observatório da imprensa

O flerte da mídia com a história

Por Juliana Sayuri Ogassawara
De São Paulo
(P
ara Observatório da Imprensa – 11/2008)

Barack Hussein Obama é história. A apoteose das eleições presidenciais norte-americanas foi cristalizada na história pela mídia internacional no último dia 5. A notícia, laureada como marco histórico nos Estados Unidos, foi devorada por famintos espectadores. Brian Stelter, do New York Times, destacou que na ilustre quarta-feira 5 de novembro, milhões de pessoas viram e reviram o discurso de vitória do democrata Barack Obama na internet. De acordo com o jornalista, “desde a noite de quinta-feira, o discurso havia sido visto 2 milhões de vezes no YouTube. O site CNN.com disse que o discurso foi assistido 1,7 milhão de vezes em seu site, e o MSNBC.com reportou 1,1 milhão de visualizações”.

A mídia impressa também alavancou suas vendas com a vitória de Obama. Expressos diários como Washington Post, New York Times, The Chicago Times imprimiram milhares de exemplares extras e, ainda assim, não puderam atender à imensa demanda do dia. Possuir um jornal com a notícia de Obama eleito simboliza a posse da memória eterna de um capítulo da história. Tão importante seria ter essa notícia emoldurada na primeira página do jornal que na ainda quarta-feira já havia oferta de exemplares deste New York Times por 850 dólares no mercado eletrônico e-bay.

Entre o real e o virtual
A aura de “notícia histórica” nesse desenlace das eleições norte-americanas nos atrai para relevantes questões acerca das representações simbólicas construídas em torno da figura mítica de Barack Obama. Por enquanto, ainda sem posse nem transição, a atuação política de Obama na presidência iça altas expectativas. Por enquanto, é ainda um fato muito mais simbólico do que político. É ainda um fato muito mais midiático do que histórico. Teóricos poderiam se deliciar com o arsenal de representações sócio-culturais e históricas construídas sobre Barack Obama. Futuras dissertações e teses poderiam pôr em relevo o espectro que a mídia internacional arquitetou acerca do presidente estadunidense recém-eleito. Estudos assim seriam de extrema importância para a compreensão das relações imbricadas entre a mídia e os políticos, no que diz respeito aos impactos da comunicação na esfera política.

Esqueça a balela de que o jornalismo é a história do tempo presente. Jornalistas e historiadores têm diferentes olhares sobre os acontecimentos. Dizer que o jornalismo está tecendo a história é superestimar o poder de fogo da mídia. O jornalismo narra os fatos e um dia a história os fará história.

Esqueça ainda a idéia de que o jornalismo está comprometido com a verdade. O jornalismo minuta, interpreta e reconta a realidade parcial que viu. Logo, a mídia é uma matriz de contínua construção da realidade, isto é, a partir dela se ancoram determinadas perspectivas. Mediante a comunicação midiática, os fatos são interpretados, traduzidos e reinterpretados, adquirindo valor e transformando-se em representações. Um produto? Sim, mas vale sublinhar que não se trata do sentido meramente apocalíptico e maniqueísta da idéia.

Obama é humano, reles mortal composto de carne e osso, pele “bronzeada”, diria o infame Silvio Berlusconi, mas com boa dose de carisma, bom discurso, ideais e valores, propostas políticas para o futuro dos Estados Unidos. No entanto, contando ainda com os aditivos acrescentados pela imprensa mundial, Obama é ouvido, aplaudido, criticado, analisado, interpretado, reinterpretado, valorizado, ora hiper-valorizado, até o ponto em que sua figura se torna um mito. Produto? Obama é real e, simultaneamente, é virtual.

Apoio de 170 publicações
Enquanto as análises minuciosas ainda não são realizadas, o espaço está aberto para rascunhar o que foram tais representações na mídia até o momento. Por ora, são apenas provocações que podem suscitar inquietações intelectuais para um estudo mais denso. A respeito de sua “identidade”, quantas vezes a trajetória de sua família não foi revisitada? Quão re-delineados não foram seus laços com muitos pontos do planeta, as raízes do avô paterno no Quênia, o avô materno no Kansas, os pais casados no Havaí, o padrasto da Indonésia? Assim, também foi exaustivamente narrada sua trajetória intelectual e política: Ciências Políticas na Universidade de Columbia (1983), Direito na de Harvard (1991), senador do Estado de Illinois (1997-2004), senador dos Estados Unidos (2004-2008). O que tudo isso quer dizer? Que Obama, 47 anos, é “um inventor de si mesmo”. Sua trilha pessoal se desvia do que se tem como arquétipo de história de vida “tradicional”, dando-lhe um ar, entretanto, não de aventureiro, mas de superação de obstáculos e de vitória.

Barack Obama é negro. Ou melhor, “marrom”, como ele disse. Seu pai era negro, originário do Quênia, e sua mãe era branca, nascida no Kansas. No entanto, para o bem ou para o mal, em termos de táticas de campanha eleitoral, Obama não apelou sequer um momento para a questão étnica para sensibilizar os civis afro-descendentes. Ainda assim, a cor da pele do candidato não é um fator a ser esquecido. É expressivo, especialmente na mídia, o fato de Obama poder ser o possível primeiro presidente negro em um país tão lamentavelmente marcado pelo racismo.

Invariavelmente, a mídia não o desvinculava de sua cor, reiterando a cada notícia o fato de Obama ser negro e, o mais surpreendente, poder se tornar o primeiro presidente negro eleito nos Estados Unidos. Por sua vez, Obama não fez de sua cor uma chapa política para cooptar votos de movimentos civis de afro-descendentes, aliás, um dos marcos de sua campanha foi a declaração: “Não há uma América liberal ou conservadora, uma América branca ou negra, há os Estados Unidos da América.” Nas entrelinhas: Obama pretende governar o país “para todos”. Qual é o impacto disso?

Além do diferencial multi-étnico, é notável o modo pelo qual a internet participou da ascensão meteórica da identidade do senador Obama, culminando no que se designou como o fenômeno Obamania. Um perfil publicado na BBC Brasil aponta Obama como uma “estrela”, o “queridinho da mídia”, uma “celebridade política”. Se, por um lado, esse tipo de referência com ênfase na popularidade do carismático Obama soou irônico, desvalorizando ou desdenhando sua competência política, por outro, corroborou a notoriedade de Obama e a novidade que ele representa.

A ilustração de Shepard Fairey ficou famosa na campanha “não oficial” de Obama. Era um pôster colorido à la Andy Wahrol, com a palavra “Hope”, isto é, esperança. No circuito da moda, será que Obama é o novo Che Guevara?

Durante as eleições, posicionaram-se a favor ao candidato democrata a pré-candidata pelo Partido Democrata Hillary Clinton, o ex-secretário de Estado Colin Powell, os cineastas Oliver Stone e Woody Allen, entre muitos outros. Principalmente a partir de outubro, a mídia internacional passou a declarar apoio ao candidato democrata, entre eles The Economist, Washington Post, The New York Times, The New Yorker, Esquire, Los Angeles Times, totalizando cerca de 170 publicações pró-Obama.

“Mudança: Sim, nós podemos”
Para o jornalista Adam Nagourney, do New York Times, a campanha presidencial de Obama ultrapassou os contornos do “tradicional”, alterando as táticas para abordar os eleitores, alinhar os apoiadores, angariar fundos e ainda “lidar com a mídia, identificar e moldar a opinião pública e desfechar – e suportar – ataques políticos, incluindo muitos realizados por blogs que quatro anos atrás não existiam”, diz Nagourney. Para o jornalista, as mudanças refletem uma transformação cultural nos eleitores, formando “um público que é ao mesmo tempo mais informado, mais cético e que, com base no que se lê nos blogs, às vezes dissemina boatos e informações suspeitas. Como resultado, esse novo eleitorado tende a questionar mais aquilo que as campanhas lhe dizem e usam a web com freqüência para verificar se as informações são verdadeiras”.

Até este ponto, há duas características marcantes na personalidade de Obama avalizada pela mídia: sua identidade de traços multifacetados e seu caráter inovador. Características marcadas a ferro pela mídia, tantas foram as repetições e suas variáveis. Na ótica da mídia caleidoscópica, capaz de mesclar política internacional, novela e futebol em um só quadro, ou página, Obama assume as facetas de homem intelectual, jovem, negro, plural, inovador e representa, em última análise, sua proposta política: a mudança. O slogan de sua campanha não poderia ser outro: “Mudança: Sim, nós podemos”. Ainda nessa linha, o historiador Timothy Patrick McCarthy, de Harvard, considera que a ascensão de Obama “de um candidato novato no Senado para um presidente eleito em apenas quatro anos, é o fato mais marcante na história política moderna americana”. O apoio não é suspeito simplesmente porque é declarado, pois McCarthy foi conselheiro na campanha do democrata.

Aí entra mais uma importante questão: a polarização entre democratas e republicanos nos Estados Unidos. Com o fantasma de George W. Bush a assombrar a figura do candidato republicano John McCain, Obama representava uma vez mais a possibilidade de mudança. Herdar o país assolado pelo governo Bush seria o desafio para o futuro presidente. No editorial intitulado “Por que torcer por Obama”, Le Monde analisa o peso dessa herança maldita: “No plano externo, a América nunca foi tão detestada, a um ponto jamais visto em toda a história: atolada em duas guerras, no Iraque e no Afeganistão, que não parecem ter fim, ela carece de todo crédito moral e político. No plano interno, os Estados Unidos estão pagando muito caro pelas destruições provocadas pelo liberalismo financeiro, uma derrocada que alcançou seu ápice com a presidência de George W. Bush, e que resultou numa crise econômica de grande dimensão.” Ainda ressaltou: “Além disso, enquanto o Estado de bem-estar social regrediu, o Estado policial, por sua vez, progrediu: em nome da luta contra o terrorismo, as liberdades públicas registraram uma decadência sem precedente.”

Durante as eleições, não faltou quem apontasse McCain como claro sucessor de Bush, relacionando-o à sua turbulenta, senão odiosa, administração. Obama lucrou com esse atrelamento entre os dois republicanos, despontando como o último fio de esperança para os americanos.

O desfecho das eleições foi o esperado: no dia 4 de novembro último, o senador Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos, com participação recorde do eleitorado jovem. No seu discurso de vitória, disse: “Se alguém aí ainda duvida que os Estados Unidos são um lugar onde tudo é possível, que ainda se pergunta se o sonho de nossos fundadores continua vivo em nossos tempos, que ainda questiona a força de nossa democracia, esta noite é sua resposta. […] Somos, e sempre seremos, os Estados Unidos da América. […] É a resposta que conduziu aqueles que durante tanto tempo foram aconselhados por tantos a serem céticos, temerosos e duvidosos sobre o que podemos conseguir para colocar as mãos no arco da História e torcê-lo mais uma vez em direção à esperança de um dia melhor.” É considerável aí o tom esperançoso e poderoso do discurso de Obama que, assim como outras declarações suas, valeria intensas análises.

Recapitulando as principais representações do presidente eleito Barack Obama: pluralidade cultural, inovação eleitoral, expectativa de renovação política. Essa persona foi construída dia-a-dia durante as eleições.

No dia 5 de novembro, era impossível escapar ao lead jornalístico “Obama é o primeiro presidente negro dos Estados Unidos”, publicado em todas as suas possíveis variantes. “Ele faz história como o primeiro negro a presidir os Estados Unidos”, dizem. Para a France Presse, “o mundo se reapaixonou pelos Estados Unidos depois da vitória de Obama”. McCain foi notícia apenas por admitir a derrota eleitoral e parabenizar a tão esperada e ovacionada vitória do democrata.

McCarthy pondera que é preciso dar à vitória o real peso que ela merece. Diz ele: “Depois da vitória histórica de Barack Obama na eleição presidencial americana, há duas questões na mente de todos: como isso aconteceu? E o que isso significa? A primeira questão é agora, principalmente, uma tarefa para historiadores, jornalistas e cientistas políticos debaterem.”

Os jornalistas não desvirtuaram a notícia. Durante sua campanha, Obama se desviou e insistiu em não propagar sua imagem intrinsecamente relacionada à sua cor. De nada adiantou, uma vez que a maioria da mídia divulgou, propagou, espetacularizou a imagem da conquista como a vitória do “primeiro presidente negro”. As pinceladas de cor da mídia, se antes eram tímidas, tornaram-se vibrantes.

Três tempos
Atualmente, pululam analistas querendo dizer o que podemos esperar do governo Obama. Pouco antes das eleições, John Vinocour do Herald Tribune, disse que se eleito Obama poderia decepcionar seus fãs europeus: “A idéia de que a Europa realmente ouve tudo o que Obama tem a dizer remete a outras questões. Eu não descobri nenhuma pesquisa que sustentasse a teoria, mas suspeito também que os europeus praticamente não fazem idéia de que Obama aceita a pena de morte e não lutará pelo controle de armas, dois eternos pecados norte-americanos, sob a ótica externa.” O que isso quer dizer? Apesar de tudo, os Estados Unidos continuam sendo a maior potência mundial, de tal modo que o novo presidente norte-americano é interesse de muitas nações, inclusive o Brasil. Por meras especulações, por simples curiosidade, por questões de política externa e questões econômicas, isto é, por uma infinidade de motivos, os posicionamentos de Obama repercutem no mundo. Isso mantém aberto e fértil o campo para análises acadêmicas acerca do homem-história Obama. Antes de ser eleito, por sua campanha e pelo que a mídia atribuiu à sua campanha; durante a eleição, no ínterim de 4 a 5 de novembro, pelo significado de sua vitória eleitoral e pelo rol de significados da notícia emblemática de sua vitória histórica; e depois da eleição, o que virá e como a mídia se comportará diante das ações do presidente negro, como ela sempre nos lembra.

Barack Hussein Obama une as três dimensões temporais: ele é passado porque sua vitória mesmo antes de consumada tem ares de história. Ele é presente porque está na mira da mídia todos os dias. E é futuro porque sua tão prometida mudança se dará no futuro. Após a vitória de Obama, pessimistas e otimistas de toda a sorte se debruçam como videntes sobre o que será da administração do democrata na Casa Branca. Depois da festa é que se lembram de que o fim das eleições é só o início.

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