overmundo

A graça do português paulistano

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(P
ara Overmundo – 9/2009)


O português José de Oliveira Magalhães sorri com os olhos marcados por seus 77 anos e diz: “Sou um português com formação paulistana e um brasileiro nascido em Portugal”. Em 1950, ele cruzou o Atlântico e construiu sua vida no Brasil, na cidade de São Paulo, onde estudou Direito, casou-se e teve oito filhos. O sotaque português ficou perdido na história. Atualmente, ele é um dos diretores da Casa de Portugal, uma sociedade civil sem fins lucrativos que, desde 1955, visa preservar a cultura lusitana em São Paulo. “Conheço muitas coisas no mundo. São Paulo é única”, diz.

Para Magalhães, a metrópole de ares cosmopolitas faz pessoas de diferentes nacionalidades se sintirem em casa. Esses ares ventam diante dos olhos de quem, saindo da Casa de Portugal, na Avenida da Liberdade, se depara com um turbilhão de passantes de ascendência asiática, misturados a outros de traços europeus, africanos e hispanoamericanos. “Mas aqui, somos todos brasileiros”, diz o português.

A sete quadras da Casa está a Padaria Santa Tereza, na Praça João Mendes. A padaria é considerada a mais antiga de São Paulo, fundada pelas famílias portuguesas Vaz e Teixeira, em 1872. Há 13 anos, os herdeiros dos Vaz e Teixeira confiaram os pães e pastéis de Belém às mãos da família espanhola de Marco Maturana. “A Santa Tereza mistura a tradição de origem lusitana com as modernizações exigidas pelos novos tempos e pelo público paulistano que, mesmo com a correria diária, adora frequentar padarias”, afirma Marco.

Espalhadas pela cidade, as padarias podem ser pontos de encontro entre a cultura paulistana e a tradição lusa. Entretanto, há quatro anos na capital paulista, o publicitário português Hugo Veiga nota que, na cidade, “estranhamente, há bairro italiano e japonês, mas não existe um bairro português”. Para Hugo, os traços mais marcantes da cultura lusitana no cotidiano paulistano ficam por conta da arquitetura e da culinária, “isso sem falar nas ‘padocas’”, lembra ele.

A portuguesa Teresa Morais é uma dos 213 mil portugueses que se despediram da “terrinha” para vir ao Brasil, segundo dados de 2007 do Observatório da Emigração de Portugal. Teresa, que diz adorar a “vida cosmopolita”, se mudou para São Paulo, pois “começava a suspeitar que Lisboa era uma cidade muito pequena” para ela. Teresa conta que a pergunta mais curiosa que lhe fizeram foi: “Os seus pais são padeiros?”. “E, infelizmente, não era piada”, lamenta. Nas piadas contadas por brasileiros, a padaria e a inteligência questionável são o calcanhar de Alquiles dos portugueses. Magalhães considera que a relação lusitana com a panificação é histórica, pois os colonizadores portugueses cá introduziram a tradição do pão francês, e daí viriam as gracinhas com o “portuga da padoca”. Quanto às brincadeiras sobre a inteligência suspeita dos portugueses, Magalhães lembra que, ainda na época colonial, “era a elite letrada portuguesa no Brasil que dizia que os outros portugueses, analfabetos, eram burros”. E Teresa acrescenta que “a tendência para fazer piadas sobre portugueses tem origem na geração filha de Salazar, que veio ao Brasil sem nada, apenas com o desejo de trabalhar; uma geração que nunca tinha ido para além da aldeia esquecida, de um Portugal rural”.

Mas enquanto no Brasil há piadas de português, “na França, há muitas piadas de belgas; na Alemanha, as piadas se referem aos alemães do norte e assim por diante. E todas têm em comum colocar esses grupos na posição de pouco inteligentes”, considera a historiadora Verena Alberti, do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas (FGV), autora de O riso e o risível na história do pensamento (Jorge Zahar Editor, 2002). Segundo Verena, “não podemos esquecer que a piada é contingente e política; uma piada sobre judeus, por exemplo, pode não ser ‘somente uma piada’”.

O historiador Elias Thomé Saliba, professor da Universidade de São Paulo (USP) e autor de Raízes do Riso (Companhia das Letras, 2008), destaca que as piadas sobre portugueses se relacionam à colonização do Brasil: “As piadas criam uma espécie de vingança dirigida ao colonizador”. Para ele, “o humor étnico usa estereótipos e costuma ser criticado, mas reafirma uma característica do humor que está presente em qualquer tipo de anedota, que é a rivalidade entre grupos”. Entre piadas inocentes e sátiras mais maldosas, a persistência desses estereótipos na sociedade contemporânea mostra que um quê da rivalidade entre Brasil e Portugal do passado continua presente.

No Brasil desde abril de 2008, a lisboeta Ana Filipa Garcia diz que, entre seus amigos portugueses, “ninguém entende a ideia de que todo português é dono de padaria e de que o português é burro, porque nada disso corresponde à realidade”. De brasileiros, Ana ouviu acusações como: “Vocês vieram, mataram, estupraram nossas índias e levaram nosso ouro”. “Isso é verdade? É. Seria diferente se fosse colonizado por espanhóis ou ingleses? Não”, responde ela. Querelas à parte, Ana é casada com um brasileiro: “Eu vim por amor. Não me arrependo da minha decisão e não pretendo voltar a morar em Portugal tão cedo”, ela afirma.

A brasileira Rubia de Oliveira fez o caminho inverso ao de Ana, endossando a lista de mais de 147 mil brasileiros em Portugal, de acordo com a estimativa de 2008 do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. “Eu me apaixonei por um ‘portuga’ e cá estou no Porto”, diz. Sobre as piadas, os comentários que Rubia ouviu foram um pouco mais ácidos: “Meus amigos portugueses me disseram que eles são tão burros que o Brasil pertenceu a eles por um bom tempo e que vivem em um país de Primeiro Mundo, e os brasileiros, tão espertos, vivem em um de Terceiro”. Por outro lado, Teresa acredita que os portugueses não fazem muitas brincadeiras com a nacionalidade brasileira: “Toda a gente me pede anedotas sobre brasileiros, mas não temos! A única que ouvi, e que uso para minha defesa, foi dita pelo ator português Ricardo Pereira: ‘Por que é que não há anedotas de brasileiros? Porque são todas verdadeiras’”, brinca.

De piadas infames a chistes espirituosos, a graça do português paulistano talvez se mostre por essas contradições engraçadas: o portuga da padaria é espanhol e o pão é francês; a Casa de Portugal fica na Liberdade, bairro japonês; uma brasileira apaixonada foi amar na terrinha além-mar; uma portuguesa apaixonada veio se tornar paulistana. Ora pois, curiosidades que podem não arrancar risos, mas garantem um sorriso.

Comments:

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s