas.

Além disso, há uma corrida para pegar as séries estreantes – e aí vale as equipes garimparem dossiês sobre séries enquanto ainda eram apenas ideias na mente de um roteirista, projetos nebulosos e pilotos engavetados. “Atualmente é usado o ‘bom senso’ dos moderadores do site. Eles julgam quem deve ficar com o quê. As séries mais pop têm ficado com a equipe do próprio Legendas.TV, que na prática reúne representantes das várias equipes. Assim balanceamos os nossos interesses”, diz Wandy.

Piratas
O mercado americano percebeu rapidinho o efeito da internet sobre as séries: a locadora Netflix e o iTunes passaram a vender episódios por download, e os próprios canais liberaram os episódios para assistir em seus sites. Assim, você pode ver o programa na hora que preferir, em vez de depender dos horários estabelecidos na programação da TV.

Mas o Brasil dormiu no ponto. Os canais pagos daqui ainda esperam que espectadores aguardem no sofá para o episódio começar à 1 da madrugada. “O problema é como as séries são comercializadas. Os canais pagos não acompanham a velocidade do interesse do espectador”, diz Vagner Matrone, coordenador do curso de rádio e TV da Faap. E, como a distribuição das séries é negociada em cada país, o streaming nos EUA não pode ser liberado no Brasil. “Isso favorece que fãs baixem episódios que poderiam comprar legalmente online, se estivessem disponíveis na internet.”

E o que os profissionais da tradução acham do trabalho dos coletivos? “Se há legendadores amadores, é porque há espaço para essa prática”, diz Marcelo Leite, sócio-diretor da Drei Marc, empresa de legendagem com 20 anos de mercado e responsável pelas traduções e legendas oficiais de Heroes, Law & Order, Modern Family e Sex and The City.

Sabrina Martinez, diretora de tradução da Gemini Media, que legenda séries do Multishow, do Universal Channel e da Fox, também vê com bons olhos o trabalho dos fãs. “O que começa como hobby pode se tornar uma fonte de renda estável se o tradutor quiser se profissionalizar”. Maravilha, não fosse um porém.

Eles vivem sobre o muro que separa a defesa de uma internet sem fronteiras e o respeito aos direitos autorais. “Para produzir as legendas, os fãs precisam ter acesso a vídeos pirateados. Assim, as legendas amadoras acabam por incentivar a pirataria. E a cadeia de direitos autorais deve ser respeitada”, diz Martinez.

O limbo é maior porque o Brasil não tem leis específicas que tratem de tradução de legendas. Mas a Associação Antipirataria de Cinema e Música (APCM), que já tirou o Legendas.TV do ar temporariamente em 2009, é taxativa: a distribuição não autorizada de conteúdos protegidos por direitos autorais é pirataria – com ou sem fins lucrativos. Afinal, a tradução depende da autorização dos titulares, segundo a Lei de Direitos Autorais e a Convenção de Berna, ratificada e em vigor em quase todos os países do globo. Aos olhos da APCM, a legendagem independente é apenas mais um elo na cadeia dos piratas.

N.E.R.D.S.
ID: Darth Wandy, 24 anos, Cabo de Santo Agostinho, Recife (PE)
(Admin)* – N.E.R.D. número 1, Darth Wandy lidera o treinamento dos legendadores de seu coletivo. “Lido com as adversidades. Mesmo que todos os legenders sumam por questões pessoais ou técnicas, a legenda nunca deixa de ser lançada. Esse é meu compromisso.” Ao receber vídeos de novos candidatos para a equipe, ela se sentiu no comitê de seleção do Big Brother Brasil. “Mas momentos celebridade não tenho, não. Tento ser discreta na vida a.f.k*.” Fã de ficção científica, quadrinhos e comédias geek, a legendadora adora o desafio de adaptar as teorizações dos cientistas de The Big Bang Theory, a principal série traduzida pela N.E.R.D.S. Além disso, Wandy prima pelo preciosismo científico com a ajuda de estudantes de informática, física, engenharia e afins no seu time.
A.F.K.* – Na vida real, Wandy se desvencilha do nickname inspirado no vilão de Star Wars e veste a camiseta de estudante da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

INSUBS
ID: Flaviamar, 25 anos, João Pessoa (PB). ID: MatheusT, 18 anos, Vila Velha (ES).
(Admin) – A dupla coordena a equipe InSUBs, que traduz mais de 30 séries atualmente sob o slogan “Qualidade é InSUBstituível”. Entre seus trabalhos estão os seriados médicos House, Grey’s Anatomy e Private Practice, que eles traduzem com a ajuda de uma fisioterapeuta, um enfermeiro e um estudante de medicina.
A.F.K. – Flávia ensina geografia no ensino fundamental, e Matheus está no 1º ano na Faculdade de Direito de Vitória. Os dois ainda não se conhecem pessoalmente.

SUBSFREAK
ID: LucasJoao, 15 anos, Santos (SP).
(Admin) – O adolescente comanda uma equipe de 40 tradutores da Subsfreak, que ficou conhecida pelas legendas de séries de crime, como CSI, Law & Order e The Forgotten. Apesar de ser o mais jovem da equipe, LucasJoao é admirado por seus colegas. “Eu tento não revelar minha idade, pois penso que seria menos respeitado pelo pessoal que está aprendendo comigo. Mas não adianta: meu Facebook já me entregou inúmeras vezes.” No grupo, o novato é Lordmarioh, jornalista de 27 anos recentemente incorporado ao time.
A.F.K. – LucasJoao é o estudante Lucas – João é só para disfarçar. É um maníaco por séries confesso. Assiste a mais de 30 delas, desde American Dad até The Mentalist.

*Notas do tradutor
Admin – É o “administrador” de um site. No caso dos legendadores, seria o “líder” de uma equipe.
A.F.K. – Sigla de away from keyboard (“longe do teclado”). Ou seja, a vida além-internet.
Prime Time – Séries de maior destaque na programação, do “horário nobre” americano.
Spin-off – Uma série que deriva de outra.

É tudo free
Por que brasileiros baixam tantas séries ilegalmente?

Tempo: Séries são um produto perecível. Mesmo que demorem apenas uma semana para chegar ao Brasil, o fã já vai ter lido tudo sobre o que perdeu por esperar pela transmissão oficial.
Multitask: O jovem prefere assistir à série no computador na hora que quiser enquanto ouve música, usa o Facebook e baixa outros episódios. Espectador passivo já era.
Grade: Canais abertos estão começando só agora a liberar conteúdos na internet. A operadora NET se prepara para lançar serviço on demand.
Grana: Brasileiros estão acostumados a não pagar para assistir à TV; já nos EUA, a TV paga é universalizada.
Dublagem: O grande público no Brasil prefere ouvir a ler. Para popularizar a TV a cabo, os canais começaram a dublar algumas séries, o que demora mais e incomoda fãs que prefiram ouvir o áudio original.

 

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