observatório da imprensa

O que fizemos de nós… E o que faremos no presente

Por Juliana Sayuri Ogassawara
De São Paulo
(P
ara Observatório da Imprensa – 11/2008)

Atualmente, a imprensa alternativa faz falta no mercado editorial. Não, a ausência não é só de publicações da imprensa alternativa, posto que talvez a mídia alternativa ainda resista, sim, e acastele seu espaço próprio, especialmente simbolizado por centros de mídia independente online, por blogs e mais blogs proliferados no ciberespaço e por pontuais publicações impressas, norteadas mais por ideais e princípios sócio-políticos e culturais do que por ambições megalomaníacas de arquitetar impérios midiáticos. Enfim, a ausência em questão é a lacuna aberta pela obra Jornalistas e Revolucionários: Nos tempos da imprensa alternativa, reeditada e publicada em 2003 pela Edusp.

Das críticas mais apocalípticas às expectativas mais otimistas em relação aos rumos da imprensa, um ponto é certo: a imprensa alternativa de Bernardo Kucinski faz falta de verdade, materialmente, nas estantes virtuais e nas prateleiras das livrarias e sebos. Os exemplares das duas edições estão se tornando raríssimos, o que poderia estimular uma nova re-impressão da obra.

Aos trancos e barrancos com a censura
Jornalistas e Revolucionários é a impressão vinda da arena acadêmica, tendo sido a priori a tese de doutorado de Bernardo Kucinski, orientado por Alice Mitika Koshiyama, na Escola de Comunicações e Artes da USP. A 19 de agosto de 1991, Kucinski expôs suas idéias sobre a imprensa alternativa no Brasil, no ínterim de 1964-1980 em que vigorava a ditadura. Dentre as idéias-mestras derivadas de sua pesquisa, destaca-se a importância dos experimentos jornalísticos da época como esferas de rearticulação de movimentos das esquerdas clandestinas durante o autoritarismo militar vigente no país.

Bernardo Kucinski revisita um dos mais férteis momentos da imprensa brasileira. Ele analisa a imprensa alternativa culturalmente florescente e intelectualmente fervilhante durante a ditadura militar, segmentando-a em duas classes, quatro estilos, cinco fases distintas, três vertentes. O autor compila histórias sobre as publicações presentes no “surto alternativo”, narrando sua gênese e sua causa mortis, as glórias e as discórdias dos protagonistas de tais histórias, articulando com maestria a variedade numerosa de projetos editoriais sob a égide da alternativa: resistir, discutir e proporcionar alternativas.

A imprensa alternativa criava – ou propiciava a criação – um espaço plural e contra-hegemônico. Tanto os impressos mais partidários e politizados, quanto as publicações mais satíricas, existenciais ou culturalistas, buscavam abrir espaços. Participavam dessa imprensa intelectuais e colaboradores de gerações que viveram a queda do nazi-fascismo e do Estado Novo; jornalistas e jovens ativistas, da matriz dos movimentos estudantis; e jornalistas recém-formados, os focas de 1970. Norteados por um espírito anti-capitalista, os colaboradores recusavam a perspectiva de sucesso nos moldes empresariais. A feitura do jornalismo era quase artesanal de tão amordaçada, aos trancos e barrancos com a censura prévia, as prisões e o exílio de jornalistas.

Reconstrução da história
Para ele, a época áurea da imprensa alternativa se deu entre 1975 e 1977. Durante os quinze anos de ditadura, 150 projetos de periódicos vieram ao mundo, uns tendo vida curta ou até curtíssima. Destes, apenas 25 jornais resistiram por um tempo maior. No entanto, o autor se desvia da resposta simplista de que a situação, que estava sob a tutela pelo Estado autoritário, era sua única razão de existir. A resistência era o princípio, e não o fim. O contexto da ditadura alimentou a elaboração de novos projetos editoriais, mas o que os nutria era muito maior do que a situação.

Assim, Kucinski considera imprescindível se pensar a questão do imaginário sócio-cultural, presente em cada fase do período ditatorial, abalizando novas motivações e articulação de seus protagonistas com a sociedade civil. Assim, os novos imaginários impulsionavam novas propostas estéticas e editoriais, diversificações temáticas, transmutando ainda o relacionamento dos jornalistas, ativistas políticos e intelectuais com os leitores. Para o autor, a partir de 1980, uma das principais causas para a dissipação da imprensa alternativa é o desmantelar de um imaginário sólido para perpassar as mentes dos atores do momento político de reabertura.

No prefácio, Kucinski diz que este livro pode ser lido como se fossem três livros. O “Livro I: Os protagonistas” delineia o mapa labiríntico em que a imprensa alternativa se iniciou e prosperou. O autor elucida as circunstâncias históricas que propiciaram despontar uma estirpe de jornalismo alternativo, contribuindo para a compreensão das relações imbricadas entre imprensa, partidos políticos, sociedade civil e Estado. Além de casos particulares, o autor cita ainda periódicos menos expressivos, como o Novo Jornal, de Londrina, o carioca Enfim, o Ex, os cariocas Politika e Crítica, entre outros.

O “Livro II: Os jornalistas” se debruça mais sobre casos do satírico O Pasquim, o estético Versus, o Coorjornal e o atrevido jornal Repórter. Nesse ponto, dá especial atenção para a história d´O Pasquim, seu sucesso e sua derrocada. Por fim, o “Livro III: Os revolucionários” se dedica a abordar os ideários políticos, os rachas e as trincheiras abertas por Opinião, Movimento e Em Tempo. Para sua pesquisa, Kucinski entrevistou muitos jornalistas que participaram desse momento histórico, angariou declarações e relatos importantes para a reconstrução dessa história do país.

Uma bússola teórica
Ainda não há obra a substituir a contribuição teórica de Bernardo Kucinski sobre esse assunto. As páginas de Jornalistas e Revolucionários transpiram histórias de ideais, de idéias mirabolantes, de resistência, de duelo injusto contra o poder hegemônico.
Para os contemporâneos do apogeu da imprensa alternativa, o livro é um túnel do tempo, repleto de informações precisas e preciosas sobre o que o passado ainda não sedimentou. A leitura pode trazer à tona pensamentos à la Zuenir Ventura em seu livro 1968: O que fizemos de nós. Visitar a obra escrita sobre a imprensa na ditadura é reviver e repensar de como foi feita a relação da imprensa com a realidade da época.

Para quem ainda não tinha sequer nascido quando a ditadura vigorava, resta a questão: O que faremos agora? Estudar a imprensa alternativa é prova viva de que um outro estilo de jornalismo é possível, um estilo mais liberto das amarras da imprensa-empresa que tem se consolidado nas últimas décadas. Assim, mais uma vez se vê explícita a importância de uma re-edição de Jornalistas e Revolucionários. Para o jornalismo praticado atualmente falta um sopro de vida de que a alternativa é possível. O passado pode ser exemplo para o presente.

O autor
Bernardo Kucinski tem graduação em Física pela Universidade de São Paulo (1968), doutorado em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (1991) e pós-doutorado pela University of London, na Inglaterra. Atualmente é professor titular da Universidade de São Paulo, no Departamento de Jornalismo e Editoração. Durante a ditadura, colaborou com os jornais Movimento e Em Tempo. Mais recentemente, publicou colaborações na Carta Maior e na Carta Política. O jornalista foi ainda assessor especial da Secretaria de Comunicação Social (2003-2006) da Presidência da República. É autor dos livros Jornalistas e Revolucionários: Nos tempos da imprensa alternativa (Editora da Universidade de São Paulo), O fim da ditadura militar, em co-autoria com Jaime Pinsky (Editora Contexto), Jornalismo na era virtual (Editora da Universidade Estadual Paulista) e Jornalismo econômico (Editora da Universidade de São Paulo), entre outros.

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