revista viração

Dinheiro limitado, liberdade ilimitada

Uma mochila nas costas e uma ideia na cabeça. É só o que você precisa para ampliar seus horizontes. A cultura mochileira faz parte da juventude mente aberta, interessada em viagens alternativas, independentes, no melhor estilo Lado B

Alan Ferreira, do Virajovem Maceió (AL)*, Juliana Cordeiro e Honislaine Rubik, do Virajovem Curitiba (PR), Murilo Augusto da Silva, Luan Machado e Cibele Sodré, do Virajovem Campo Grande (MS) e Juliana Sayuri, colaboradora da Vira
(12/2009)

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Para muitos, viajar é sinônimo de sair da rotina, mas desde que seja com tudo organizadinho, hotel reservado e poucos imprevistos. Para outros, viajar é sair pelo mundo para experimentar, desbravar, descobrir outros mundos dentro deste planeta. É a praia de quem acredita na responsabilidade de um cidadão do planeta – responsabilidade ecológica, pacifista e convicta dos direitos humanos. Nessa onda, vários jovens surfam e navegam mundo afora.

A estudante Clara Coelho, de Camocim (CE), correu atrás do que queria em 2005, ao trancar o curso de Jornalismo na Universidade Estadual Paulista (Unesp) para se enveredar pelo Oriente Médio. Aos 18 anos, ela fez um intercâmbio “fora do convencional”, passando seis meses em Israel, no Programa de Voluntariado Internacional dos Kibbutzim. “A experiência de conviver com essa comunidade internacional, vivendo nos kibutz, uma fazenda no meio do deserto, foi transformadora. E me abriu a cabeça”, conta. “Meus pais não me ajudaram. Meu pai, por questões de princípios, pois achava que assim estaria me educando, e minha mãe, por falta de condições. Na época foi difícil, mas hoje agradeço, pois me sinto capaz de fazer qualquer coisa”.

O paulistano Adriano de Melo Sanches, de 22 anos, também começou cedo a se aventurar por aí. “A primeira viagem que realmente merece o título de Mochilão com M maiúsculo foi aos 15.” Ele esteve em Portugal e depois foi sozinho para França, Espanha e Inglaterra. Para ele, é possível viajar com pouca grana, pois é prova viva disso. Campings e albergues são alternativas para economizar no orçamento, inclusive compartilhando quartos com outros viajantes, pois “é uma ótima oportunidade para conhecer outras pessoas”. Para o editor gaúcho Zizo Asnis, a diferença diante de turistas de carteirinha, com camisa havaiana florida e câmera fotográfica em punho, é que os viajantes independentes se viram com grana limitada, mas contam com liberdade, valorizam o contato com nativos e outros viajantes. “O mochileiro busca emoções na viagem, indo além de um roteiro fechado”, afirma.

Filosofia viajante
Que filosofia é essa? Nas questões albergue versus hotel, ônibus versus avião, roteiro livre versus calendário amarrado, o viajante independente escolhe as primeiras alternativas. Foi assim com a repórter colaboradora da Vira, Juliana Sayuri, que percorreu nove países da América do Sul com dinheiro limitado e
liberdade ilimitada. Tanto faz se sozinha ou acompanhada, é preciso ter responsabilidade para não se arriscar demais. “Liberdade vem com responsabilidade” – é o mantra de Clara. Para a estudante, é preciso ter disposição, saber rebolar no improviso e senso de humor para enfrentar as intempéries e os reveses inesperados de uma viagem.

Os albergues da juventude são uma alternativa incrível para viajantes. Neles, é possível entrar em contato com os quatro cantos do mundo em um quarto compartilhado dos chamados hostel. “Gosto muito de albergues – não há local melhor para conhecer e socializar-se com outros viajantes. Este ano o movimento faz 100 anos, e ainda há espaço para crescer mais”, afirma Zizo, autor dos guias O Viajante Independente pela Europa e pela América do Sul.

Rita Castro, mochileira convicta e diretora do Hostel Verdes Mares em Natal (RN), recebe jovens a partir de 16 anos – sempre acompanhados por um de 18 e com autorização dos pais.

O estilo mochileiro faz a cabeça de muitos, pois “viajar sem a família dá a sensação de liberdade e irreverência, além da socialização e do espírito de amizade”, diz. Para Rita, passar uns dias em um albergue da Hostelling International, “Centro de Cultura e Paz” declarado pela Unesco, é um “aprendizado”: “Nossa filosofia é permitir que todo mundo conheça, por meio do albergue, diferentes países, cidades, culturas e costumes diferentes e aprenda a respeitar as peculiaridades de cada povo e a conviver em sociedade, contribuindo para sua formação”. Afinal, albergue é ter abrigo, aconchego e carinho: “Nosso hóspede nunca será um número de apartamento… sempre terá um nome”. Para ficar na “casa” de Rita, basta R$ 30, o que corresponde a apenas 10% do valor de um hotel tradicional na praia paradisíaca de Natal.

Na virada de 2001, Ewerton Soares investiu apenas R$ 35 para sair de Maceió rumo a Maragogi (AL). Detalhe: a pé. De lá pra cá, o mochileiro de 27 anos conheceu mais de 10 Estados brasileiros e fez uma viagem inesperada à Bolívia. “Sair da rotina, conhecer novos lugares, pessoas com outros valores, ter novas experiências” são suas motivações. Para ele, só podemos conhecer um lugar de verdade quando temos a liberdade de ir para onde quiser e quando quiser. Ele defende que “o dinheiro é bem gasto se investido em viagem de mochileiro, então viajar de mochila é investimento, viajar em pacote turístico (‘prisão turística’), é gastar dinheiro.”

Viajantes brasileiros no Brasil
Já que tantos jovens navegam por outros mares, por que nem todos mergulham de cabeça no Brasil? O editor Zizo tem a impressão que europeus têm mais a cultura mochileira na veia do que nós, brasileiros. “A cultura mochileira é bem mais forte entre os anglo-saxões. Os brasileiros ainda estão no roteirão colégiofaculdade-estágio-formatura-trabalho-casamento, abrindo poucas brechas neste esquema para olhar para outros lados”, diz. Ele nos abre os olhos para uma questão-chave verde-eamarela: “Os brasileiros precisam conhecer o Brasil – e não apenas o litoral”.

Uma boa dica é Bonito, cidade localizada a 300 quilômetros de Campo Grande (MS), que recebe grande número de turistas (boa parte deles mochileiros). Pessoas das mais diversas regiões do mundo já marcaram presença na cidade que já diz tudo só pelo nome. Ronaldo Mendoza, agente de Turismo, conta que Bonito é um dos destinos preferidos de quem está em busca de aventura e contato com a natureza. “O lugar é rico em beleza, fauna, flora, gastronomia e oferece diversas opções para quem quer se aventurar com trilhas ecológicas e esportes radicais”, afirma. Os aventureiros encontram albergues aconchegantes e diárias em conta. O valor varia entre R$ 25 e R$ 38 dependendo da época. Europeus e paulistanos com idade entre 17 e 30 anos são a maioria no hostel.

Na onda de tantos viajantes, uma coisa é certa: quem vira mundo, vira jovem. Ao se despir de tantos compromissos quadrados, na correria do dia-a-dia, o viajante resgata sua juventude, seu ímpeto de curiosidade e seu espírito de liberdade. Nem é preciso ter tanta grana, como provam as histórias narradas. É preciso ter coragem e virar o mundo. Se, por enquanto, não for possível estrear o passaporte – só é permitido se enredar sozinho por aí a partir dos 18 –, os jovens podem cruzar o Brasil, que já é um País continental, com diferentes culturas de Norte a Sul.