revista ocas

Por uma identidade hifenizada

Por Juliana Sayuri Ogassawara
De São Paulo
(Para Revista Ocas” – 9/2008)

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Os ventos que invadem a estação de metrô São Joaquim vêm em companhia de dezenas de “japoneses” e de puramente “brasileiros” – expressões estas que mereceriam várias aspas –, antecipando o que está por vir após as escadarias: um turbilhão de transeuntes que, cada qual a seu destino, entrecruzam a Avenida Liberdade e a Rua São Joaquim. Inúmeros são os motivos para a movimentação, mas o capital é o fato de estarmos em São Paulo, cidade pela qual transitam seres de várias cores e olhos. Além disso, os arredores da Rua São Joaquim comportam rotas importantes para o centro paulistano, hospitais e hotéis, escolas e faculdades. A presença de tais instituições faz misturar diferentes cores no dia-a-dia das vias urbanas. Quem disse que a Liberdade só atrai “turistas” e “brasileiros” na feira livre da Praça da Liberdade aos domingos? A partir do metrô, a caminhada de duas quadras na ladeira da São Joaquim desemboca no número 381. Quase na esquina, eis o Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil (MHIJB). Se jornalistas e guias turísticos insistem na idéia de que o bairro da Liberdade como um todo represente a comunidade nipônica no Brasil, esse alguém ainda não pisou os pés no Museu.

Logo na portaria, a palavra primeira marca a primeira impressão do ambiente: “Konitiwa gozaimasu” (“boa tarde”), dispara o porteiro todos os dias sem hesitar, inclinando polidamente a cabeça para frente. Nas manhãs de sexta-feira, é comum disputar espaço no elevador e nas escadas com as crianças que, falivelmente domadas pela monitoria da escola, vão visitar as exposições nos 7°, 8° e 9° andares do prédio. Enquanto o 4° e o 5° têm ares sombrios como os museus desamparados de filmes, há no iluminado 6° andar a Aliança Cultural Brasil-Japão, que atua como escola de língua japonesa e portuguesa. No misterioso 3° andar, as salas da Federação das Associações das Províncias do Japão no Brasil – Kenren e da Secretaria do Museu Histórico fazem surpresa aos não-iniciados, tendo em vista o desafio de se encontrar alguém que domine a língua portuguesa.

Às segundas-feiras, no 2° piso, é a vez das senhoras japonesas disputarem às cotoveladas espaço no guichê da Secretaria da Associação para Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil (ACCIJB) em busca das camisetas oficiais do Centenário. O calendário deste ano fez fervilhar visitas, cartas e citações assíduas à associação, entidade civil sem fins lucrativos, juridicamente constituída em 2003 pela Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e Assistência Social – Bunkyo. O frisson se justifica por 2008 simbolizar o arremate de um século desde o início da imigração japonesa ao Brasil. E enquanto eventos comemorativos pululam em muitos cantos do País, a capital paulista concentra sua maioria significativa, por vezes dissipando os atritos culturais ainda presentes entre a cultura brasileira e a cultura japonesa.

História viva
No livro A negociação da identidade nacional: Imigrantes, minorias e a luta pela etnicidade no Brasil, o antropólogo norte-americano Jeffrey Lesser conta precisamente o que a mídia não cansa de narrar como romance: “Na manhã de 18 de junho de 1908, o Kasato-Maru completou sua viagem de 51 dias e vinte mil quilômetros do Japão até o porto de Santos, trazendo às costas brasileiras os primeiros 721 integrantes do que viria a ser a maior colônia japonesa fora do Japão”. Dizem que os japoneses foram aventureiros, bravos e destemidos cruzando o mundo para aportar aqui.

Os imigrantes japoneses e os nikkeis participaram da construção de uma nova identidade. Mas é uma falácia pensar que as afinidades pudessem ser tão imediatas e espontâneas. Estima-se que o número de imigrantes japoneses que vieram ao Brasil totalize 250 mil pessoas – sendo 180 mil no período antes da guerra e 70 mil no pós-guerra. Atualmente, a estimativa alcança a marca de 1,5 milhão de japoneses e seus descendentes. Assim, não é de se admirar o peso que essa história viva representa às gerações que presenciaram a saga japonesa ultramarina.

Inebriada por esse espírito amistoso, a ACCIJB lidera as diretrizes das festividades do Centenário. O professor Kokei Uehara, presidente do Colegiado Administrativo, assina o discurso com os propósitos da ACCIJB: “Relembrar e homenagear a memória dos imigrantes pioneiros e manifestar extrema gratidão pela receptividade dos brasileiros e pelo feliz convívio com os demais imigrantes, a comunidade nipo-brasileira se reúne em 2008 para comemorar o Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. Vamos trabalhar juntos para a realização de uma festa memorável em 2008, simbolizando a paz, a união e o respeito entre dois povos e duas nações irmãs: Brasil e Japão”.

As palavras otimistas são belas e politicamente corretas, mas o tom camufla contrastes agudos no encontro das culturas. Aliás, de acordo com o professor Koichi Mori, do Departamento de Línguas Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), não poderíamos falar de uma cultura japonesa no Brasil. O que há, na realidade, é o segmento de uma cultura brasileira de inspirações nipônicas. A diferença é sutil, mas faz toda a diferença.

Abra os olhos às diferenças
No movimento contínuo nos corredores da ACCIJB, há brasileiros que, em visita à Secretaria, não pronunciam uma sequer palavra em português. Há um quê de prestígio entre os que dominam com maestria a língua japonesa, como se mantivessem em segredo uma preciosidade do passado. Koichi Mori conta que, na década de 1950, intelectuais faziam críticas negativas à língua japonesa falada no Brasil, por ser bem diferente do idioma original. O japonês presente nas conversações cotidianas no Brasil é um mix de dialetos de diversas províncias japonesas, contando ainda com empréstimo de palavras portuguesas e neologismos.

“A mistura é positiva”, diz o professor, contanto que se admita a mistura. Não só no campo da lingüística, mas no âmbito da culinária, das artes e das relações familiares. Uma vez que a cultura japonesa além-mar passou por transformações, adicionando e perdendo elementos originários, ela passou a ser uma mescla – com maior ou menor similitude com a inicial. Assim, não seria a hora de pararmos com as referências clichês a sushis e palavras de sonoridade engraçada e falarmos de uma cultura hifenizada? Nipo-brasileira.

* Juliana Sayuri Ogassawara é jornalista, curiosíssima por história contemporânea e faminta de cultura. É filha de japoneses, morou na Liberdade e adora sashimi, mas não dá trela para quem a chama de “japa”. É nipo e brasileira, sim, senhor.