overmundo

Diferenças S/A. Tolerância SP

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(P
ara Overmundo – 10/2010)

Daniel e André andam tranquilamente de mãos entrelaçadas, imersos na sociedade anônima de 1,5 milhão de passantes diários da Avenida Paulista. Mas o casal recebe o olhar oblíquo de um senhor grisalho que, com ar de desapontado, balança a cabeça. “E daí? É São Paulo. Hello! É o século 21”, diz André. Ao mesmo tempo em que desliza com a naturalidade dos novos tempos, a frase ainda arranha os ouvidos mais conservadores, pondo em xeque as transformações assistidas pela sociedade paulistana.

Um novo mapa paulistano está sendo traçado para lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBTT) a partir de 2010. Estar nesta cartografia, no entanto, não é lá motivo de orgulho. A Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual está construindo o Mapa da Homofobia, baseado nas estatísticas de discriminação arquivadas no Centro de Combate à Homofobia, que neste ano atendeu a 214 casos até outubro. A nova bússola norteará políticas públicas “tanto na questão do policiamento quanto na conscientização da sociedade frente às diferenças”, diz o coordenador Gustavo Menezes. Enquanto o quadro não é delineado, é possível observar uma cidade de matizes modernos em contraste com rasgantes traços homofóbicos.

Para Rogério de Oliveira, diretor da ONG Casarão Brasil, o “epicentro gay friendly” se destaca entre as brechas que a cidade oferece para a diversidade sexual. Os vértices de Avenida Paulista, Rua Augusta e Frei Caneca demarcam um espaço privilegiado para a aceitação, onde casais no estilo de Daniel e André, Ana e Carolina, e tantos outros se sentem mais à vontade. “Não é um gueto, é só um espaço mais aberto”, diz. Entre os habitués, o epicentro recebe variadas tribos, como roqueiros, fashionistas e cinéfilos. Ironia urbana, pois o circuito também é um dos pontos de encontro de neonazistas skinheads e suas eventuais agressões aos LGBTTs – prova brutal de que há quem engatinhe no respeito às diferenças.

Um dos primeiros passos nessa trilha foi o boom da aids em 1985, pois os gays eram apontados como o principal alvo do vírus HIV. Entre 1980 e 2000, São Paulo teve 35.923 diagnósticos soropositivos – entre eles, 9.377 eram homossexuais, isto é, 26,1%, segundo o Programa de DST/AIDS. “Infelizmente, era conhecida como a ‘peste gay’”, lembra Julian Rodrigues, da ONG Corsa. “Mas o lado positivo é que a aids tirou milhares de pessoas do armário” , diz, sobre a articulação do movimento a partir da epidemia, com as letras GLS, GLBT e a mais atual LGBTT a costurar a bandeira arco-íris da “diversidade sexual”.

A Parada Gay, estreante em 1997 com 2 mil pessoas, é um marco do movimento. Neste ano, a 13ª Parada do Orgulho Gay reuniu mais de 3 milhões de pessoas na Avenida Paulista, segundo a SP Turis, fazendo jus ao título de “maior parada LGBTT do mundo”. Entre carnaval fora de época e manifestação política, o evento “é um salto na história”, nas palavras do coordenador Manoel Zanini, por dar mais visibilidade às bandeiras coloridas na luta por direitos civis. Apesar dos holofotes em outubro, mês oficial do “orgulho gay”, o cotidiano de uma cidade do quilate paulistano “torna tudo mais difuso, onde as pessoas podem experimentar o anonimato para descobrir seus desejos”, diz o advogado Dimitri Sales, da Coordenação de Políticas para a Diversidade Sexual. Há a capital civilizada, vanguardista e diversa, “onde você pode ser o que quiser”, diz Julian, mas uma mudança de perspectiva traz à tona uma São Paulo “tradicional e caretinha”: “Não quero ser Poliana. Seria bom se o mundo fosse cor-de-rosa, mas ainda há intolerância, sim.”

“Não é legal ser preconceituoso hoje, mas à boca pequena, a cidade continua politicamente incorreta”, diz Alexandre Saadeh, especialista em sexualidade do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP). Numa sociedade controversa em que as diferenças conquistaram visibilidade no anonimato, e a tolerância e o respeito tomaram contornos políticos, a liberdade de “ser diferente” ainda caminha tímida frente aos preconceitos, velados e assumidos. Talvez o quadro nebuloso ainda precise de pinceladas de arco-íris.

*

Capital terá Mapa da Homofobia em 2010

Por Juliana Sayuri
De São Paulo

(Para O Estadao de S.Paulo – 5/12/2009)

A cidade que recebe a maior Parada Gay do mundo agora quer se tornar, de fato, referência em termos de tolerância e respeito às diferenças. Para orientar políticas públicas específicas – já a partir do próximo ano -, a Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual, da Secretaria de Participação e Parceria, está traçando o Mapa da Homofobia na capital.

O levantamento será feito com base nos registros do Centro de Combate à Homofobia (CCH), que atendeu 229 novos casos do início do ano até novembro. Os resultados iniciais desse mapeamento devem ser divulgados na segunda quinzena de janeiro. “O estudo servirá tanto na questão do policiamento quanto no trabalho de conscientização da sociedade”, explica o coordenador do centro, Gustavo Menezes.

Enquanto o estudo não fica pronto, é possível ver uma metrópole onde o preconceito, na maioria das vezes, é velado. “Não é legal ser preconceituoso hoje em dia, mas, à boca pequena, a cidade continua politicamente incorreta”, afirma o especialista em sexualidade do Instituto de Psiquiatria da USP Alexandre Saadeh.

A Parada Gay, que estreou timidamente em 1997 e neste ano reuniu mais de 3 milhões de pessoas na Avenida Paulista, é considerada um marco do movimento em defesa dos direitos dos homossexuais. “Foi um salto na história”, diz o coordenador do evento, Manoel Zanini. Segundo o advogado Dimitri Sales, da Coordenação de Políticas para a Diversidade Sexual do Estado de São Paulo, outro grande passo nessa direção será o Projeto de Lei 122/2006, que, se aprovado no Senado, tornará a homofobia um crime.

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