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História sem poesia

Por Juliana Sayuri Ogassawara
De São Paulo
(Para Revista Brasileiros – 7/2008)

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Há um século, os primeiros imigrantes japoneses bravamente ancoraram suas vidas no solo sul-americano, dando início aos fortes e felizes laços de amizade que para sempre uniriam Brasil e Japão. Assim reza a lenda na mídia brasileira, brindando com champanhe, caipirinha e saquê o centenário da imigração japonesa no País.

No entanto, a história “real” desse encontro é recheada de confrontos e discórdias entre as duas nações. Conflitos muitas vezes deliberadamente ignorados por aqueles que querem reforçar as fábulas que tanto seduzem os entusiastas de uma cultura nipo-brasileira harmônica.

Diz o ditado popular que os olhos são a janela da alma. Eles dariam frescor à vida e revelariam sentimentos ora ocultos em nossa mente, ora desviados por nossas palavras. Imersas nesse espírito romântico, campanhas publicitárias e reportagens jornalísticas exibem sua astúcia neste 2008 para lapidar a história da imigração japonesa no Brasil como uma pepita de ouro. O momento, afinal, é de festa. Se, na mídia, o nosso verde-amarelismo se mistura ao vermelho e branco da flâmula nipônica, quem recusará as citações ao “sol nascente” e aos contos de fadas contemporâneos de samurais, quimonos, origamis, sushis e afins? É música para os ouvidos e poesia para os olhos de quem se satisfaz com ilusões.

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Foto: Luiza Sigulem

O amarelo no Brasil
No Brasil colonial, às vésperas da abolição da escravatura no final do século XIX, os fazendeiros paulistas precisavam de novos braços para a lavoura de café em substituição aos escravos africanos. Assim, entraram em cena italianos, sírio-libaneses e japoneses, estimulados a migrar para São Paulo a fim de construir uma nova vida na cafeicultura, desta vez nos moldes do trabalho livre.

De acordo com o historiador norte-americano Thomas Holloway, na obra Imigrantes para o Café (Editora Paz e Terra, 1984), essa nova categoria de trabalhadores foi atraída pelas oportunidades de riqueza e prosperidade que imaginavam haver na América. E, assim, o início do século XX marcou o impulso da imigração japonesa ao Brasil. Mais precisamente no dia 18 de junho de 1908, quando, após 20 mil quilômetros navegados, o navio Kasato Maru chegou ao Porto de Santos trazendo 793 imigrantes japoneses, pioneiros do que futuramente se tornaria a maior colônia fora da ilha nipônica. De Santos, os japoneses foram encaminhados à Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo. E de lá, aos campos.

Durante a vinda dos imigrantes japoneses, os diplomatas brasileiros se dedicaram a exaltar os laços amistosos entre as duas nações. Mas, à primeira vista, brasileiros e japoneses se estranharam. Na perspectiva dos asiáticos recém-chegados, o clima, a língua e os costumes, tão díspares dos seus, faziam do Brasil uma atmosfera extravagante. Na ótica dos pátrios, por sua vez, também a chegada de japoneses foi recebida com ares de exotismo, por sua fisionomia, sua língua e sua cultura tão diferentes das que se viam nas terras tupiniquins. Nas três décadas iniciais da imigração, a diplomacia brasileira tentava amenizar tais diferenças disseminando a idéia de que o povo japonês vinha se unir a nós, contribuindo com sua disciplina e sua cultura milenar e, assim, enriquecendo a cultura brasileira – critica o antropólogo norte-americano Jeffrey Lesser no livro A Negociação da Identidade Nacional: Imigrantes, Minorias e a Luta pela Etnicidade no Brasil (Editora Unesp, 2001).

O autor ressalta ainda o contratempo que a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) representou para a adaptação dos imigrantes em nosso País. O Brasil se posicionou a favor dos Aliados, grupo de países formado por França, Grã-Bretanha, Estados Unidos e União Soviética, enquanto o Japão se coligou aos países do Eixo, ao lado de Alemanha e Itália. Por assumirem posições opostas no conflito bélico, a discriminação contra os japoneses se fez explícita e as tensões estremeceram o que poderia vir a ser um relacionamento pacífico entre brasileiros e os imigrantes orientais e seus descendentes no País. A situação era tão grave que, à época, os japoneses eram vistos como o “perigo amarelo”. Por conta disso, no estado de São Paulo tornou-se proibida a circulação de jornais publicados em japonês – ninguém queria que o bairro da Liberdade se transformasse em um refúgio do “inimigo”.

Somente após 1953 as relações entre as duas nações foram reconciliadas, reiniciando o processo imigratório Japão-Brasil. A partir daí, os imigrantes japoneses foram encaminhados para outros estados além de São Paulo, visando não apenas à agricultura, mas a outras atividades. Dessa forma, destaca-se o papel que o imigrante japonês cumpriu na composição do povo brasileiro. Mas é inegável que a história “oficial” sempre privilegiou três principais matrizes étnicas para brindar o povo brasileiro: o branco, o negro e o vermelho. Diante do oriental, o europeu, o africano e o índio, de fato, contam 400 anos a mais de história no Brasil. Considerado assim, o japonês seria uma minoria. Mas, como diria Lesser, é uma minoria composta por milhares de almas que deram adeus às ilhas banhadas pelo Oceano Pacífico e que cravaram suas vidas no território brasileiro. A estimativa é que cerca de 250 mil japoneses tenham aportado no Brasil – 180 mil antes da guerra e 70 mil no pós-guerra. Atualmente, esse número gira em torno de 1,5 milhão de japoneses e seus descendentes.

No calendário, o dia 18 de junho de 2008 oficializou o centenário da saga japonesa no Brasil. E pipocam por todos os cantos do País eventos comemorativos à data. Na dianteira das festividades está a Associação para Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil (ACCIJB), entidade civil sem fins lucrativos constituída em 2003 pela Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e Assistência Social (Bunkyo). Segundo o professor Kokei Uehara, presidente do colegiado administrativo da ACCIJB, o propósito da entidade é relembrar e homenagear a memória dos imigrantes pioneiros e manifestar gratidão pela receptividade dos brasileiros e pelo feliz convívio com os demais imigrantes. “Vamos trabalhar juntos para a realização de uma festa memorável em 2008, simbolizando a paz, a união e o respeito entre dois povos e duas nações irmãs: Brasil e Japão”, diz. Apesar de positivo e politicamente correto, o discurso cria ilusões de que esse relacionamento bilateral tenha se cristalizado como um amálgama culturalmente perfeito.

Além da questão da legitimidade do elo fraternal entre Brasil e Japão no presente, há ainda um entrave na questão da “cultura japonesa” no Brasil. Para festivas edições especiais, as pautas sobre casamentos inter-raciais, ikebana e culinária típica, entre outras, tornaram-se mais do que previsíveis nas revistas e no noticiário. Ao focalizar manifestações culturais de inspiração nipônica, a mídia folcloriza a cultura japonesa, dando a ela ares exóticos. Mas se esquece de que se trata, sobretudo, de “cultura brasileira”. Para o professor Koichi Mori, do Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), não poderíamos sequer nos referir a uma cultura japonesa no Brasil. O que há, na realidade, é o segmento de uma cultura brasileira de inspiração japonesa. Tal inspiração é herança que nikkeis e descendentes preservaram. Ainda assim, é cultura brasileira. Ou melhor: nipo-brasileira. Com esses deslizes – na questão diplomática e na questão teórica da cultura -, a imprensa e a publicidade afoitas têm lidado com o centenário da imigração japonesa como quem garimpa belas frases e fotografias em busca de poesias e preciosidades, afastando as pedras valiosas das más e daquelas que não ofereçam brilho ao olhar.

Liberdade para todos
De terça-feira a sábado, Rosângela Maria de Almeida, 45 anos, desembarca na estação de metrô São Joaquim, vinda da zona norte, por volta das 9 horas da manhã. Desce dois quarteirões até chegar ao salão Studio I, onde trabalha como manicure. Há 18 anos o bairro da Liberdade faz parte da vida de Rosângela, uma negra extrovertida de grandes olhos amendoados. “É um bairro bom para passear”, diz.

Assim como Rô, muitos paulistanos passam diariamente pelas ruas da Liberdade. Uns apenas as cruzam de carro, outros definitivamente têm o bairro como destino final: vão ao trabalho, à escola ou para casa. Há nos arredores muitos hospitais e hotéis, escolas e faculdades, o que infla ainda mais o vaivém de pedestres e automóveis. É o caso de Luis Francisco Vieira Vasconcelos, que hoje estuda no campus Liberdade das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), mas desde criança freqüenta a feira do bairro nos fins de semana. Para completar a sua paixão pela cultura japonesa, ele ainda faz estágio na Fundação Japão. O que chama a atenção de quem desce pela primeira vez nas estações de metrô Liberdade e São Joaquim é a mistura de várias cores e vários olhos em um espaço antes marcado como reduto da colônia japonesa no Brasil.

Há quem equivocadamente diga que a Liberdade só atrai “turistas” e “brasileiros” na famosa feira da Praça da Liberdade, aos domingos. Há quem aponte os descendentes de japoneses como “japas”, como se fossem menos “brasileiros”. Mas, afinal, quem pode afirmar quem é o quê?

Marielle Yukie Udo, uma das freqüentadoras do salão da Rô, admira bastante a cultura japonesa. Estudante de relações internacionais na Pontifícia Universidade Católica (PUC), ela faz estágio na secretaria da ACCIJB. “Considero-me mestiça. Mais do que isso, me orgulho muito de ser uma mistura tanto de características biológicas quanto culturais. E não acredito em uma cultura japonesa pura, pois mesmo no Japão encontra-se uma mistura da cultura japonesa e de elementos estrangeiros”, diz. Intercalando palavras da língua portuguesa com sotaque oriental, com seu bigode grisalho e seus olhos miúdos escondidos atrás de grandes óculos, o professor Koichi Mori – um japonês radicado no Brasil desde 1995 – concorda. “A fusão, definitivamente, é positiva”. Mori, Rô, Luis e Marielle são figuras que ilustram bem essa miscelânea de povos da Liberdade. Atores de histórias e olhares diferentes sobre a imigração japonesa. Eles escapam do espetáculo folclórico da imprensa, mas simbolizam o encontro de culturas de várias cores em uma. A dos brasileiros.