overmundo

Uma metrópole viciante, miserável e esplendorosa

Por Juliana Sayuri
De São Paulo
(P
ara Overmundo – 9/2009)

Como todo bom paulistano de coração, Sylvio Floreal não é da cidade. No papel, era Domingos Alexandre, santista nascido em data incerta entre 1862 e 1863. No entanto, no papel-jornal assinava Sylvio Floreal, cronista notívago da São Paulo em transe modernizante de 1910 a 1929, ano de sua morte. Por noctambular à margem da high society e ter a obra ofuscada pelo brilho dos modernistas de 22, Floreal foi um outsider do jornalismo e da literatura. Assim como ele, “vários escritores foram escondidos sob tapete do cânone literário, relegados ao esquecimento”, lamenta Marcelo Bulhões, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) que desde 2003 se debruça sobre a obra de “cronistas urbanos do submundo”, como João do Rio, Sylvio Floreal e Benjamin Costallat.

Em contraponto às benesses da abrupta modernização paulista, “as reportagens de Floreal retiram o manto daquilo que a história oficial tentava ocultar. A obra aponta para um profundo abismo social e para o caráter perverso e excludente da modernização de início do século 20. Não queremos encarar o teatro das misérias humanas”, analisa Bulhões. Às vésperas do 450º aniversário de São Paulo em 2004, Floreal foi resgatado com novas edições do livro Ronda meia-noite: vícios, misérias e esplendores da cidade de São Paulo (1925), pela Boitempo Editorial (2002) e pela Editora Paz e Terra (2003), na tentativa de retirar das sombras o que eram assombrações à margem de uma metrópole em construção. Assim Floreal mergulha na Paulicéia, onde fervilhavam “os seus bairros sórdidos, as suas suburras, os seus subterrâneos”, palavras cristalizadas na Ronda. E desse mergulho emerge o retrato da cidade: “São Paulo! És a Cidade-Esperança, a convergência das audácias, a vitória milagrosa das improvisações”, ele escreve na página 15 da obra.

Na sua ronda noturna, o repórter incorporava a alma de um flâneur, “um caminhante desocupado das cidades, um andarilho urbano que caminha sem rumo, ‘preparado para o acaso’, interessado no fortuito, no que a vida febril – agitada, rica de situações, das grandes cidades – tem a oferecer”, descreve Bulhões. Nas andanças por São Paulo, a “feira de desejos insolentes, alvorada cosmopolita”, a “quermesse de povos” segundo sua Ronda, Floreal perpassava as veias do centro histórico, coração paulistano: as “casas de vício”, como cassinos e cabarés na esplanada do Teatro Municipal e nos braços do Viaduto do Chá; o esplendor dos novos ricos no triângulo histórico com vértices nas Ruas 15 de Novembro, Direita e São Bento e o glamour dos cinemas; as amarguras e mazelas nas “tavernas pestilentas” nas Ruas 25 de Março, Quintino Bocaiúva e “outras travessas escuras e fedorentas”, nas palavras do escritor. Isso era São Paulo. E mais.

Ronda revisitada
Morto há 80 anos, Sylvio Floreal não pôde acompanhar o desenrolar da metropolização paulistana, mas outros flâneurs viriam, ainda que sem estampar no jornal suas impressões ziguezagueantes. Muito do que Floreal não viveu, pôde viver Adauto Fernandes Oliveira, ourives piauiense de 70 anos “desde sempre” paulistano. “Vim para São Paulo por causa de sonho”, conta, rodeado por amigos grisalhos, que também adotaram São Paulo como madrasta com carinho de mãe. Diariamente a confraria de amigos de décadas se reúne na Praça da Sé. Ali viram bondes, bailes, trólebus, cinemas, construções, obras do metrô, movimentos artísticos, manifestações políticas como as Diretas Já, batuques boêmios depois do expediente e pregações evangélicas de expediente sem fim. Adauto morou por 35 anos nas redondezas da Sé, atualmente reside em Santana, mas “vive” no centro histórico. “Minha filha, eu beijo esse solo”.

A jornalista Ana Maria Ciccacio, de 57 anos, é paulistana da Pompéia e assessora de imprensa da Associação Viva o Centro. Ana fez sua própria ronda entre 2001 e 2003, perambulando das 10 horas da noite às 5 da manhã todo o centro histórico ao lado do fotógrafo Jesus Carlos. A partir da Rua Líbero Badaró, a trilha incluiu a Praça da República, as Avenidas São João e Ipiranga, muito movimentadas e com luzes vibrantes de bares e call centers 24 horas. Às 2 horas da madrugada, eles atravessaram o deserto da Rua Barão de Itapetininga e do Viaduto do Chá e “não tinha uma alma viva na Rua Direita”, lembra Ana. Assustada com a escuridão, ela brincava com o amigo: “E agora? Jesus me salva! Onde está a luz?”. Ana saiu sem um arranhão dessa aventura, e com um caminhão de histórias para contar.

Poucos passos mais adiante, eles se surpreenderam com a movimentação intensa de almas vivas na Praça da Sé, entre moradores de rua conversando, policiais rondando e funcionários da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) com uma cisterna aberta, “trabalhando como se fossem 3 horas da tarde”, diz. E perto do Mercado Municipal, a sinfonia de cheiros e cores das frutas, legumes e especiarias davam o tom ao vaivém ininterrupto. No fim, Ana acredita que São Paulo não para nunca: “não é nem um vício, nem uma virtude. Mas a cidade não pode parar”.

Ela nunca publicou as reportagens: “não era a hora”, suspira. Sua imersão se impregna com o espírito da obra de Floreal que, para Marcelo Bulhões, seria “olhar para a cidade e ver o que o discurso oficial e a nossa ‘boa vontade’, muitas vezes cínica, tenta ocultar e desviar. Afinal, os albergues, os cantos apinhados de mendigos, a escória humana, os moradores de rua, os bêbados continuam aí. Estão conosco, em nossa cidade”.

Há continuidades e transformações no centro de São Paulo. O ar encizeirado da noite permanece, mas durante o dia o movimento assume novos perfis, bem diferentes dos que se viam nos anos 20. Os “inferninhos” lascivos migraram com seus néons para a Rua Augusta, os botequins pipocaram em todos os bairros da cidade, o charme cosmopolita e o centro financeiro foram para a Avenida Paulista. Hoje, vitrines cintilantes com badulaques high tech dividem espaço com imponentes prédios históricos; fashionistas descem a 25 de Março com sacolas de bijus sem grife, enquanto mortais desfilam camisetas com brilhantes que Dolce & Gabanna nunca desenharam; engraxates esperam sapatos passando o tempo com MP3 e engravatados elegantes se acotovelam no ônibus popular; idosos andam pendurados no celular e jovens buscam relíquias literárias nos sebos empoeirados. Com todas as suas contradições, a metrópole é viciante, miserável e esplendorosa ao mesmo tempo. Isso é São Paulo. E muito mais.

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