overmundo

Vidas na caderneta

Por Juliana Sayuri
De Araraquara (SP)
(P
ara Overmundo – 12/2008)

O convite era breve: o dia 23 de outubro de 2007 marcaria a visita do cronista Ignácio de Loyola Brandão à Araraquara. Tão sucinto era o convite impresso em verde-floresta que na pequena cidade paulista, carinhosamente citada como “morada do sol”, estava relativamente difícil adivinhar se o evento se realizaria na Avenida Dom Pedro II ou na Rua São Bento, duas sedes do Clube Araraquarense. Apesar da incerteza, as solitárias luzes natalinas e o silêncio nas redondezas da Rua São Bento foram uma bússola para encontrar o caminho certo para o evento: a Avenida Dom Pedro II estava badalada nessa data, com personalidades locais e vestidos de festa.

Na entrada do clube, o alvoroço talvez não justificasse o convite com os simples dizeres: “Como trabalha o criador literário”. Pode-se dizer que a justificativa para o frisson era vã, porque a palestra de cunho literário que Ignácio ministraria às 21 horas era oferecida a convidados da alta sociedade araraquarense e principalmente a profissionais de ciências médicas correntistas do Sistema de Crédito Cooperativo, o Sicredi. Mas, a boca-livre e a presença ilustre de um jornalista vindo lá da capital bastaram para que a sala social ficasse em polvorosa. A trupe de promoters conferia o nome dos convidados em uma preciosa lista de sobrenomes importantes da cidade e, com um sorriso, os encaminhava a uma mesa.

As mesas não eram reservadas, mas às 21:10 era impossível obter uma cadeira próxima ao palco. Entre os convidados, o social e o esporte fino preponderaram e até as crianças vestiram mini-gravatinhas e laços de fita. Só uma senhorita vestia o duo jeans e all-star e trazia um gravador analógico em punho e uma caderneta carcomida. Nas mesas, todos vislumbravam um só motivo decorativo: simplicidade com ares de elegância. A fragilidade das taças, por exemplo, contrastava com a modéstia da água embalada em copos de plástico de 500 mililitros. O vermelho sem verde dos morangos murchos se misturava aos das rosas em tigelas de vidro e os amendoins amanhecidos criavam volume entre frestas e vácuo de raras e nobres castanhas de caju. O coquetel – de fato e com direito a comida e aperitivos – teria início somente após as palavras de Ignácio de Loyola Brandão.

Deixe estar
O palco do clube foi fantasiado de “sala de estar”. Um sofá branco, uma mesa de madeira e uma orquídea branca, um criado-mudo e um abajur compuseram o cenário de “bem-vindo de volta, Ignácio, sinta-se em casa”. Contudo, o contraste com esse ambiente íntimo e familiar se dera com uma mobília disposta ao centro do palco: uma cadeira chique, de madeira talhada e encosto alto, fazia as vezes de um trono destinado ao cidadão benemérito de Araraquara.

Às 21:26, um homem de jeans e paletó subiu ao palco. Sequer mencionou seu próprio nome, porém por dez breves minutos introduziu o currículo do colunista d’O Estado de S. Paulo presente. A data de nascimento de Ignácio de Loyola Lopes Brandão foi a primeira referência: dia 31 de julho de 1936. Na seqüência, o apresentador enumerou os primeiros passos do escritor com as letras: Ignácio passou pela escola primária de D. Cristina Machado, estudou com a professora Lourdes de Carvalho, estudou no Colégio Progresso e cursou o ginásio na Escola Estadual Bento de Abreu.

A 1956, Ignácio se mudou para São Paulo, com a conquista de um trabalho no Última Hora. No jornal, ele cumpriu com as atividades de repórter, colunista e editora de variedades até 1965. A editora Abril abriu as portas da revista Cláudia para Ignácio em 1966 como redator. Na década de 70, Ignácio atuou na revista Realidade, na Planeta e na editora Três. Suas produções literárias, perpassando as décadas de 70 até o presente, ultrapassam a marca de 20 livros, tendo edições traduzidas para sete idiomas. Em 2005, Ignácio comemorou o sucesso com 40 anos de carreira e, em abril de 2007, conquistou a cadeira 37 da Academia Paulista de Letras. Após o discurso inicial, o apresentador delicadamente curvou as costas e movimentou o braço esquerdo, quase como uma reverência, dizendo: “Com a palavra, o nosso querido Ignácio de Loyola Brandão”.

O público, a aplaudir efusivamente, manifestou seu carinho por aquele senhor, vestido de preto e azul marinho, portando ralos cabelos brancos e sobrancelhas brancas delirantes. Suspirou e disse: “Novembro de 1956. Meus últimos meses em Araraquara”. Para quebrar o gelo inesperado com a atmosfera de seriedade intelectual que imperou por um minuto na platéia, Ignácio iniciou sua palestra contando causos de sua infância na cidade. De repente, do humor ao drama, o palestrante se emocionou e de uma vez revelou: “É um momento comovente para mim. Porque olho aqui à direita e vejo uma pessoa que, sem ela, eu não estaria aqui. Sem ela, eu não saberia escrever uma linha. Sem ela, eu não seria nada. Poucas pessoas podem chegar à minha idade, 71 anos, e contemplar a sua primeira professora, sentada à sua frente e dialogar com ela. Aqui está a Lourdes, que me ensinou a ler e escrever”.

Ao lado de Lourdes, muitos amigos de infância de Ignácio estavam na platéia. E para seduzir os espectadores com um gracinha, Ignácio contou o causo dos bilhetes – o “correio elegante” em sua meninice, o “torpedo” dos tempos modernos, ilustrou. Há muito tempo, uma vez deram a Ignácio um bilhete brincando que, se enquanto ele estivesse discursando, as pessoas começassem a se movimentar, é porque queriam se acomodar para ouvi-lo mais atenciosamente. Se elas começassem a olhar o relógio, “é porque estão gostando tanto, mas tanto, que acharam que a hora passou”. Se elas se levantarem e saírem, é porque estão adorando e vão convidar mais pessoas para ouvir. A princípio, esta conversa de chapeuzinho vermelho e lobo mau provocou risos sinceros na platéia. Mas aí a anedota teve fim quando Ignácio disse que lá estava entre amigos e que “esses, sim, vão ter que ficar” sem escapatória. Ninguém riu.

E aí conquistado o silêncio, Ignácio partiu para sua palestra propriamente dita. Ele recordou os anos de 1950, época em que lia muito críticas de filmes, mas não tinha muito dinheiro para ir ao cinema. Justamente, tornou-se crítico para poder ir ao cinema todas as noites. Esse foi o trabalho que o impulsionou para a carreira na imprensa. Atualmente, ele se considera um romancista e um contista, mas “eu sou, fundamentalmente, um cronista”, pontua. Para ele, “a crônica é um recorte de um instante de uma cidade”. E o silêncio de etiqueta foi rompido por um celular esquecido e uma criança mimada, mas Ignácio continuou sua conferência: “Inspiração? Para mim, não existe”, disse contrariando o subtítulo impresso no folhetim da palestra, “Inspiração existe!”. O escritor disse que seu método de escrita é simples: ele anota numa caderneta todas as histórias que se desenrolam ao seu redor, no cotidiano, na cidade. Histórias prosaicas ou extraordinárias, curiosas, que um dia darão uma pirueta do livreto rabiscado até páginas impressas.

Ignácio deve ter logo notado que não poderia teorizar muito sobre o processo criativo literário. Assim, o palestrante foi oscilando entre causos cômicos e triviais que posteriormente se transformaram em contos e crônicas, que decoraram jornais e livros. Dentre os causos mais tolos, os médicos se esbaldavam em risadas. E diante das estórias mais perspicazes, poucos se manifestavam. Há quem aposte que uma sabatina intelectual de artilharia pesada se daria mesmo é com estudantes de Letras da Universidade Estadual Paulista, cujo campus se situa em Araraquara.
Nesse ritmo descompassado, Ignácio conduziu seu discurso, bem mais focado em suas memórias – especialmente as relativas à cidade – do que em sua obra literária. O escritor contou que o primeiro livro lido em sua vida foi “Branca de Neve”, mas que detestava os sete anões. Na escolinha pediram à turma de Ignácio reescrever criativamente um livro como dever de casa. O destaque para a criatividade de Ignácio era inevitável porque, em sua redação, a princesa Branca de Neve colhia cogumelos no bosque para cozinhar um creme para os anões, que morriam envenenados. “Literatura é vingança. Entre aspas”, ele justificou.

Para o autor, a expressão literária é um modo de extravasar, de imprimir no papel sua vingança contra uma sociedade injusta, contra as imperfeições humanas, contra os inimigos imaginários e reais, e as alusões a Dom Quixote de Cervantes e a Otelo de Shakespeare não poderiam ser melhores. Na escola, todos o admiraram por essa história de Branca de Neve sinistra. Ainda sobre sua infância, Ignácio contou que seu divertimento era ler dicionários. E nos idos de 1940, o pai de Ignácio mantinha uma biblioteca em sua casa, de 800 a 900 volumes, sendo seu lugar preferido para estudar e desvendar vocábulos. Lia verbetes e, com eles, por balas, chiclete, tampinha fazia o dever de casa dos amigos. Daí a idéia do livro infantil “O menino que vendia palavras”, que Ignácio publicou no ano passado.

Quase ao fim da palestra, Ignácio narrou um episódio triste de sua vida de 1996. Por três dias, ele estava sentindo tonturas e fortes dores. No terceiro dia de mal-estar, a esposa deu o ultimato: “Pára de história e vamos para o médico”. Os doutores ali presentes visivelmente se interessaram por essa história, franzindo os olhos como quem está prestes a revelar um diagnóstico surpreendente.

O médico de Ignácio pediu para que ele fizesse uma ressonância para examinar a circulação de seu cérebro. O convênio acatou o pedido e após poucos dias Ignácio saía de um laboratório. Ele entrou em um táxi e indicou o destino, o consultório do médico. “Como todo o mundo faz”, disse ele, “eu abri o exame”. Dizia: “Possibilidade de um aneurisma na artéria cerebral direita”. Ignácio sabia que se tratava de uma má notícia, mas o motorista do táxi se virou e de surpresa arriscou: “Posso ler o exame? Eu sou taxista aqui da clínica, converso com todos os médicos, os laboratoristas. Eu sei ler exame”. Ele leu. “O senhor não tem nada”, sentenciou o taxista.

O médico de Ignácio disse que a descoberta de um aneurisma era um “prêmio de loteria” e que esse mal é extremamente silencioso. O ideal era a cirurgia, ainda que bastante arriscada, porque abriria seu crânio para clipar o aneurisma. A primeira resposta de Ignácio era previsível: “Ah, não, ninguém vai abrir nada, tenho medo de os personagens saírem voando, de as histórias escaparem, não”. Três dias de dor se passaram e ele mudou de idéia. Na sala de cirurgia, o anestesista buscava tranqüilizar o escritor: “Admiro o senhor, adoro os seus livros!”. Qual é o preferido? “A comédia da vida privada”, disse o anestesista. Ninguém da platéia riu.

Nesta ocasião, Ignácio fez o sabe fazer com maestria: contar histórias. Tantas, mas que com certeza constam nas 4.729 cadernetas que Ignácio já rabiscou.

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